de revoada

Participação em De Revoada

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12.02.2018 – Um Recado de Machado de Assis

 

Examinando um texto crítico de Machado de Assis, “Instinto de Nacionalidade”, escrito em 1873, encontrei um recado aos jovens escritores daqueles tempos que cai como uma luva em nossos dias. Diz ele:

“Outra coisa de que eu queria persuadir a mocidade é que a precipitação não lhe afiança muita vida aos escritos. Há um prurido de escrever muito e depressa, tira-se disso glória, e não posso negar que é caminho de aplausos. Há intenção de igualar as criações do espírito com as da matéria, como se elas não fossem nesse caso inconciliáveis. Faça muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias, para uma obra-prima do espírito são precisos alguns mais.

Atualmente, quando as obras de arte parecem feitas de afogadilho, sem haver maturação na sua produção e recepção, vale escutar o conselho de Machado de Assis. Muitos escritos e imagens entram no turbilhão da web, conquistam fama efêmera, e logo são descartados. Por falta de maior reflexão sobre o tema, não afirmo que seu defeito principal seja essa precipitação, mas o fato de os produtos artísticos serem descartáveis é certamente sinal de que  há algo de podre no reino da Dinamarca. E acho que Machado de Assis acertou em cheio ao apontar o equívoco de querer igualar as criações do espírito com as da matéria. Fruto desse erro de monta, a arte acaba no mesmo grande lixo de matéria consumida. A sociedade moderna, globalizada e massificada, incute um novo modo de lidar com o tempo, e há que reconhecer as características e os muitos defeitos intrínsecos dessa mudança. Repito Machado de Assis, que os clássicos têm muito a nos dizer:

“Faça muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias, para uma obra-prima do espírito são precisos alguns mais.”

 

Rosaura Eichenberg

23.12.2017 – Meu Vô

MEU VÔ

Um probre homem

PUBLICADO HÁ 90 ANOS, O LIVRO DE CONTOS UM POBRE HOMEM, QUE MARCOU A ESTREIA DE DYONELIO MACHADO, ESTÁ GANHANDO UMA REEDIÇÃO. A NETA DO ESCRITOR ESCREVEU A APRESENTAÇÃO DO VOLUME, EM TEXTO QUE ZH REPRODUZ A SEGUIR

Sou neta do Dyonelio Machado. Sei disso desde pequena, porém, só ao longo da minha vida é que fui entendendo a delícia e a dor dessa genealogia. Escritor famoso, político importante, presidiário comunista, maldito, odiado, amado e sempre verdadeiro. E o melhor, antes de tudo, meu vô: o primeiro a me pegar no colo, a apreciar meus desenhos, a me oferecer um copo de vinho, a me indicar os clássicos da literatura e, mesmo hesitante, a me emprestar um livro de orientação sexual.

Nossa amizade surgiu da vivência, não da literatura. Contar coisas nossas beira a intimidade e talvez não interesse a muita gente, mas é isso que revela e humaniza o personagem autor de Os Ratos (1935).

Quero crer que sempre fui sua neta preferida, já que preferência é afinidade, empatia, algo que se sente, que não tem explicação. Comigo ele conseguia ser criança. Eu adorava as suas travessuras. Enquanto uns se entediavam com sua declamação de poemas em algum almoço de família, eu babava. E, quando tudo estava chato, nos refugiávamos, eu e ele, na cozinha e conversávamos com as empregadas.

Como ele gostava de plateia para narrar suas histórias, eu era a melhor companhia, e também testemunha e cúmplice de suas proezas de artesão. Lembro-me muito bem daqueles dedos longos restaurando livros antigos. “Mequinha, sabes que já fui encadernador?” Era esse meu apelido, entre nós apenas, pois nunca tive apelidos; aliás, odeio apelidos, mas desse eu gostava, e até hoje desconheço se tem algum significado.

Mais tarde soube que esses mesmos dedos esculpiram, lá nos anos 1930, no cárcere político, peças de um jogo de xadrez em cabos de vassoura, relíquia que segue guardada em um saquinho feito com um pedaço de uniforme listrado de presidiário e que consegui resgatar recentemente com uma prima. Dedos que me ensinaram a embaralhar cartas de uma forma diferente – ele apreciava jogar truco -, técnica que somente quando tive mãos de adulta pude realmente colocar em prática.

Nos fundos da casa da praia do Imbé tinha uma casinha amarelinha, uma espécie de oficina, batizada Vila Andrea… Eu amava isso, era uma homenagem! E demorou anos até eu descobrir Palladio – Andrea di Pietro della Gondola -, na faculdade de Arquitetura, e entender o sentido de villa. Na Vila Andrea havia tudo o que precisávamos para montar uma pandorga: ferramentas, varetas e papéis de seda coloridos. Sim, ele fazia e empinava pandorgas.

E as ironias? Hilárias para mim. “Inglês não interessa muito, português é uma língua obscena, aprenda francês.” Obedeci. Futricando sua mesa de trabalho, que na época se chamava birô (“bureau”, em francês), descobri as fotos! Muitas fotos de fachadas e vistas de Porto Alegre, lindas, registros de longas caminhadas. Será que nasceu daí minha paixão pela arquitetura… e pelas caminhadas?

Os Ratos traduz essa visão cinematográfica, a vida em movimento, ao descrever imageticamente a perambulação pela floresta urbana, barulhenta, labiríntica, de céu recortado, inferno e paraíso da civilização.

Meus 15 anos nos foram brindados com um poema: “Tens o silêncio no gesto, grande sinal de nobreza”. E logo veio a abertura política e a reedição de seus livros. O velho amigo então me outorgou o cargo de sua “base de massa”, uma convocação que, nessa época, eu ainda não sabia como honrar.

Quando defendi meu doutorado, escutei atentamente as observações da banca, mas recordando que ele contava que, em sua defesa, esbravejou para a plateia após comentários absurdos de um dos membros: “Ele não leu a tese!”. Esse era Dyonelio Machado!

Durante minha vida fui entendendo melhor sua faceta pública e também suas histórias pessoais, aquelas que realmente impulsionam o mundo e que desvendam o homem por trás do escritor, ou melhor, entranhado no escritor. As histórias do menino solitário do Quaraí, o início do namoro com minha avó, Adalgiza, companheira de toda a vida, que nunca perdia a elegância, nem mesmo quando tinha de ouvir: “Mequinha, que bom quando vens almoçar, só assim tem comida boa, porque, tu sabes, eu sou o bicho da casa”. E ele fazia cara de bicho. E ria.

A Adalgiza era pianista, lia, costurava, e preparava um doce de leite e uma massa inesquecíveis. Mas vivia mesmo era para ele. E, quando o Velho – assim ela carinhosamente o chamava – se foi, organizou as cartas, os manuscritos, tudo. Terminado o trabalho, deitou-se no sofá e se foi também.

Em minha família, as histórias vão sendo contadas aos poucos. E se misturam às lembranças que tenho do meu vô.

ANDREA SOLER MACHADO
Caderno DOC – Jornal Zero Hora  – 23 DE DEZEMBRO DE 2017

Equipe Ibis

21.12.2017 – Meu Dickie

Foi em 2002 que meu irmão me deu um cachorrinho da ninhada que nasceu na casa dele. Um dackel caramelo, atrevido e amoroso como só os cachorrinhos salsichas sabem ser.

Já são mais de quinze anos de companheirismo e convívio alegre em que, é claro, quem sabe das coisas e me orienta os passos é o Dick, ou Dickie conforme a correção fonética de uma amiga americana. Quando passeamos na rua, ele se lança latindo contra os cachorros grandes porque se imagina com o dobro do tamanho do intruso que surgiu à sua frente. E quando me olha compreensivo, sinto que o cachorrinho conhece de cor e salteado todos os escaninhos de minha cabeça.

Passados tantos anos com suas limitações de praxe, o Dickie já não pula no sofá, mas continua lindo como sempre foi desde pequeninho. E, como não podia deixar de ser, continua no comando da nossa vida.

Admiro desde que me conheço por gente a magia do traço do pintor Pablo Picasso. Foi uma surpresa de grande felicidade descobrir que ele também gostava dos salsichinhas e deixou tracejado com elegância singela o perfil de meu Dickie.

Rosaura Eichenberg

04.12.2017 – Gonçalo Mendes Ramires

 

Casa da Torre da Lagariça (Ilustre Casa de Ramires)

Das minhas leituras dos romances de Eça de Queirós, sempre guardei a impressão de um magnífico panorama da vida humana com todas as suas idiossincrasias. A riqueza dos detalhes das variadas figuras que perambulam pelas páginas do escritor português é de uma excelência ímpar. E também sempre me surpreendeu que os protagonistas se mostrem ralos, sem que seus dramas pessoais adquiram realmente vida. Os personagens principais dos romances de Eça de Queirós esmaecem na memória do leitor em contraste com um ou outro detalhe vívido de figuras secundárias.

A leitura de A Ilustre Casa de Ramires me reservou uma surpresa. O fidalgo da Torre, último representante da Casa de Ramires, não é dessas figuras que deixam poucas marcas no leitor. Gonçalo Mendes Ramires adquire contornos palpáveis no romance.

A narrativa é construída em dois planos – a história dos ancestrais guerreiros dos Ramires apresentada em tons um tanto debochados, e as desventuras do último representante da casa ilustre que empreende a redação da história de sua família.

Impossível deixar de rir, mesmo que à socapa, do grande antepassado que se chama Tructesindo. Não sei se esse nome é histórico ou inventado por Eça de Queirós, mas provoca o espírito de troça no leitor. Essa narrativa de grandes feitos heroicos descortina quadros épicos que Eça de Queirós pinta com maestria, sem deixar de sublinhá-los com a ironia que lhe é peculiar. No auge da peleja, chega a insinuar uma observação prosaica de que toda a fúria guerreira talvez não tenha razão de ser.

As desventuras do último dos Ramires traçam os contornos de um personagem com graves defeitos de caráter e um quê de covardia. Eça de Queirós delineia muito bem os desvãos da personalidade do fidalgo – o modo como ludibria sua consciência para fechar um negócio mais lucrativo apesar de ter empenhado sua palavra com outro parceiro, a manobra de restabelecer uma amizade do passado para conseguir apoio político, mesmo que isso possa ter consequências funestas para a situação moral de sua irmã, sua disposição a considerar o casamento com uma mulher que não lhe agrada só por ela ter fortuna. Uma personalidade que flerta com a canalhice e que, ainda por cima, se acovarda diante de quem o intimida.

O romance segue os desacertos do fidalgo e acaba delineando uma mudança no personagem. Num rompante inesperado, ele enfrenta o valentão que se comprazia em intimidá-lo, um sujeito de barba ruiva igual à do inimigo de seus antepassados. Com essa façanha, ele como que retoma seu lugar na Torre dos Ramires, e adquire uma estatura de verdadeiro fidalgo. Eça de Queirós chega a esboçar uma reflexão do personagem sobre a fragilidade e a falta de sentido da vida.

A transformação, entretanto, se mostra tão rala quanto as aventuras ao longo do romance. De acordo com outro personagem, Antônio Vilalobos, vulgo Titó, um homenzarrão desajeitado feito de material moral mais sólido, Gonçalo Mendes Ramires é leviano, mas seu amigo.

Tudo levaria a crer que mais uma vez o protagonista de um romance de Eça de Queirós prima por ser bastante superficial e irrelevante. Seu caráter é muito bem analisado pelo autor, mas seu destino parece tão sem graça quanto o de seus antepassados de nomes risíveis. Entretanto, não é o que acontece.

Gonçalo Ramires por Tomaz de Melo (Tom)

Gonçalo Mendes Ramires cativa o leitor. Ele é dado a ações ínfimas, coisas mínimas, sem importância, como o autor não cansa de repetir. Quando um escritor insiste em frisar que algo é coisa muito pequena, sem relevância, o leitor tem mais é que desconfiar. Pode muito bem ser que se trate do que há de mais precioso no livro.

O fato é que o fidalgo costuma ajudar as outras pessoas. Um trabalhador está com o pé ferido, o fidalgo lhe empresta a montaria e segue a pé ao seu lado. A espontaneidade da sua ação é real, mas ainda é possível escutar vozes céticas que questionem seu altruísmo. Essas vozes se calam, porém, numa outra cena comovente. O fidalgo é ameaçado por um lavrador que se ressentia de o fidalgo ter rompido o negócio apalavrado com ele. Como de costume, o fidalgo se acovarda e foge, mas não deixa de pedir a prisão do agressor no dia seguinte. Numa noite de chuva torrencial, a mulher do lavrador procura o fidalgo junto com os filhos pequenos para pedir que o marido seja libertado. O fidalgo lhe assegura que o homem estará livre no dia seguinte, e diz que ela deve voltar para casa.  Mas então percebe que o menino que a acompanha está doente com febre, e por isso não deixa que ela o leve de volta embaixo da chuva forte. Agasalha o menino, coloca-o na cama, acarinha a criança e, mais de uma vez durante a noite, vem ver como está o doente, se a febre amainou. É uma cena ínfima, coisa sem importância, mas que o leitor grava na memória. Muito mais impressionante que todas as façanhas do Tructesindo.

Gonçalo Mendes Ramires fascina por se revelar partícipe do destino do comum dos mortais. Como acontece na vida, há algo insondável na sua natureza que o torna vivo. Muitas vezes é o inferno interior que atrai os escritores que buscam conhecer o ser humano. O protagonista Gonçalo Mendes Ramires aponta que o céu interior também não deixa de ser insondável.

 

Rosaura Eichenberg

04.12.2017 – Gênero, número e grau

As opiniões e convicções que povoam nosso Zeitgeist estão longe de concordar em gênero, número e grau. O alarido dói nos ouvidos de qualquer um, sobretudo no que diz respeito à chamada questão de gênero.

O gênero é uma máscara que inventaram para sexo, a realidade biológica que está no cerne do impulso vital do ser humano. Ao longo dos milênios, a sexualidade tem se mantido no centro do palco, gerando prazer e dor em meio a harmonias, conflitos e contradições. No século passado, houve um grande movimento de libertação sexual, quando tabus criados em torno das experiências sexuais foram desaparecendo. Passou-se a adotar uma atitude talvez mais franca e realista a respeito de sexo. Do que se pode apreender depois de várias décadas de novo enfoque da temática sexual, é que as mudanças arranharam o verniz social, denunciando e combatendo atitudes e crenças na sociedade, sem atingir o âmago da questão, predominantemente individual. Em outras palavras, apesar de todo o palavreado muitas vezes insosso sobre a questão de gênero (ao que parece, descobriram uma multiplicidade delirante de gêneros), o sexo continua uma realidade essencial da vida humana, sempre misteriosa e complicada para todo mundo, heterossexuais, homossexuais, assexuados, etc,

Simone de Beauvoir

Em seu livro, O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir escreveu que não nasceu mulher, mas se fez mulher. Restringindo-se apenas a uma característica da vida humana, a sexualidade, ela não fez mais do que emitir uma verdade que atinge todos os seres humanos. Nascemos nus e sem nada neste mundo, e a construção de nossa identidade é um processo de vida inteira, precário e sempre em expansão, um longo caminho para dar corpo, forma e cor ao nome que recebemos ao nascer. A identidade humana se faz ao longo do tempo, e ainda nos momentos finais não deixa de ser infinito o que resta a fazer.

Na Odisseia, Homero narra o retorno de Odisseu a sua ilha de Ítaca depois da vitória dos gregos sobre os troianos. É a epopeia do herói que volta à sua origem e reconquista seu lugar no mundo. Odisseu aparece pela primeira vez no poema ao sair do mar numa praia dos feácios, depois de ter naufragado perto da costa. Uma espécie de nascimento simbólico. E a narrativa dos diversos episódios de sua viagem de retorno consiste num desfile de proezas pelas quais ele vai definindo sua identidade humana. Bem no início da viagem, ele chega à ilha de Calipso, uma ninfa divina que o acolhe e por ele se apaixona. Ela quer retê-lo perto de si e, com esse intuito, chega a lhe oferecer a imortalidade, mas Odisseu recusa. Mais tarde ele se aproxima da morada de Circe, uma feiticeira que transforma os homens de Odisseu em porcos por meio de uma poção mágica. Com a ajuda de Hermes, Odisseu restitui a forma humana de seus companheiros e consegue dominar a maga feiticeira. Os eventos se sucedem, e Odisseu vai delimitando seus contornos humanos. Ao chegar finalmente a Ítaca, ele tem de reafirmar sua antiga identidade e combater os invasores que pretendem desposar sua mulher Penélope, para dessa maneira reconquistar seu reino.

Os gregos antigos já nos mostram que a identidade humana tem de ser construída a partir da realidade. Calipso oferece a imortalidade  a Ulisses, mas ele recusa por saber que essa não é sua realidade. Querer ir contra a realidade é embarcar num delírio, numa farsa que mergulha qualquer um num parafuso sem fim. É aceitando seus limites humanos que o homem adquire asas para voar em liberdade. O deus da comunicação, Hermes, é quem ajuda Odisseu a livrar seus companheiros da forma animal de porcos. Sem limites, não há comunicação possível – o deus da comunicação vem ao socorro de Odisseu para barrar a maga feiticeira que procurava borrar a fronteira entre os homens de Odisseu e os animais.

Odisseu e Circe – vaso grego

Toda a chamada ideologia de gênero me parece surda aos conselhos dos gregos antigos. Em primeiro lugar, cometem um erro grave ao abordar o sexo apenas pelo seu aspecto social, quando é predominantemente individual. Além disso, constroem verdadeiros delírios sexuais ao se afastarem temerariamente da realidade. O sexo é uma realidade biológica, e há somente dois sexos, o masculino e o feminino. As vivências sexuais podem assumir diversas formas – heterossexualidade, homossexualidade, por exemplo – mas a realidade não muda. Um homem gay é homem, uma mulher lésbica é mulher. Não há opção sexual, apenas realidade sexual. Agora inventaram os transexuais, a mudança de sexo entrou na moda. Em nosso mundo consumista, falam como se todos pudessem comprar novo sexo no supermercado. Por meio de cirurgia e hormônios, julgam ser possível alguém mudar de sexo. Conseguem apenas criar uma grotesca fantasia de carnaval incapaz de dissimular a realidade. Lembram os companheiros de Odisseu transformados em porcos por Circe.

Um dos aspectos terríveis dessa chamada ideologia de gênero é a insistência em difundi-la entre as crianças e os adolescentes. Todos sabemos que o ser humano custa a amadurecer, e a fase da puberdade é turbulenta para qualquer um. Durante esse período, o corpo sofre mudanças, e cada um tem de assimilar seu crescimento. É um processo em que a família, o ambiente escolar, talvez convicções religiosas exercem considerável influência, mas o desenvolvimento árduo é traçado pelo indivíduo sem que existam regras que indiquem o caminho das pedras. Talvez seja desejável que a pressão da sociedade tenha mínima força, mas a esse respeito devem falar os especialistas em educação. O que me parece claro é que procurar impor a chamada ideologia de gênero às crianças e aos adolescentes nas escolas é um disparate. É confundir a cabeça de quem está passando por um terremoto na sua vida. Em certas escolas, não existem mais alunos e alunas, mas alunX. Esses devem escolher qual é o seu sexo. É ir contra a realidade, é afirmar que a realidade não existe, que o importante é escolher sua quimera. Nesses termos, a chamada ideologia de gênero me parece uma agressão às crianças e adolescentes – o que se quer uma ideologia de libertação é no fundo uma ideologia de opressão. Para mostrar que a inteligência humana resiste, cito um caso que li ter ocorrido nos Estados Unidos. No formulário de inscrição numa faculdade, era preciso definir como é que a pessoa gostaria de ser chamada – “he” ou “she”. Um dos candidatos escreveu: “ His Majesty”. Impor a ideologia de gênero às crianças e aos adolescentes nas escolas me parece ser uma das manhas de Circe.

His Majesty

Para finalizar, é importante lembrar o que ocorreu este ano em Porto Alegre, quando o Santander Cultural apresentou uma exposição de artistas brasileiros com foco na temática sexual. Houve grita na sociedade gaúcha, e a exposição acabou sendo fechada, acho que por iniciativa do próprio Santander Cultural. Esse fato deu lugar a uma série de discussões sobre censura à arte, à liberdade de expressão. Que se esclareça – o ponto polêmico da exposição era seu público alvo, crianças e adolescentes das escolas públicas que veriam as obras de arte e após discutiriam sua temática em sala de aula. Os pais dos alunos que visitaram a exposição é que protestaram e acabaram conseguindo o encerramento  da exposição. Não houve, portanto, censura à arte – se a exposição fosse aberta a adultos, acho que os gaúchos não abririam a boca. O que houve foi uma intervenção para impedir uma ação agressiva da sociedade contra as crianças e os adolescentes. Os gaúchos exigiram apenas mais respeito à fragilidade dos seres humanos em formação.

A discussão sobre a ideologia de gênero é longa, e espero que venha a ser estudada pelos especialistas e conhecedores da questão. Apenas gostaria de reafirmar minha impressão ainda que superficial – sexo é central na vida humana e, em que pesem todos os estudos, conhecimentos e a libertação sexual de anos recentes, continua a ser misterioso e complexo para qualquer ser humano.

 

Rosaura Eichenberg

08.11.2017 – Show Gastão Villeroy no Espaço 373

 

GASTÃO VILLEROY

No ESPAÇO 373 (Rua Comendador Coruja, 373)
Dia 11 de abril às 21:30
Ingressos: R$ 50
Informações: (51) 992.46.7780

Retornando de turnê pelos EUA, com a cantora Maria Gadu, o músico, compositor, produtor e arranjador, Gastão Villeroy, chega essa semana direto no RS para fazer dois shows do seu elogiado álbum Amazonia Amazonia, em Montenegro, dia 7 de abril e em Porto Alegre no dia 11.

A apresentação em Porto Alegre acontecerá no Espaço 373, um novo local multimídia, que abriu recentemente na Rua Comendador Coruja, no Bairro Floresta e que vem se tornando um grande ponto de encontro de artistas de todos os gêneros.

 

Paulo Eichenberg

06.11.2017 – Relevos Oníricos inaugura dia 06 de novembro

Relevos Oníricos exposição do artista Antônio Gerbase inaugura hoje dia 06 de novembro, na Galeria de Arte Paulo Capelari, em Porto Alegre.

Paulo Eichenberg

05.11.2017 – Machado de Assis critica “O Primo Basílio” de Eça de Queirós

Em abril de 1878, Machado de Assis publicou em O Cruzeiro dois artigos analisando e criticando o segundo romance de Eça de Queirós, O Primo Basílio, recém-lançado no Porto, em Portugal. O primeiro artigo de 16/04/1878 provocou tanta celeuma que levou Machado de Assis a publicar o segundo no dia 30/04/1878, em resposta à argumentação dos que não concordavam com seu ponto de vista.

O texto crítico merece atenção, pois afinal se trata das considerações do maior escritor brasileiro sobre a obra de  um dos grandes escritores de Portugal. Muitas vezes escutei que Machado se excedeu na crítica por um moralismo antiquado. E nas minhas leituras e releituras de Eça de Queirós, cada vez mais deslumbrada com sua maestria em modelar a língua portuguesa, eu me perguntava se realmente cabia tecer reparos ao escritor português.

O que me seduz nos romances de Eça de Queirós são as frases, a maneira como são construídas. Não é só cor e luz que ele sabe criar com as palavras, é sobretudo movimento e ritmo. Meu fascínio é ver que, assim como a língua inglesa, o português se presta a fazer as imagens fluírem, se infiltrarem, estacarem, irromperem, voltearem na mente do leitor. Na leitura de O Mistério da Estrada de Sintra, essa arte da escrita se torna sobremaneira evidente, porque a brincadeira armada pelos escritores – Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, então jovens, escreveram uma história a quatro mãos desconsiderando as regras da verossimilhança – provoca gargalhadas no leitor e permite que sua atenção se volte para a engenhosidade com que as cenas são armadas.

Algumas releituras recentes de romances de Eça de Queirós me atiçaram a curiosidade, e resolvi examinar a crítica de Machado de Assis expressa ainda no século XIX. E não pude deixar de admirar o refinado senso crítico de Machado de Assis, a justeza de suas observações, sua mira certeira para revelar os pontos fracos e fortes do romance e do escritor.

Apesar de O Primo Basílio ser o segundo romance de Eça de Queirós, isto é, o escritor português estava no início de sua carreira, Machado de Assis lhe reconhece o talento e suas “faculdades de artista”. O texto está longe de ser crítica arrasadora, é antes um confronto entre dois grandes escritores em formação. Cumpre lembrar que Machado de Assis ainda não publicara Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1878.

O primeiro reparo crítico não se dirige a Eça de Queirós, mas à escola de que participa, o naturalismo então em voga. Machado chama Eça de “realista sem rebuço”, empenhado como Émile Zola na “reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e ignóbeis”. Mas também aponta “quadros, excelentemente acabados, em que o Sr. Eça de Queirós esquecia por minuto as preocupações da escola”.

Mas o xis da questão vai mais fundo que o naturalismo e seus trejeitos. Focando o romance propriamente dito, Machado assesta sua pontaria. Compara a trama da obra à de Eugénie Grandet, romance de Balzac, mas diz ser impossível traçar qualquer paralelo entre a protagonista de O Primo Basílio, Luisa, e a Eugénie da obra francesa. Afirma que “a Luisa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral”. Que os leitores “não lhe peçam paixões nem remorsos, menos ainda consciência”.

Não há como discordar. Não vejo como alguém possa sentir grande interesse por essa Luisa, que nos foge da memória assim que fechamos o livro. E nesse ponto Machado bateu numa característica essencial de Eça de Queirós. O talento do escritor português desabrocha na criação dos personagens figurantes ou coadjuvantes, os protagonistas são quase sempre apagados. E isso me parece ocorrer até mesmo nos grandes romances, como Os Maias.

Mais adiante, Machado afirma que Juliana, a criada, é “o caráter mais completo e verdadeiro do livro”. Como em outros romances do Eça, uma personagem aparentemente secundária assume o papel principal. Mas eu percebo nessa figura uma fraqueza de construção. Ela não surge aos olhos do leitor como uma mulher com suas qualidades, defeitos e dificuldades na lida com a vida, mas como uma criada. A função lhe determina os traços de caráter, e com isso a figura perde em humanidade. Para deixar claro o que quero dizer, lembro a figura de Falstaff  nas peças de Shakespeare. Tinha um título talvez falso de cavalheiro, era boêmio dado a bravatas e arruaças, mas, antes de tudo, ele é Falstaff. Juliana é, antes de tudo, a criada.

Machado de Assis não fala dessa concepção da personagem que me incomodou, mas alude a tal particularidade quando aponta que o desenlace se dá sem que sejam considerados os fios internos da trama. A criada “sucumbe a um aneurisma, Luisa expira alguns dias depois… A catástrofe é o resultado de uma circunstância fortuita, e nada mais.” E ao resumir a moral da história –  “a boa escolha dos fâmulos é uma condição de paz no adultério” – Machado expõe a construção precária dos personagens e o caráter ralo das relações e embates pessoais de O Primo Basílio.

Esta é a principal crítica de Machado de Assis a Eça de Queirós.  “A preocupação constante do acessório”, a tendência a “avolumar os acessórios até o ponto de abafar o principal”. Considera prejudicial à arte do escritor “a substituição do principal pelo acessório, a ação transplantada dos caracteres e dos sentimentos para o incidente, para o fortuito”. E arremata: “…o seu dom de observação, aliás pujante, é complacente em demasia, sobretudo, é exterior, e superficial”.

A leitura dos romances de Eça de Queirós confirma sua verdadeira obsessão pelos detalhes pitorescos da paisagem humana, pelos painéis panorâmicos da imensa diversidade de tipos e figuras. Se em algumas circunstâncias, como na descrição do Pacheco em Correspondência de Fradique Mendes, o seu traço é caricatural, na maioria das vezes é demasiado cheio de cor, relevo e sentimento para que possa ser rotulado de caricatura. A pergunta que me fica é se essa sua tendência ao que é exterior seria lesiva à sua arte, se essa observação que insiste em roçar na superfície das coisas não teria um valor próprio, pois é bem verdade que os romances continuam a suscitar encanto e fascínio em seus leitores. Essa pergunta me leva a outras reflexões que vou deixar para esmiuçar em novo comentário sobre Machado de Assis e Eça de Queirós. São escritores do passado, dois clássicos da língua portuguesa. Apesar do caráter modesto dos meus comentários, é sempre válido ler e reler o que escreveram.

 

Rosaura Eichenberg

05.11.2017 – Scliar: uma bio e muitas histórias

Bate-papo sobre as obras “Uma autobiografia literária” e “Histórias que os jornais não contam”, de Moacyr Scliar. Com Sérgius Gonzaga, Carlos Gerbase e leituras de crônicas por Paula Taitelbaum.

Dia 05/11/2014 no Auditório Barbosa Lessa – Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo (CCCEV) – Rua dos Andradas, 1223  Porto Alegre RS

 

Paulo Eichenberg

25.10.2017 – A Marcha da Estupidez

Leio com espanto uma notícia das terras norte-americanas. Em Illinois uma professora universitária de matemática afirma sem pejo que a matemática, a álgebra e a geometria promovem o privilégio branco. Se alguém é talentoso nessa área, ofende as pessoas de outras raças que não têm tanta familiaridade com os números.

Difícil entender essa relação entre os números e as raças – uma pista da professora é que as palavras gregas já trazem a marca da superioridade dos brancos. E eu que imaginava ser arábica a origem da palavra álgebra.

Há tempos li que uma grande realização matemática foi a invenção do zero, que se deu na Índia e que, curiosamente, existia também entre os maias. A civilização maia se extinguiu, mas os indianos pelo jeito ainda terão de expiar sua superioridade matemática que ofende tantos outros povos.

Em meio a esse alarido mais ensurdecedor que um samba-enredo de carnaval, procuro envolta nas dobras do passado a voz de meu professor de matemática a me esclarecer as equações e os teoremas. Um arrimo contra os furacões da estupidez.

 

Rosaura Eichenberg

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