de revoada

Participação em De Revoada

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14.05.2019 – Uma frase de Oscar Wilde

 

Muitas vezes lemos citações no meio de ensaios e até reportagens que nos detêm na correria do cotidiano e nos fazem refletir. O cérebro como que se volta para o interior e imprime novo ritmo à nossa busca de compreensão. A frase que hoje veio conversar comigo é do grande escritor Oscar Wilde, nascido na Irlanda como sói acontecer na literatura inglesa.

“We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars.”

Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando para as estrelas.”

 

A citação é da comédia de costumes Lady Windermere’s Fan de 1892.

 

Rosaura Eichenberg

05.05.2019 – Palavras Sensatas num Mundo Insensato

 

Numa mensagem no twitter, Jim Rickards (James G. Rickards, advogado americano, autor de livros sobre questões financeiras – Currency Wars, comentarista de mídia – @JimRickards) escreve exemplarmente sobre as tão faladas mudanças climáticas.

“Climate changes slowly, has for eons. Humans can’t do anything about it except adapt, which we do extremely well.”

“O clima muda lentamente, tem mudado por eras a fio. Os humanos nada podem fazer a respeito exceto adaptar-se, o que fazemos extremamente bem.”

Está dito tudo o que se pode dizer a respeito das mudanças climáticas. E só Deus sabe o quanto precisamos de palavras sensatas em nossos dias.

O alarme apocalíptico sobre o aquecimento da Terra causado pela crescente emissão de COtraz em seu bojo um embuste retórico. O desastre climático iminente é provocado pelo homem, repetem autoridades científicas e políticas, sendo urgente tomar medidas que impeçam a catástrofe. Por baixo dessa declaração intimidadora, a retórica esconde um engodo capaz de seduzir a ansiedade humana – afirmam que existe um grave problema com o clima da Terra, causado pelo homem, portanto, sob controle humano. Os alarmistas estão na verdade assegurando que o homem pode controlar o clima da Terra. Isso é música para os ouvidos da humanidade, que custa a enfrentar que não passa de um nada invisível em cima de um “pálido ponto azul” (segundo a descrição da Terra dada por Carl Sagan).

Só que uma dificuldade aguarda o mundo na esquina – a afirmação é falsa, o homem não pode controlar o clima da Terra. Como diz Jim Rickards, podemos apenas nos adaptar – e ele abre uma perspectiva otimista, quando diz que é algo que fazemos extremamente bem.

Nas considerações alarmistas sobre o clima, constato um erro grave – misturam dois níveis, o local e o global, como se fossem idênticos. Em nível local, a ação humana tem forte impacto sobre o meio ambiente, e os cuidados ecológicos são imprescindíveis. Em nível global, as forças em ação estão geralmente além do alcance humano, e muitas das teses científicas se perdem em especulações.

O homem não pode controlar o clima da Terra, mas ele pode cuidar de seu meio ambiente, evitando a atitude suicida de destruir seu habitat. Em outras palavras, as medidas para melhorar as condições da vida humana estarão sempre em nível local. Achar que podemos influir na natureza em nível global – positiva ou negativamente – é pretensão e água benta.

Muitos afirmam que os ataques ao meio ambiente são fruto da ganância humana, do terrível capitalismo. A observação da realidade aponta em sentido contrário, porque os países livres do Ocidente são os que mal ou bem adotam cuidados ecológicos, enquanto os países controlados por regimes totalitários não dão a mínima para a ecologia. Basta pensar no estado do meio ambiente na Alemanha Oriental, na poluição colossal na China, num Chernobyl que causou tantos danos por não dispor de um sistema de prevenção eficaz.

Sem entrar no exame da adaptação humana ao meio ambiente ou da adaptação do meio ambiente aos humanos, cumpre mencionar a busca científica atual de fontes de energia limpa. Um trabalho de longos anos e de muitas tentativas e erros, que ninguém se iluda. Os experimentos com energia eólica e solar, por exemplo, não estão apresentando resultados satisfatórios. Mas é um esforço digno de nossa busca de conhecimento. E as palavras de Jim Rickards estimulam o nobre esforço:

Ao clima os humanos só podem “adaptar-se, o que fazemos extremamente bem.”

 

Rosaura Eichenberg

06.04.2019 – Sobre “Instinto de Nacionalidade” de Machado de Assis

 

 

Em 1873, um jovem Machado de Assis de 34 anos escreveu um ensaio crítico sobre a literatura brasileira então nos seus primórdios. Deu ao seu estudo o nome de “Instinto de Nacionalidade”, que definiu como “o geral desejo de criar uma literatura mais independente”.

E advertia: “Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.”

Na literatura de seu tempo, já vislumbrava uma tendência a essa desejada independência na escolha de temas próprios da terra, o que ele chama cor local. Analisava com muita propriedade o tema do índio que era então explorado nas obras de Gonçalves Dias, José de Alencar e outros. Afirmava:

“É certo que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isto basta para não ir buscar entre as tribos vencidas os títulos de nossa personalidade literária.”

Mas ponderava que essa constatação não exclui os índios das páginas literárias, por serem um tema capaz de inspirar os escritores. E continuava lembrando que a paisagem exuberante das terras brasileiras não só estimula como desafia o estro de nossos poetas e prosadores.

Alertava, entretanto, que essa primeira fase de explorar a cor local devia ser ultrapassada, e propunha a questão da brasilidade em termos que ainda não foram superados nem mesmo neste nosso século XXI. Dizia:

“O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

E explicitava o que estava querendo dizer:

“Um notável crítico da França, analisando há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre de tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial.”

Machado de Assis vai fundo no que constitui a cultura de um grupo humano. Ele sabe que os aspectos exteriores são apenas faceta vistosa, muitas vezes incapazes de revelar a trama sutil das vivências que urdem o tecido do convívio humano.  Por isso diz que a personalidade literária brasileira não será encontrada na beleza variegada de nossas paisagens, no caudaloso Amazonas nem nos córregos que enfeitam as várzeas, nem tampouco nos costumes pitorescos de cada região.

Apesar de os brasileiros terem uma forte inclinação para a anarquia do carnaval, a brasilidade não precisa vestir fantasias para se realizar. Deve ser antes buscada no sentimento interior dos que habitam esta terra. Como diz Machado de Assis:

“… e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e o Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês.”

Isto é, os brasileiros podemos nos fantasiar de dançarinos de tarantela, messalinas, super-heróis, arlequins e pierrôs que a brasilidade íntima acabará se revelando entre os panos e véus.

Já se passou mais de século desde a publicação do ensaio machadiano, e muitas obras de nossa literatura percorreram o caminho da busca de nossa brasilidade intrínseca, inclusive a própria obra de Machado de Assis. Duas realizações sobressaem nessa procura, dois grandes escritores que se debruçaram sobre o sertão brasileiro, Euclides da Cunha e João Guimarães Rosa.

“Os Sertões” relata a luta que se desenrolou em Canudos, região norte da Bahia, no final do século XIX, entre as forças governamentais e os rebeldes aglomerados em torno de Antonio Conselheiro.  O livro se divide em três partes: a terra, o homem e a luta. Na primeira, Euclides da Cunha está longe de criar apenas a cor local com a descrição da catinga nordestina. A sua apresentação geográfica é dramática, a natureza revelando o embate das grandes forças em ação na região. Ao falar do homem na segunda parte, Euclides recorre às teorias correntes no seu tempo para tentar caracterizar os seres humanos que habitam o nordeste brasileiro. Emula o cientista que se debruça sobre seu objeto de estudo com lupas especiais, sem se preocupar em verificar a precisão das lentes. E ao descrever a luta em Canudos na terceira parte, Euclides parte ao encontro de uma realidade que até então desconhecia. A tarefa que se propusera realizar era reportar o conflito que se desenrolava na região, mas o repórter se viu às voltas com a descrição de um país que era o seu, mas que lhe era estranho. Euclides da Cunha vinha tornar visível o hiato entre os brasileiros e eles próprios, focalizando a distância concreta entre o Brasil litorâneo e o Brasil dos sertões. Mais uma descoberta do Brasil, numa lista que não parece ter fim.

João Guimarães Rosa é outro desbravador da realidade brasileira. Em sua obra, vamos encontrar de novo as lacunas concretas de nossa cultura fragmentada, e a busca de conhecer um Brasil envolto num sertão que adquire contornos míticos. Ele vivencia esse confronto com o país desconhecido no âmbito da linguagem. No seu livro de estreia, Sagarana, ainda coloca entre aspas as expressões e frases idiomáticas com que entrava em contato na paisagem mineira. Mas nos livros seguintes, a linguagem já se metamorfoseia para tentar revelar a fusão de idiomas diversos, uma multiplicidade barroca abrindo-se em tudo quanto é direção. A leitura de João Guimarães Rosa proporciona encontros e desencontros brasileiros, estonteante a diversidade das veredas a serem trilhadas pelo grande sertão.

E que dizer do próprio Machado de Assis? Ele ajustou suas lentes sobre o ambiente urbano, seguindo uma linha já experimentada por Manuel Antônio de Almeida em seu Memórias de um Sargento de Milícias. E coerente com o que escreveu em seu ensaio de 1873, não se deteve no superficial, nem deixou que os clichês e a cor local embaçassem sua visão. Procurou transpor o hiato entre o brasileiro que vive uma realidade e o brasileiro que se vê vivendo essa realidade com toda a sutileza de sua ironia. Num de seus romances, Quincas Borba, caricaturou a Belle Époque no Rio de Janeiro, os brasileiros macaqueando os costumes, os trejeitos, o luxo, as modas de Paris. Mas esses quadros gerais são apenas contrapontos aos indivíduos que têm sua trajetória acidentada traçada em busca de algum ou nenhum sentido para suas vidas. De suas histórias relatadas com muita ironia é que tende a brotar o encontro com o brasileiro.

O interessante é observar a reação dos leitores aos romances de Machado de Assis. A maioria dos brasileiros trata Machado como se fosse bicho raro, alguma coisa que não conseguem compreender muito bem. Declaram que ele não falou dos brasileiros, mas escreveu histórias universais. Pasteurizam Machado de Assis e sentem-se aliviados por serem capazes de guardar o incômodo em gavetas emperradas. Os leitores ainda procuram nas letras a cor local, os aspectos exteriores mais fáceis de serem assimilados. Preferem ler Jorge Amado que criou vários romances redigidos, com todo o devido respeito, quase que para turistas. E mesmo a ironia de um Lima Barreto, a carnavalização de um Mario de Andrade parecem mais palatáveis por se manterem à tona sem se embrenharem nos caminhos iluminados pela luz oblíqua de Machado de Assis.

A caricatura da Belle Époque no Rio de Janeiro traçada por Machado de Assis talvez nos conduza a uma possível compreensão dessa incapacidade de os brasileiros saberem de si mesmos, de irem além dos aspectos exteriores. Com as honrosas e múltiplas exceções – por exemplo, o estudo de Gilberto Freyre em Casa Grande Senzala – os brasileiros tendemos a ver o Brasil com lentes estrangeiras adquiridas em Paris, nos Estados Unidos, na Europa, nos grandes centros culturais do Ocidente. Essa visão de fora trai a realidade, e por isso recuamos assustados quando um Euclides da Cunha ou um João Guimarães Rosa nos mostra um país desconhecido. Ou quando um Machado de Assis nos convida a acompanhá-lo numa busca de nós mesmos.

A verdade muito amarga é que o alerta do artigo machadiano sobre Instinto de Nacionalidade não perdeu sua validade. Neste século XXI, os brasileiros ainda não sabemos de onde viemos, quem somos, para onde vamos. Ele avisou que nossa independência “não se fará num dia” – ainda tarda o cumprimento de nosso destino.

 

Rosaura Eichenberg

30.03.2019 – Uma percepção incômoda

Difícil acompanhar o que está acontecendo no início deste século XXI, mas não é possível se esquivar do que vivenciamos. Os nossos meios de comunicação são hoje cada vez mais velozes, mais eficazes, mais presentes. Bastam alguns cliques, e conseguimos todas as informações de que precisamos, falamos com todos os participantes de nosso diálogo com o mundo. Mas não dá para negar a realidade – a comunicação humana está cada vez mais impossível, o que provoca a atrofia do seu principal instrumento, os diversos idiomas. Uma percepção sombria, até macabra, de nossos tempos.

Rosaura Eichenberg

30.03.2019 – PocketStore – Nova Livraria em Porto Alegre

PocketStore Livrarira

Na contramão do enfraquecimento das livrarias e editoras pelo Brasil afora, abriu em Porto Alegre uma livraria ligada à Editora L&PM na Rua Félix da Cunha, 1167 – bairro Moinhos de Vento. Um acontecimento a ser festejado no Brasil inteiro. A leitura de livros é o maior antídoto contra o estado de penúria da educação e cultura brasileiras.  Porto Alegre está de parabéns!

Equipe Ibis

10.03.2019 – Vida inteligente na juventude brasileira

 

A grande tragédia brasileira nos últimos anos é a derrocada na área da educação. São gerações e gerações perdidas, pois o país parece estar formando muita gente que não sabe ler, escrever ou fazer contas. Por isso foi uma surpresa agradável descobrir um comentarista político da Rádio Jovem Pan chamado Caio Coppolla, um menino formado em estudos jurídicos que veio desmentir o cenário deprimente. Ele brilha pela clareza de suas análises, pelo cuidado meticuloso com os dados que apresenta, pela busca de uma compreensão embasada na realidade. No ambiente polarizado dos debates políticos, ele se declara conservador sem a pretensão de estar de posse de verdades absolutas, mas não se deixa intimidar se atacam erroneamente suas posições. Muito interessante o que diz sobre ser conservador, antes uma atitude que uma ideologia. Em suma, ninguém deve procurar seus comentários por estarem de acordo com essa ou aquela posição, mas por contribuírem para a compreensão do que está sendo discutido.

É até natural que na tresloucada cena da nossa cultura e política, um comentarista desse naipe fosse logo atacado. O ataque veio sob a forma de uma pretensa denúncia – o seu nome seria falso, ele teria outro nome, não usaria o sobrenome paterno por se envergonhar do pai, ou coisa parecida. Pelo que pude apreender, a intenção era dizer – esse comentarista é falso, pois até seu nome não é verdadeiro. Caio Coppola é ainda quase menino, e certamente sofreu com ataque tão vil que atingia, além do mais, sua família. E se defendeu com galhardia no programa de rádio de que participa – ao vê-lo rebater a besteira injuriosa, não pude deixar de pensar em “the spurns that patient merit of the unworthy takes”, mas as palavras que a fúria diante da vilania polarizada colocou em meus lábios foram as de Mercutio: “A plague on both your houses!”

E para a mãe de Caio Coppolla, que se viu envolvida nesse mundo de baixarias porque é dela o sobrenome Coppolla, cumpre lembrar outro verso do grande poeta: “What’s in a name?  …a rose by any other name would smell as sweet.”

 

O grande poeta citado é William Shakespeare.

– “the spurns that patient merit of the unworthy takes”  –  monólogo de Hamlet em Hamlet, Ato III, Cena I

– “A plague on both your houses!” – fala de Mercutio em Romeo and Juliet, Ato III, Cena I

–  “What’s in a name?  …a rose by any other name would smell as sweet”  – fala de Juliet em Romeo and Juliet, Ato II, Cena II

 

Rosaura Eichenberg

12.02.2018 – Um Recado de Machado de Assis

 

Examinando um texto crítico de Machado de Assis, “Instinto de Nacionalidade”, escrito em 1873, encontrei um recado aos jovens escritores daqueles tempos que cai como uma luva em nossos dias. Diz ele:

“Outra coisa de que eu queria persuadir a mocidade é que a precipitação não lhe afiança muita vida aos escritos. Há um prurido de escrever muito e depressa, tira-se disso glória, e não posso negar que é caminho de aplausos. Há intenção de igualar as criações do espírito com as da matéria, como se elas não fossem nesse caso inconciliáveis. Faça muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias, para uma obra-prima do espírito são precisos alguns mais.

Atualmente, quando as obras de arte parecem feitas de afogadilho, sem haver maturação na sua produção e recepção, vale escutar o conselho de Machado de Assis. Muitos escritos e imagens entram no turbilhão da web, conquistam fama efêmera, e logo são descartados. Por falta de maior reflexão sobre o tema, não afirmo que seu defeito principal seja essa precipitação, mas o fato de os produtos artísticos serem descartáveis é certamente sinal de que  há algo de podre no reino da Dinamarca. E acho que Machado de Assis acertou em cheio ao apontar o equívoco de querer igualar as criações do espírito com as da matéria. Fruto desse erro de monta, a arte acaba no mesmo grande lixo de matéria consumida. A sociedade moderna, globalizada e massificada, incute um novo modo de lidar com o tempo, e há que reconhecer as características e os muitos defeitos intrínsecos dessa mudança. Repito Machado de Assis, que os clássicos têm muito a nos dizer:

“Faça muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias, para uma obra-prima do espírito são precisos alguns mais.”

 

Rosaura Eichenberg

23.12.2017 – Meu Vô

MEU VÔ

Um probre homem

PUBLICADO HÁ 90 ANOS, O LIVRO DE CONTOS UM POBRE HOMEM, QUE MARCOU A ESTREIA DE DYONELIO MACHADO, ESTÁ GANHANDO UMA REEDIÇÃO. A NETA DO ESCRITOR ESCREVEU A APRESENTAÇÃO DO VOLUME, EM TEXTO QUE ZH REPRODUZ A SEGUIR

Sou neta do Dyonelio Machado. Sei disso desde pequena, porém, só ao longo da minha vida é que fui entendendo a delícia e a dor dessa genealogia. Escritor famoso, político importante, presidiário comunista, maldito, odiado, amado e sempre verdadeiro. E o melhor, antes de tudo, meu vô: o primeiro a me pegar no colo, a apreciar meus desenhos, a me oferecer um copo de vinho, a me indicar os clássicos da literatura e, mesmo hesitante, a me emprestar um livro de orientação sexual.

Nossa amizade surgiu da vivência, não da literatura. Contar coisas nossas beira a intimidade e talvez não interesse a muita gente, mas é isso que revela e humaniza o personagem autor de Os Ratos (1935).

Quero crer que sempre fui sua neta preferida, já que preferência é afinidade, empatia, algo que se sente, que não tem explicação. Comigo ele conseguia ser criança. Eu adorava as suas travessuras. Enquanto uns se entediavam com sua declamação de poemas em algum almoço de família, eu babava. E, quando tudo estava chato, nos refugiávamos, eu e ele, na cozinha e conversávamos com as empregadas.

Como ele gostava de plateia para narrar suas histórias, eu era a melhor companhia, e também testemunha e cúmplice de suas proezas de artesão. Lembro-me muito bem daqueles dedos longos restaurando livros antigos. “Mequinha, sabes que já fui encadernador?” Era esse meu apelido, entre nós apenas, pois nunca tive apelidos; aliás, odeio apelidos, mas desse eu gostava, e até hoje desconheço se tem algum significado.

Mais tarde soube que esses mesmos dedos esculpiram, lá nos anos 1930, no cárcere político, peças de um jogo de xadrez em cabos de vassoura, relíquia que segue guardada em um saquinho feito com um pedaço de uniforme listrado de presidiário e que consegui resgatar recentemente com uma prima. Dedos que me ensinaram a embaralhar cartas de uma forma diferente – ele apreciava jogar truco -, técnica que somente quando tive mãos de adulta pude realmente colocar em prática.

Nos fundos da casa da praia do Imbé tinha uma casinha amarelinha, uma espécie de oficina, batizada Vila Andrea… Eu amava isso, era uma homenagem! E demorou anos até eu descobrir Palladio – Andrea di Pietro della Gondola -, na faculdade de Arquitetura, e entender o sentido de villa. Na Vila Andrea havia tudo o que precisávamos para montar uma pandorga: ferramentas, varetas e papéis de seda coloridos. Sim, ele fazia e empinava pandorgas.

E as ironias? Hilárias para mim. “Inglês não interessa muito, português é uma língua obscena, aprenda francês.” Obedeci. Futricando sua mesa de trabalho, que na época se chamava birô (“bureau”, em francês), descobri as fotos! Muitas fotos de fachadas e vistas de Porto Alegre, lindas, registros de longas caminhadas. Será que nasceu daí minha paixão pela arquitetura… e pelas caminhadas?

Os Ratos traduz essa visão cinematográfica, a vida em movimento, ao descrever imageticamente a perambulação pela floresta urbana, barulhenta, labiríntica, de céu recortado, inferno e paraíso da civilização.

Meus 15 anos nos foram brindados com um poema: “Tens o silêncio no gesto, grande sinal de nobreza”. E logo veio a abertura política e a reedição de seus livros. O velho amigo então me outorgou o cargo de sua “base de massa”, uma convocação que, nessa época, eu ainda não sabia como honrar.

Quando defendi meu doutorado, escutei atentamente as observações da banca, mas recordando que ele contava que, em sua defesa, esbravejou para a plateia após comentários absurdos de um dos membros: “Ele não leu a tese!”. Esse era Dyonelio Machado!

Durante minha vida fui entendendo melhor sua faceta pública e também suas histórias pessoais, aquelas que realmente impulsionam o mundo e que desvendam o homem por trás do escritor, ou melhor, entranhado no escritor. As histórias do menino solitário do Quaraí, o início do namoro com minha avó, Adalgiza, companheira de toda a vida, que nunca perdia a elegância, nem mesmo quando tinha de ouvir: “Mequinha, que bom quando vens almoçar, só assim tem comida boa, porque, tu sabes, eu sou o bicho da casa”. E ele fazia cara de bicho. E ria.

A Adalgiza era pianista, lia, costurava, e preparava um doce de leite e uma massa inesquecíveis. Mas vivia mesmo era para ele. E, quando o Velho – assim ela carinhosamente o chamava – se foi, organizou as cartas, os manuscritos, tudo. Terminado o trabalho, deitou-se no sofá e se foi também.

Em minha família, as histórias vão sendo contadas aos poucos. E se misturam às lembranças que tenho do meu vô.

ANDREA SOLER MACHADO
Caderno DOC – Jornal Zero Hora  – 23 DE DEZEMBRO DE 2017

Equipe Ibis

21.12.2017 – Meu Dickie

Foi em 2002 que meu irmão me deu um cachorrinho da ninhada que nasceu na casa dele. Um dackel caramelo, atrevido e amoroso como só os cachorrinhos salsichas sabem ser.

Já são mais de quinze anos de companheirismo e convívio alegre em que, é claro, quem sabe das coisas e me orienta os passos é o Dick, ou Dickie conforme a correção fonética de uma amiga americana. Quando passeamos na rua, ele se lança latindo contra os cachorros grandes porque se imagina com o dobro do tamanho do intruso que surgiu à sua frente. E quando me olha compreensivo, sinto que o cachorrinho conhece de cor e salteado todos os escaninhos de minha cabeça.

Passados tantos anos com suas limitações de praxe, o Dickie já não pula no sofá, mas continua lindo como sempre foi desde pequeninho. E, como não podia deixar de ser, continua no comando da nossa vida.

Admiro desde que me conheço por gente a magia do traço do pintor Pablo Picasso. Foi uma surpresa de grande felicidade descobrir que ele também gostava dos salsichinhas e deixou tracejado com elegância singela o perfil de meu Dickie.

Rosaura Eichenberg

04.12.2017 – Gonçalo Mendes Ramires

 

Casa da Torre da Lagariça (Ilustre Casa de Ramires)

Das minhas leituras dos romances de Eça de Queirós, sempre guardei a impressão de um magnífico panorama da vida humana com todas as suas idiossincrasias. A riqueza dos detalhes das variadas figuras que perambulam pelas páginas do escritor português é de uma excelência ímpar. E também sempre me surpreendeu que os protagonistas se mostrem ralos, sem que seus dramas pessoais adquiram realmente vida. Os personagens principais dos romances de Eça de Queirós esmaecem na memória do leitor em contraste com um ou outro detalhe vívido de figuras secundárias.

A leitura de A Ilustre Casa de Ramires me reservou uma surpresa. O fidalgo da Torre, último representante da Casa de Ramires, não é dessas figuras que deixam poucas marcas no leitor. Gonçalo Mendes Ramires adquire contornos palpáveis no romance.

A narrativa é construída em dois planos – a história dos ancestrais guerreiros dos Ramires apresentada em tons um tanto debochados, e as desventuras do último representante da casa ilustre que empreende a redação da história de sua família.

Impossível deixar de rir, mesmo que à socapa, do grande antepassado que se chama Tructesindo. Não sei se esse nome é histórico ou inventado por Eça de Queirós, mas provoca o espírito de troça no leitor. Essa narrativa de grandes feitos heroicos descortina quadros épicos que Eça de Queirós pinta com maestria, sem deixar de sublinhá-los com a ironia que lhe é peculiar. No auge da peleja, chega a insinuar uma observação prosaica de que toda a fúria guerreira talvez não tenha razão de ser.

As desventuras do último dos Ramires traçam os contornos de um personagem com graves defeitos de caráter e um quê de covardia. Eça de Queirós delineia muito bem os desvãos da personalidade do fidalgo – o modo como ludibria sua consciência para fechar um negócio mais lucrativo apesar de ter empenhado sua palavra com outro parceiro, a manobra de restabelecer uma amizade do passado para conseguir apoio político, mesmo que isso possa ter consequências funestas para a situação moral de sua irmã, sua disposição a considerar o casamento com uma mulher que não lhe agrada só por ela ter fortuna. Uma personalidade que flerta com a canalhice e que, ainda por cima, se acovarda diante de quem o intimida.

O romance segue os desacertos do fidalgo e acaba delineando uma mudança no personagem. Num rompante inesperado, ele enfrenta o valentão que se comprazia em intimidá-lo, um sujeito de barba ruiva igual à do inimigo de seus antepassados. Com essa façanha, ele como que retoma seu lugar na Torre dos Ramires, e adquire uma estatura de verdadeiro fidalgo. Eça de Queirós chega a esboçar uma reflexão do personagem sobre a fragilidade e a falta de sentido da vida.

A transformação, entretanto, se mostra tão rala quanto as aventuras ao longo do romance. De acordo com outro personagem, Antônio Vilalobos, vulgo Titó, um homenzarrão desajeitado feito de material moral mais sólido, Gonçalo Mendes Ramires é leviano, mas seu amigo.

Tudo levaria a crer que mais uma vez o protagonista de um romance de Eça de Queirós prima por ser bastante superficial e irrelevante. Seu caráter é muito bem analisado pelo autor, mas seu destino parece tão sem graça quanto o de seus antepassados de nomes risíveis. Entretanto, não é o que acontece.

Gonçalo Ramires por Tomaz de Melo (Tom)

Gonçalo Mendes Ramires cativa o leitor. Ele é dado a ações ínfimas, coisas mínimas, sem importância, como o autor não cansa de repetir. Quando um escritor insiste em frisar que algo é coisa muito pequena, sem relevância, o leitor tem mais é que desconfiar. Pode muito bem ser que se trate do que há de mais precioso no livro.

O fato é que o fidalgo costuma ajudar as outras pessoas. Um trabalhador está com o pé ferido, o fidalgo lhe empresta a montaria e segue a pé ao seu lado. A espontaneidade da sua ação é real, mas ainda é possível escutar vozes céticas que questionem seu altruísmo. Essas vozes se calam, porém, numa outra cena comovente. O fidalgo é ameaçado por um lavrador que se ressentia de o fidalgo ter rompido o negócio apalavrado com ele. Como de costume, o fidalgo se acovarda e foge, mas não deixa de pedir a prisão do agressor no dia seguinte. Numa noite de chuva torrencial, a mulher do lavrador procura o fidalgo junto com os filhos pequenos para pedir que o marido seja libertado. O fidalgo lhe assegura que o homem estará livre no dia seguinte, e diz que ela deve voltar para casa.  Mas então percebe que o menino que a acompanha está doente com febre, e por isso não deixa que ela o leve de volta embaixo da chuva forte. Agasalha o menino, coloca-o na cama, acarinha a criança e, mais de uma vez durante a noite, vem ver como está o doente, se a febre amainou. É uma cena ínfima, coisa sem importância, mas que o leitor grava na memória. Muito mais impressionante que todas as façanhas do Tructesindo.

Gonçalo Mendes Ramires fascina por se revelar partícipe do destino do comum dos mortais. Como acontece na vida, há algo insondável na sua natureza que o torna vivo. Muitas vezes é o inferno interior que atrai os escritores que buscam conhecer o ser humano. O protagonista Gonçalo Mendes Ramires aponta que o céu interior também não deixa de ser insondável.

 

Rosaura Eichenberg

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