de revoada

14.05.2019 – Uma frase de Oscar Wilde

 

Muitas vezes lemos citações no meio de ensaios e até reportagens que nos detêm na correria do cotidiano e nos fazem refletir. O cérebro como que se volta para o interior e imprime novo ritmo à nossa busca de compreensão. A frase que hoje veio conversar comigo é do grande escritor Oscar Wilde, nascido na Irlanda como sói acontecer na literatura inglesa.

“We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars.”

Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando para as estrelas.”

 

A citação é da comédia de costumes Lady Windermere’s Fan de 1892.

 

Rosaura Eichenberg

05.05.2019 – Palavras Sensatas num Mundo Insensato

 

Numa mensagem no twitter, Jim Rickards (James G. Rickards, advogado americano, autor de livros sobre questões financeiras – Currency Wars, comentarista de mídia – @JimRickards) escreve exemplarmente sobre as tão faladas mudanças climáticas.

“Climate changes slowly, has for eons. Humans can’t do anything about it except adapt, which we do extremely well.”

“O clima muda lentamente, tem mudado por eras a fio. Os humanos nada podem fazer a respeito exceto adaptar-se, o que fazemos extremamente bem.”

Está dito tudo o que se pode dizer a respeito das mudanças climáticas. E só Deus sabe o quanto precisamos de palavras sensatas em nossos dias.

O alarme apocalíptico sobre o aquecimento da Terra causado pela crescente emissão de COtraz em seu bojo um embuste retórico. O desastre climático iminente é provocado pelo homem, repetem autoridades científicas e políticas, sendo urgente tomar medidas que impeçam a catástrofe. Por baixo dessa declaração intimidadora, a retórica esconde um engodo capaz de seduzir a ansiedade humana – afirmam que existe um grave problema com o clima da Terra, causado pelo homem, portanto, sob controle humano. Os alarmistas estão na verdade assegurando que o homem pode controlar o clima da Terra. Isso é música para os ouvidos da humanidade, que custa a enfrentar que não passa de um nada invisível em cima de um “pálido ponto azul” (segundo a descrição da Terra dada por Carl Sagan).

Só que uma dificuldade aguarda o mundo na esquina – a afirmação é falsa, o homem não pode controlar o clima da Terra. Como diz Jim Rickards, podemos apenas nos adaptar – e ele abre uma perspectiva otimista, quando diz que é algo que fazemos extremamente bem.

Nas considerações alarmistas sobre o clima, constato um erro grave – misturam dois níveis, o local e o global, como se fossem idênticos. Em nível local, a ação humana tem forte impacto sobre o meio ambiente, e os cuidados ecológicos são imprescindíveis. Em nível global, as forças em ação estão geralmente além do alcance humano, e muitas das teses científicas se perdem em especulações.

O homem não pode controlar o clima da Terra, mas ele pode cuidar de seu meio ambiente, evitando a atitude suicida de destruir seu habitat. Em outras palavras, as medidas para melhorar as condições da vida humana estarão sempre em nível local. Achar que podemos influir na natureza em nível global – positiva ou negativamente – é pretensão e água benta.

Muitos afirmam que os ataques ao meio ambiente são fruto da ganância humana, do terrível capitalismo. A observação da realidade aponta em sentido contrário, porque os países livres do Ocidente são os que mal ou bem adotam cuidados ecológicos, enquanto os países controlados por regimes totalitários não dão a mínima para a ecologia. Basta pensar no estado do meio ambiente na Alemanha Oriental, na poluição colossal na China, num Chernobyl que causou tantos danos por não dispor de um sistema de prevenção eficaz.

Sem entrar no exame da adaptação humana ao meio ambiente ou da adaptação do meio ambiente aos humanos, cumpre mencionar a busca científica atual de fontes de energia limpa. Um trabalho de longos anos e de muitas tentativas e erros, que ninguém se iluda. Os experimentos com energia eólica e solar, por exemplo, não estão apresentando resultados satisfatórios. Mas é um esforço digno de nossa busca de conhecimento. E as palavras de Jim Rickards estimulam o nobre esforço:

Ao clima os humanos só podem “adaptar-se, o que fazemos extremamente bem.”

 

Rosaura Eichenberg

06.04.2019 – Sobre “Instinto de Nacionalidade” de Machado de Assis

 

 

Em 1873, um jovem Machado de Assis de 34 anos escreveu um ensaio crítico sobre a literatura brasileira então nos seus primórdios. Deu ao seu estudo o nome de “Instinto de Nacionalidade”, que definiu como “o geral desejo de criar uma literatura mais independente”.

E advertia: “Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.”

Na literatura de seu tempo, já vislumbrava uma tendência a essa desejada independência na escolha de temas próprios da terra, o que ele chama cor local. Analisava com muita propriedade o tema do índio que era então explorado nas obras de Gonçalves Dias, José de Alencar e outros. Afirmava:

“É certo que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isto basta para não ir buscar entre as tribos vencidas os títulos de nossa personalidade literária.”

Mas ponderava que essa constatação não exclui os índios das páginas literárias, por serem um tema capaz de inspirar os escritores. E continuava lembrando que a paisagem exuberante das terras brasileiras não só estimula como desafia o estro de nossos poetas e prosadores.

Alertava, entretanto, que essa primeira fase de explorar a cor local devia ser ultrapassada, e propunha a questão da brasilidade em termos que ainda não foram superados nem mesmo neste nosso século XXI. Dizia:

“O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

E explicitava o que estava querendo dizer:

“Um notável crítico da França, analisando há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre de tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial.”

Machado de Assis vai fundo no que constitui a cultura de um grupo humano. Ele sabe que os aspectos exteriores são apenas faceta vistosa, muitas vezes incapazes de revelar a trama sutil das vivências que urdem o tecido do convívio humano.  Por isso diz que a personalidade literária brasileira não será encontrada na beleza variegada de nossas paisagens, no caudaloso Amazonas nem nos córregos que enfeitam as várzeas, nem tampouco nos costumes pitorescos de cada região.

Apesar de os brasileiros terem uma forte inclinação para a anarquia do carnaval, a brasilidade não precisa vestir fantasias para se realizar. Deve ser antes buscada no sentimento interior dos que habitam esta terra. Como diz Machado de Assis:

“… e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e o Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês.”

Isto é, os brasileiros podemos nos fantasiar de dançarinos de tarantela, messalinas, super-heróis, arlequins e pierrôs que a brasilidade íntima acabará se revelando entre os panos e véus.

Já se passou mais de século desde a publicação do ensaio machadiano, e muitas obras de nossa literatura percorreram o caminho da busca de nossa brasilidade intrínseca, inclusive a própria obra de Machado de Assis. Duas realizações sobressaem nessa procura, dois grandes escritores que se debruçaram sobre o sertão brasileiro, Euclides da Cunha e João Guimarães Rosa.

“Os Sertões” relata a luta que se desenrolou em Canudos, região norte da Bahia, no final do século XIX, entre as forças governamentais e os rebeldes aglomerados em torno de Antonio Conselheiro.  O livro se divide em três partes: a terra, o homem e a luta. Na primeira, Euclides da Cunha está longe de criar apenas a cor local com a descrição da catinga nordestina. A sua apresentação geográfica é dramática, a natureza revelando o embate das grandes forças em ação na região. Ao falar do homem na segunda parte, Euclides recorre às teorias correntes no seu tempo para tentar caracterizar os seres humanos que habitam o nordeste brasileiro. Emula o cientista que se debruça sobre seu objeto de estudo com lupas especiais, sem se preocupar em verificar a precisão das lentes. E ao descrever a luta em Canudos na terceira parte, Euclides parte ao encontro de uma realidade que até então desconhecia. A tarefa que se propusera realizar era reportar o conflito que se desenrolava na região, mas o repórter se viu às voltas com a descrição de um país que era o seu, mas que lhe era estranho. Euclides da Cunha vinha tornar visível o hiato entre os brasileiros e eles próprios, focalizando a distância concreta entre o Brasil litorâneo e o Brasil dos sertões. Mais uma descoberta do Brasil, numa lista que não parece ter fim.

João Guimarães Rosa é outro desbravador da realidade brasileira. Em sua obra, vamos encontrar de novo as lacunas concretas de nossa cultura fragmentada, e a busca de conhecer um Brasil envolto num sertão que adquire contornos míticos. Ele vivencia esse confronto com o país desconhecido no âmbito da linguagem. No seu livro de estreia, Sagarana, ainda coloca entre aspas as expressões e frases idiomáticas com que entrava em contato na paisagem mineira. Mas nos livros seguintes, a linguagem já se metamorfoseia para tentar revelar a fusão de idiomas diversos, uma multiplicidade barroca abrindo-se em tudo quanto é direção. A leitura de João Guimarães Rosa proporciona encontros e desencontros brasileiros, estonteante a diversidade das veredas a serem trilhadas pelo grande sertão.

E que dizer do próprio Machado de Assis? Ele ajustou suas lentes sobre o ambiente urbano, seguindo uma linha já experimentada por Manuel Antônio de Almeida em seu Memórias de um Sargento de Milícias. E coerente com o que escreveu em seu ensaio de 1873, não se deteve no superficial, nem deixou que os clichês e a cor local embaçassem sua visão. Procurou transpor o hiato entre o brasileiro que vive uma realidade e o brasileiro que se vê vivendo essa realidade com toda a sutileza de sua ironia. Num de seus romances, Quincas Borba, caricaturou a Belle Époque no Rio de Janeiro, os brasileiros macaqueando os costumes, os trejeitos, o luxo, as modas de Paris. Mas esses quadros gerais são apenas contrapontos aos indivíduos que têm sua trajetória acidentada traçada em busca de algum ou nenhum sentido para suas vidas. De suas histórias relatadas com muita ironia é que tende a brotar o encontro com o brasileiro.

O interessante é observar a reação dos leitores aos romances de Machado de Assis. A maioria dos brasileiros trata Machado como se fosse bicho raro, alguma coisa que não conseguem compreender muito bem. Declaram que ele não falou dos brasileiros, mas escreveu histórias universais. Pasteurizam Machado de Assis e sentem-se aliviados por serem capazes de guardar o incômodo em gavetas emperradas. Os leitores ainda procuram nas letras a cor local, os aspectos exteriores mais fáceis de serem assimilados. Preferem ler Jorge Amado que criou vários romances redigidos, com todo o devido respeito, quase que para turistas. E mesmo a ironia de um Lima Barreto, a carnavalização de um Mario de Andrade parecem mais palatáveis por se manterem à tona sem se embrenharem nos caminhos iluminados pela luz oblíqua de Machado de Assis.

A caricatura da Belle Époque no Rio de Janeiro traçada por Machado de Assis talvez nos conduza a uma possível compreensão dessa incapacidade de os brasileiros saberem de si mesmos, de irem além dos aspectos exteriores. Com as honrosas e múltiplas exceções – por exemplo, o estudo de Gilberto Freyre em Casa Grande Senzala – os brasileiros tendemos a ver o Brasil com lentes estrangeiras adquiridas em Paris, nos Estados Unidos, na Europa, nos grandes centros culturais do Ocidente. Essa visão de fora trai a realidade, e por isso recuamos assustados quando um Euclides da Cunha ou um João Guimarães Rosa nos mostra um país desconhecido. Ou quando um Machado de Assis nos convida a acompanhá-lo numa busca de nós mesmos.

A verdade muito amarga é que o alerta do artigo machadiano sobre Instinto de Nacionalidade não perdeu sua validade. Neste século XXI, os brasileiros ainda não sabemos de onde viemos, quem somos, para onde vamos. Ele avisou que nossa independência “não se fará num dia” – ainda tarda o cumprimento de nosso destino.

 

Rosaura Eichenberg

30.03.2019 – Uma percepção incômoda

Difícil acompanhar o que está acontecendo no início deste século XXI, mas não é possível se esquivar do que vivenciamos. Os nossos meios de comunicação são hoje cada vez mais velozes, mais eficazes, mais presentes. Bastam alguns cliques, e conseguimos todas as informações de que precisamos, falamos com todos os participantes de nosso diálogo com o mundo. Mas não dá para negar a realidade – a comunicação humana está cada vez mais impossível, o que provoca a atrofia do seu principal instrumento, os diversos idiomas. Uma percepção sombria, até macabra, de nossos tempos.

Rosaura Eichenberg

10.03.2019 – Vida inteligente na juventude brasileira

 

A grande tragédia brasileira nos últimos anos é a derrocada na área da educação. São gerações e gerações perdidas, pois o país parece estar formando muita gente que não sabe ler, escrever ou fazer contas. Por isso foi uma surpresa agradável descobrir um comentarista político da Rádio Jovem Pan chamado Caio Coppolla, um menino formado em estudos jurídicos que veio desmentir o cenário deprimente. Ele brilha pela clareza de suas análises, pelo cuidado meticuloso com os dados que apresenta, pela busca de uma compreensão embasada na realidade. No ambiente polarizado dos debates políticos, ele se declara conservador sem a pretensão de estar de posse de verdades absolutas, mas não se deixa intimidar se atacam erroneamente suas posições. Muito interessante o que diz sobre ser conservador, antes uma atitude que uma ideologia. Em suma, ninguém deve procurar seus comentários por estarem de acordo com essa ou aquela posição, mas por contribuírem para a compreensão do que está sendo discutido.

É até natural que na tresloucada cena da nossa cultura e política, um comentarista desse naipe fosse logo atacado. O ataque veio sob a forma de uma pretensa denúncia – o seu nome seria falso, ele teria outro nome, não usaria o sobrenome paterno por se envergonhar do pai, ou coisa parecida. Pelo que pude apreender, a intenção era dizer – esse comentarista é falso, pois até seu nome não é verdadeiro. Caio Coppola é ainda quase menino, e certamente sofreu com ataque tão vil que atingia, além do mais, sua família. E se defendeu com galhardia no programa de rádio de que participa – ao vê-lo rebater a besteira injuriosa, não pude deixar de pensar em “the spurns that patient merit of the unworthy takes”, mas as palavras que a fúria diante da vilania polarizada colocou em meus lábios foram as de Mercutio: “A plague on both your houses!”

E para a mãe de Caio Coppolla, que se viu envolvida nesse mundo de baixarias porque é dela o sobrenome Coppolla, cumpre lembrar outro verso do grande poeta: “What’s in a name?  …a rose by any other name would smell as sweet.”

 

O grande poeta citado é William Shakespeare.

– “the spurns that patient merit of the unworthy takes”  –  monólogo de Hamlet em Hamlet, Ato III, Cena I

– “A plague on both your houses!” – fala de Mercutio em Romeo and Juliet, Ato III, Cena I

–  “What’s in a name?  …a rose by any other name would smell as sweet”  – fala de Juliet em Romeo and Juliet, Ato II, Cena II

 

Rosaura Eichenberg

12.02.2018 – Um Recado de Machado de Assis

 

Examinando um texto crítico de Machado de Assis, “Instinto de Nacionalidade”, escrito em 1873, encontrei um recado aos jovens escritores daqueles tempos que cai como uma luva em nossos dias. Diz ele:

“Outra coisa de que eu queria persuadir a mocidade é que a precipitação não lhe afiança muita vida aos escritos. Há um prurido de escrever muito e depressa, tira-se disso glória, e não posso negar que é caminho de aplausos. Há intenção de igualar as criações do espírito com as da matéria, como se elas não fossem nesse caso inconciliáveis. Faça muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias, para uma obra-prima do espírito são precisos alguns mais.

Atualmente, quando as obras de arte parecem feitas de afogadilho, sem haver maturação na sua produção e recepção, vale escutar o conselho de Machado de Assis. Muitos escritos e imagens entram no turbilhão da web, conquistam fama efêmera, e logo são descartados. Por falta de maior reflexão sobre o tema, não afirmo que seu defeito principal seja essa precipitação, mas o fato de os produtos artísticos serem descartáveis é certamente sinal de que  há algo de podre no reino da Dinamarca. E acho que Machado de Assis acertou em cheio ao apontar o equívoco de querer igualar as criações do espírito com as da matéria. Fruto desse erro de monta, a arte acaba no mesmo grande lixo de matéria consumida. A sociedade moderna, globalizada e massificada, incute um novo modo de lidar com o tempo, e há que reconhecer as características e os muitos defeitos intrínsecos dessa mudança. Repito Machado de Assis, que os clássicos têm muito a nos dizer:

“Faça muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias, para uma obra-prima do espírito são precisos alguns mais.”

 

Rosaura Eichenberg

21.12.2017 – Meu Dickie

Foi em 2002 que meu irmão me deu um cachorrinho da ninhada que nasceu na casa dele. Um dackel caramelo, atrevido e amoroso como só os cachorrinhos salsichas sabem ser.

Já são mais de quinze anos de companheirismo e convívio alegre em que, é claro, quem sabe das coisas e me orienta os passos é o Dick, ou Dickie conforme a correção fonética de uma amiga americana. Quando passeamos na rua, ele se lança latindo contra os cachorros grandes porque se imagina com o dobro do tamanho do intruso que surgiu à sua frente. E quando me olha compreensivo, sinto que o cachorrinho conhece de cor e salteado todos os escaninhos de minha cabeça.

Passados tantos anos com suas limitações de praxe, o Dickie já não pula no sofá, mas continua lindo como sempre foi desde pequeninho. E, como não podia deixar de ser, continua no comando da nossa vida.

Admiro desde que me conheço por gente a magia do traço do pintor Pablo Picasso. Foi uma surpresa de grande felicidade descobrir que ele também gostava dos salsichinhas e deixou tracejado com elegância singela o perfil de meu Dickie.

Rosaura Eichenberg

04.12.2017 – Gonçalo Mendes Ramires

 

Casa da Torre da Lagariça (Ilustre Casa de Ramires)

Das minhas leituras dos romances de Eça de Queirós, sempre guardei a impressão de um magnífico panorama da vida humana com todas as suas idiossincrasias. A riqueza dos detalhes das variadas figuras que perambulam pelas páginas do escritor português é de uma excelência ímpar. E também sempre me surpreendeu que os protagonistas se mostrem ralos, sem que seus dramas pessoais adquiram realmente vida. Os personagens principais dos romances de Eça de Queirós esmaecem na memória do leitor em contraste com um ou outro detalhe vívido de figuras secundárias.

A leitura de A Ilustre Casa de Ramires me reservou uma surpresa. O fidalgo da Torre, último representante da Casa de Ramires, não é dessas figuras que deixam poucas marcas no leitor. Gonçalo Mendes Ramires adquire contornos palpáveis no romance.

A narrativa é construída em dois planos – a história dos ancestrais guerreiros dos Ramires apresentada em tons um tanto debochados, e as desventuras do último representante da casa ilustre que empreende a redação da história de sua família.

Impossível deixar de rir, mesmo que à socapa, do grande antepassado que se chama Tructesindo. Não sei se esse nome é histórico ou inventado por Eça de Queirós, mas provoca o espírito de troça no leitor. Essa narrativa de grandes feitos heroicos descortina quadros épicos que Eça de Queirós pinta com maestria, sem deixar de sublinhá-los com a ironia que lhe é peculiar. No auge da peleja, chega a insinuar uma observação prosaica de que toda a fúria guerreira talvez não tenha razão de ser.

As desventuras do último dos Ramires traçam os contornos de um personagem com graves defeitos de caráter e um quê de covardia. Eça de Queirós delineia muito bem os desvãos da personalidade do fidalgo – o modo como ludibria sua consciência para fechar um negócio mais lucrativo apesar de ter empenhado sua palavra com outro parceiro, a manobra de restabelecer uma amizade do passado para conseguir apoio político, mesmo que isso possa ter consequências funestas para a situação moral de sua irmã, sua disposição a considerar o casamento com uma mulher que não lhe agrada só por ela ter fortuna. Uma personalidade que flerta com a canalhice e que, ainda por cima, se acovarda diante de quem o intimida.

O romance segue os desacertos do fidalgo e acaba delineando uma mudança no personagem. Num rompante inesperado, ele enfrenta o valentão que se comprazia em intimidá-lo, um sujeito de barba ruiva igual à do inimigo de seus antepassados. Com essa façanha, ele como que retoma seu lugar na Torre dos Ramires, e adquire uma estatura de verdadeiro fidalgo. Eça de Queirós chega a esboçar uma reflexão do personagem sobre a fragilidade e a falta de sentido da vida.

A transformação, entretanto, se mostra tão rala quanto as aventuras ao longo do romance. De acordo com outro personagem, Antônio Vilalobos, vulgo Titó, um homenzarrão desajeitado feito de material moral mais sólido, Gonçalo Mendes Ramires é leviano, mas seu amigo.

Tudo levaria a crer que mais uma vez o protagonista de um romance de Eça de Queirós prima por ser bastante superficial e irrelevante. Seu caráter é muito bem analisado pelo autor, mas seu destino parece tão sem graça quanto o de seus antepassados de nomes risíveis. Entretanto, não é o que acontece.

Gonçalo Ramires por Tomaz de Melo (Tom)

Gonçalo Mendes Ramires cativa o leitor. Ele é dado a ações ínfimas, coisas mínimas, sem importância, como o autor não cansa de repetir. Quando um escritor insiste em frisar que algo é coisa muito pequena, sem relevância, o leitor tem mais é que desconfiar. Pode muito bem ser que se trate do que há de mais precioso no livro.

O fato é que o fidalgo costuma ajudar as outras pessoas. Um trabalhador está com o pé ferido, o fidalgo lhe empresta a montaria e segue a pé ao seu lado. A espontaneidade da sua ação é real, mas ainda é possível escutar vozes céticas que questionem seu altruísmo. Essas vozes se calam, porém, numa outra cena comovente. O fidalgo é ameaçado por um lavrador que se ressentia de o fidalgo ter rompido o negócio apalavrado com ele. Como de costume, o fidalgo se acovarda e foge, mas não deixa de pedir a prisão do agressor no dia seguinte. Numa noite de chuva torrencial, a mulher do lavrador procura o fidalgo junto com os filhos pequenos para pedir que o marido seja libertado. O fidalgo lhe assegura que o homem estará livre no dia seguinte, e diz que ela deve voltar para casa.  Mas então percebe que o menino que a acompanha está doente com febre, e por isso não deixa que ela o leve de volta embaixo da chuva forte. Agasalha o menino, coloca-o na cama, acarinha a criança e, mais de uma vez durante a noite, vem ver como está o doente, se a febre amainou. É uma cena ínfima, coisa sem importância, mas que o leitor grava na memória. Muito mais impressionante que todas as façanhas do Tructesindo.

Gonçalo Mendes Ramires fascina por se revelar partícipe do destino do comum dos mortais. Como acontece na vida, há algo insondável na sua natureza que o torna vivo. Muitas vezes é o inferno interior que atrai os escritores que buscam conhecer o ser humano. O protagonista Gonçalo Mendes Ramires aponta que o céu interior também não deixa de ser insondável.

 

Rosaura Eichenberg

04.12.2017 – Gênero, número e grau

As opiniões e convicções que povoam nosso Zeitgeist estão longe de concordar em gênero, número e grau. O alarido dói nos ouvidos de qualquer um, sobretudo no que diz respeito à chamada questão de gênero.

O gênero é uma máscara que inventaram para sexo, a realidade biológica que está no cerne do impulso vital do ser humano. Ao longo dos milênios, a sexualidade tem se mantido no centro do palco, gerando prazer e dor em meio a harmonias, conflitos e contradições. No século passado, houve um grande movimento de libertação sexual, quando tabus criados em torno das experiências sexuais foram desaparecendo. Passou-se a adotar uma atitude talvez mais franca e realista a respeito de sexo. Do que se pode apreender depois de várias décadas de novo enfoque da temática sexual, é que as mudanças arranharam o verniz social, denunciando e combatendo atitudes e crenças na sociedade, sem atingir o âmago da questão, predominantemente individual. Em outras palavras, apesar de todo o palavreado muitas vezes insosso sobre a questão de gênero (ao que parece, descobriram uma multiplicidade delirante de gêneros), o sexo continua uma realidade essencial da vida humana, sempre misteriosa e complicada para todo mundo, heterossexuais, homossexuais, assexuados, etc,

Simone de Beauvoir

Em seu livro, O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir escreveu que não nasceu mulher, mas se fez mulher. Restringindo-se apenas a uma característica da vida humana, a sexualidade, ela não fez mais do que emitir uma verdade que atinge todos os seres humanos. Nascemos nus e sem nada neste mundo, e a construção de nossa identidade é um processo de vida inteira, precário e sempre em expansão, um longo caminho para dar corpo, forma e cor ao nome que recebemos ao nascer. A identidade humana se faz ao longo do tempo, e ainda nos momentos finais não deixa de ser infinito o que resta a fazer.

Na Odisseia, Homero narra o retorno de Odisseu a sua ilha de Ítaca depois da vitória dos gregos sobre os troianos. É a epopeia do herói que volta à sua origem e reconquista seu lugar no mundo. Odisseu aparece pela primeira vez no poema ao sair do mar numa praia dos feácios, depois de ter naufragado perto da costa. Uma espécie de nascimento simbólico. E a narrativa dos diversos episódios de sua viagem de retorno consiste num desfile de proezas pelas quais ele vai definindo sua identidade humana. Bem no início da viagem, ele chega à ilha de Calipso, uma ninfa divina que o acolhe e por ele se apaixona. Ela quer retê-lo perto de si e, com esse intuito, chega a lhe oferecer a imortalidade, mas Odisseu recusa. Mais tarde ele se aproxima da morada de Circe, uma feiticeira que transforma os homens de Odisseu em porcos por meio de uma poção mágica. Com a ajuda de Hermes, Odisseu restitui a forma humana de seus companheiros e consegue dominar a maga feiticeira. Os eventos se sucedem, e Odisseu vai delimitando seus contornos humanos. Ao chegar finalmente a Ítaca, ele tem de reafirmar sua antiga identidade e combater os invasores que pretendem desposar sua mulher Penélope, para dessa maneira reconquistar seu reino.

Os gregos antigos já nos mostram que a identidade humana tem de ser construída a partir da realidade. Calipso oferece a imortalidade  a Ulisses, mas ele recusa por saber que essa não é sua realidade. Querer ir contra a realidade é embarcar num delírio, numa farsa que mergulha qualquer um num parafuso sem fim. É aceitando seus limites humanos que o homem adquire asas para voar em liberdade. O deus da comunicação, Hermes, é quem ajuda Odisseu a livrar seus companheiros da forma animal de porcos. Sem limites, não há comunicação possível – o deus da comunicação vem ao socorro de Odisseu para barrar a maga feiticeira que procurava borrar a fronteira entre os homens de Odisseu e os animais.

Odisseu e Circe – vaso grego

Toda a chamada ideologia de gênero me parece surda aos conselhos dos gregos antigos. Em primeiro lugar, cometem um erro grave ao abordar o sexo apenas pelo seu aspecto social, quando é predominantemente individual. Além disso, constroem verdadeiros delírios sexuais ao se afastarem temerariamente da realidade. O sexo é uma realidade biológica, e há somente dois sexos, o masculino e o feminino. As vivências sexuais podem assumir diversas formas – heterossexualidade, homossexualidade, por exemplo – mas a realidade não muda. Um homem gay é homem, uma mulher lésbica é mulher. Não há opção sexual, apenas realidade sexual. Agora inventaram os transexuais, a mudança de sexo entrou na moda. Em nosso mundo consumista, falam como se todos pudessem comprar novo sexo no supermercado. Por meio de cirurgia e hormônios, julgam ser possível alguém mudar de sexo. Conseguem apenas criar uma grotesca fantasia de carnaval incapaz de dissimular a realidade. Lembram os companheiros de Odisseu transformados em porcos por Circe.

Um dos aspectos terríveis dessa chamada ideologia de gênero é a insistência em difundi-la entre as crianças e os adolescentes. Todos sabemos que o ser humano custa a amadurecer, e a fase da puberdade é turbulenta para qualquer um. Durante esse período, o corpo sofre mudanças, e cada um tem de assimilar seu crescimento. É um processo em que a família, o ambiente escolar, talvez convicções religiosas exercem considerável influência, mas o desenvolvimento árduo é traçado pelo indivíduo sem que existam regras que indiquem o caminho das pedras. Talvez seja desejável que a pressão da sociedade tenha mínima força, mas a esse respeito devem falar os especialistas em educação. O que me parece claro é que procurar impor a chamada ideologia de gênero às crianças e aos adolescentes nas escolas é um disparate. É confundir a cabeça de quem está passando por um terremoto na sua vida. Em certas escolas, não existem mais alunos e alunas, mas alunX. Esses devem escolher qual é o seu sexo. É ir contra a realidade, é afirmar que a realidade não existe, que o importante é escolher sua quimera. Nesses termos, a chamada ideologia de gênero me parece uma agressão às crianças e adolescentes – o que se quer uma ideologia de libertação é no fundo uma ideologia de opressão. Para mostrar que a inteligência humana resiste, cito um caso que li ter ocorrido nos Estados Unidos. No formulário de inscrição numa faculdade, era preciso definir como é que a pessoa gostaria de ser chamada – “he” ou “she”. Um dos candidatos escreveu: “ His Majesty”. Impor a ideologia de gênero às crianças e aos adolescentes nas escolas me parece ser uma das manhas de Circe.

His Majesty

Para finalizar, é importante lembrar o que ocorreu este ano em Porto Alegre, quando o Santander Cultural apresentou uma exposição de artistas brasileiros com foco na temática sexual. Houve grita na sociedade gaúcha, e a exposição acabou sendo fechada, acho que por iniciativa do próprio Santander Cultural. Esse fato deu lugar a uma série de discussões sobre censura à arte, à liberdade de expressão. Que se esclareça – o ponto polêmico da exposição era seu público alvo, crianças e adolescentes das escolas públicas que veriam as obras de arte e após discutiriam sua temática em sala de aula. Os pais dos alunos que visitaram a exposição é que protestaram e acabaram conseguindo o encerramento  da exposição. Não houve, portanto, censura à arte – se a exposição fosse aberta a adultos, acho que os gaúchos não abririam a boca. O que houve foi uma intervenção para impedir uma ação agressiva da sociedade contra as crianças e os adolescentes. Os gaúchos exigiram apenas mais respeito à fragilidade dos seres humanos em formação.

A discussão sobre a ideologia de gênero é longa, e espero que venha a ser estudada pelos especialistas e conhecedores da questão. Apenas gostaria de reafirmar minha impressão ainda que superficial – sexo é central na vida humana e, em que pesem todos os estudos, conhecimentos e a libertação sexual de anos recentes, continua a ser misterioso e complexo para qualquer ser humano.

 

Rosaura Eichenberg

05.11.2017 – Machado de Assis critica “O Primo Basílio” de Eça de Queirós

Em abril de 1878, Machado de Assis publicou em O Cruzeiro dois artigos analisando e criticando o segundo romance de Eça de Queirós, O Primo Basílio, recém-lançado no Porto, em Portugal. O primeiro artigo de 16/04/1878 provocou tanta celeuma que levou Machado de Assis a publicar o segundo no dia 30/04/1878, em resposta à argumentação dos que não concordavam com seu ponto de vista.

O texto crítico merece atenção, pois afinal se trata das considerações do maior escritor brasileiro sobre a obra de  um dos grandes escritores de Portugal. Muitas vezes escutei que Machado se excedeu na crítica por um moralismo antiquado. E nas minhas leituras e releituras de Eça de Queirós, cada vez mais deslumbrada com sua maestria em modelar a língua portuguesa, eu me perguntava se realmente cabia tecer reparos ao escritor português.

O que me seduz nos romances de Eça de Queirós são as frases, a maneira como são construídas. Não é só cor e luz que ele sabe criar com as palavras, é sobretudo movimento e ritmo. Meu fascínio é ver que, assim como a língua inglesa, o português se presta a fazer as imagens fluírem, se infiltrarem, estacarem, irromperem, voltearem na mente do leitor. Na leitura de O Mistério da Estrada de Sintra, essa arte da escrita se torna sobremaneira evidente, porque a brincadeira armada pelos escritores – Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, então jovens, escreveram uma história a quatro mãos desconsiderando as regras da verossimilhança – provoca gargalhadas no leitor e permite que sua atenção se volte para a engenhosidade com que as cenas são armadas.

Algumas releituras recentes de romances de Eça de Queirós me atiçaram a curiosidade, e resolvi examinar a crítica de Machado de Assis expressa ainda no século XIX. E não pude deixar de admirar o refinado senso crítico de Machado de Assis, a justeza de suas observações, sua mira certeira para revelar os pontos fracos e fortes do romance e do escritor.

Apesar de O Primo Basílio ser o segundo romance de Eça de Queirós, isto é, o escritor português estava no início de sua carreira, Machado de Assis lhe reconhece o talento e suas “faculdades de artista”. O texto está longe de ser crítica arrasadora, é antes um confronto entre dois grandes escritores em formação. Cumpre lembrar que Machado de Assis ainda não publicara Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1878.

O primeiro reparo crítico não se dirige a Eça de Queirós, mas à escola de que participa, o naturalismo então em voga. Machado chama Eça de “realista sem rebuço”, empenhado como Émile Zola na “reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e ignóbeis”. Mas também aponta “quadros, excelentemente acabados, em que o Sr. Eça de Queirós esquecia por minuto as preocupações da escola”.

Mas o xis da questão vai mais fundo que o naturalismo e seus trejeitos. Focando o romance propriamente dito, Machado assesta sua pontaria. Compara a trama da obra à de Eugénie Grandet, romance de Balzac, mas diz ser impossível traçar qualquer paralelo entre a protagonista de O Primo Basílio, Luisa, e a Eugénie da obra francesa. Afirma que “a Luisa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral”. Que os leitores “não lhe peçam paixões nem remorsos, menos ainda consciência”.

Não há como discordar. Não vejo como alguém possa sentir grande interesse por essa Luisa, que nos foge da memória assim que fechamos o livro. E nesse ponto Machado bateu numa característica essencial de Eça de Queirós. O talento do escritor português desabrocha na criação dos personagens figurantes ou coadjuvantes, os protagonistas são quase sempre apagados. E isso me parece ocorrer até mesmo nos grandes romances, como Os Maias.

Mais adiante, Machado afirma que Juliana, a criada, é “o caráter mais completo e verdadeiro do livro”. Como em outros romances do Eça, uma personagem aparentemente secundária assume o papel principal. Mas eu percebo nessa figura uma fraqueza de construção. Ela não surge aos olhos do leitor como uma mulher com suas qualidades, defeitos e dificuldades na lida com a vida, mas como uma criada. A função lhe determina os traços de caráter, e com isso a figura perde em humanidade. Para deixar claro o que quero dizer, lembro a figura de Falstaff  nas peças de Shakespeare. Tinha um título talvez falso de cavalheiro, era boêmio dado a bravatas e arruaças, mas, antes de tudo, ele é Falstaff. Juliana é, antes de tudo, a criada.

Machado de Assis não fala dessa concepção da personagem que me incomodou, mas alude a tal particularidade quando aponta que o desenlace se dá sem que sejam considerados os fios internos da trama. A criada “sucumbe a um aneurisma, Luisa expira alguns dias depois… A catástrofe é o resultado de uma circunstância fortuita, e nada mais.” E ao resumir a moral da história –  “a boa escolha dos fâmulos é uma condição de paz no adultério” – Machado expõe a construção precária dos personagens e o caráter ralo das relações e embates pessoais de O Primo Basílio.

Esta é a principal crítica de Machado de Assis a Eça de Queirós.  “A preocupação constante do acessório”, a tendência a “avolumar os acessórios até o ponto de abafar o principal”. Considera prejudicial à arte do escritor “a substituição do principal pelo acessório, a ação transplantada dos caracteres e dos sentimentos para o incidente, para o fortuito”. E arremata: “…o seu dom de observação, aliás pujante, é complacente em demasia, sobretudo, é exterior, e superficial”.

A leitura dos romances de Eça de Queirós confirma sua verdadeira obsessão pelos detalhes pitorescos da paisagem humana, pelos painéis panorâmicos da imensa diversidade de tipos e figuras. Se em algumas circunstâncias, como na descrição do Pacheco em Correspondência de Fradique Mendes, o seu traço é caricatural, na maioria das vezes é demasiado cheio de cor, relevo e sentimento para que possa ser rotulado de caricatura. A pergunta que me fica é se essa sua tendência ao que é exterior seria lesiva à sua arte, se essa observação que insiste em roçar na superfície das coisas não teria um valor próprio, pois é bem verdade que os romances continuam a suscitar encanto e fascínio em seus leitores. Essa pergunta me leva a outras reflexões que vou deixar para esmiuçar em novo comentário sobre Machado de Assis e Eça de Queirós. São escritores do passado, dois clássicos da língua portuguesa. Apesar do caráter modesto dos meus comentários, é sempre válido ler e reler o que escreveram.

 

Rosaura Eichenberg

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