de revoada

24.07.2021 – Where Have All the Rebels Gone?

Van Morrison e Eric Clapton são dois grandes artistas da música popular britânica. Em nossos tempos sombrios, revelaram ter a coragem de dar com sua música uma resposta altiva aos que querem escravizar a humanidade.  Van Morrison escreveu um blues contra os lockdowns, Stand and Deliver, Eric Clapton o cantou.

Os inimigos da humanidade ordenam – Stand and Deliver (Expressão comum nos assaltos na estrada ou na coleta de impostos).  A resposta/pergunta é – Do you wanna be a free man or do you wanna be a slave?  Pelo jeito, nem Van Morrison nem Eric Clapton deixaram que lhes enfiassem o medo no coração.

E alertam – You better look out, people, before it gets too late.

 

Stand and deliver

 

You let them put the fear on you

Stand and deliver

But not a word you heard was true

But if there’s nothing you can say

There may be nothing you can do

Do you wanna be a free man

Or do you wanna be a slave?

Do you wanna be a free man

Or do you wanna be a slave?

Do you wanna wear these chains

Until you’re lying in the grave?

I don’t wanna be a pauper

And I don’t wanna be a prince

I don’t wanna be a pauper

And I don’t wanna be a prince

I just wanna do my job

Playing the blues for friends

Magna Carta, Bill of Rights

The Constitution, what’s it worth?

You know they’re gonna grind us down, ah

Until it really hurts

Is this a sovereign nation

Or just a police state?

You better look out, people

Before it gets too late

 Van Morrison

 

 

Rosaura Eichenberg

30.11.2020 – Leituras de Bob Dylan

 

No seu livro Chronicles (volume 0ne), Bob Dylan tece comentários sobre a leitura de Vom Kriege de Clausewitz:  

 “When he [Clausewitz] claims that politics has taken the place of morality and politics is brute force, he’s not playing… Don’t give me any of that jazz about hope or nonsense about righteouness. Don’t give me that dance that God is with us, or that God supports us. Let’s get down to brass tacks. There isn’t any moral order. You can forget that. Morality has nothing to do with politics… This is the way the world is and nothing’s gonna change it. It’s a crazy, mixed up world and you have to look it right in the eye. Clausewitz in some ways is a prophet.”

“Quando ele [Clausewitz]  afirma que a política tomou o lugar da moralidade e que a política é força bruta, ele não está brincando… Não me venham com esse jazz de esperança ou disparate a respeito de justiça. Não me venham com essa dança de que Deus está conosco, ou de que Deus nos sustenta. Vamos ao que importa. Não há ordem moral. Podem esquecer. A moralidade não tem nada a ver com a política… O mundo é assim e nada vai mudá-lo. Um mundo louco e confuso,  e temos de de encará-lo bem no olho. Clausewitz é de certa maneira um profeta.”   

É um comentário duro, difícil de aceitar por aqueles que acreditam que Deus está conosco e que Deus nos sustenta. Mas cabe refletir sobre a política ter tomado o lugar da moralidade e a política ser força bruta, que em nossos tempos modernos se diversifica em tecnologias sutis como as dos meios de comunicação. Diante do que estamos vendo acontecer em nosso mundo, Dylan não está longe da verdade quando diz que Clausewitz é de certa maneira um profeta.

 

 

Sua leitura de O General Ateniense de Tucídides também assusta:

“It was written four hundred years before Christ and it talks about how human nature is always the enemy of anything superior. Thucydides writes about how words in his time have changed from their ordinary meaning, how actions and opinions can be altered in the blink of an eye. It’s like nothing has changed from his time to mine.”

“Foi escrito quatrocentos anos antes de Cristo e fala de como a natureza humana é sempre inimiga de qualquer coisa superior. Tucídides escreve sobre como as palavras em seu tempo mudaram seu significado comum, como as ações e as opiniões podem ser alteradas num piscar de olhos. É como se nada mudou de seu tempo para o meu.”

 

 

E para aliviar a dureza dessas duas passagens do livro, eis um trecho em que Dylan se revela americano até a medula dos ossos:

Being born and raised in America, the country of freedom and independence, I had always cherished the values and ideals of equality and liberty. I was determined to raise my children with those ideals.”

“Nascido e criado nos Estados Unidos, o país da liberdade e da independência, eu sempre prezei os valores e ideais de igualdade e liberdade. Estava determinado a criar meus filhos com esses ideais.”  

 

Equipe Ibis

13.11.2020 – Mozart e Bob Dylan

 

Um pensamento de Mozart que liga o gênio de Salzburg a Bob Dylan. 

 

“Não levo em consideração nem elogios, nem críticas de qualquer pessoa. Sigo apenas meus próprios sentimentos.”

 

WOLFGANG AMADEUS MOZART

 

Equipe Ibis

04.01.2020 – Anna Magdalena Bach

 

Em 1988, a Editora Veredas publicou a tradução brasileira de uma verdadeira joia, Pequena Crônica de Anna Magdalena Bach. Esse livro, publicado anonimamente em 1925, é uma novela da escritora inglesa Esther Meynell. Uma obra de ficção, portanto, mas por ser fundamentada em documentos e estudos sobre Bach, lança muita luz sobre a vida e o trabalho do grande músico.

Anna Magdalena foi a segunda esposa de Bach, com quem teve treze filhos e conviveu até a morte do compositor. Ela era 15 anos mais nova que o marido, cantava e acompanhou de perto seu trabalho musical. No livro, dedica muitas páginas ao ensino de música que presenciou na sua casa, pois essa era uma das funções dos cargos ocupados por Bach.

Recebeu como presente do marido um pequeno livro com a cópia das duas grandes partitas em lá menor e mi menor. Seguiam-se várias peças, arranjos corais e vocais, contribuições de compositores da época, sem nenhuma ordem específica e frequentemente entremeados com outras composições do próprio Bach.

Suas memórias romanceadas são uma aproximação singela e muito interessante ao gênio da música.

Notenbüchlein für Anna Magdalena Bach

Minueto em sol maior  –  Christian Petzold

 

Rosaura Eichenberg

08.11.2017 – Show Gastão Villeroy no Espaço 373

 

GASTÃO VILLEROY

No ESPAÇO 373 (Rua Comendador Coruja, 373)
Dia 11 de abril às 21:30
Ingressos: R$ 50
Informações: (51) 992.46.7780

Retornando de turnê pelos EUA, com a cantora Maria Gadu, o músico, compositor, produtor e arranjador, Gastão Villeroy, chega essa semana direto no RS para fazer dois shows do seu elogiado álbum Amazonia Amazonia, em Montenegro, dia 7 de abril e em Porto Alegre no dia 11.

A apresentação em Porto Alegre acontecerá no Espaço 373, um novo local multimídia, que abriu recentemente na Rua Comendador Coruja, no Bairro Floresta e que vem se tornando um grande ponto de encontro de artistas de todos os gêneros.

 

Paulo Eichenberg

23.08.2014 – De sabiás e bandas

A morte de uma das integrantes do Quarteto em Cy, Cybele, me transportou ao passado, e vi num dos jornais online o vídeo em que ela e a irmã Cynara cantam “Sabiá”, de Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque,  no Festival Internacional da Canção em 1968. A canção venceu o festival, e seu prêmio foi aplaudido debaixo de muitas vaias. À época eu estava distraída lidando com os confrontos e sofrimentos de ser jovem, por isso ouvi falar do que tinha acontecido, mas não registrei que a canção derrotada, que o público queria vencedora (razão das vaias), era de Geraldo Vandré, aquela que dizia “Quem sabe faz a hora…”, tantas vezes entoada nas passeatas em todo o Brasil contra a ditadura militar.

Nos anos 60, os festivais eram acontecimentos estrondosos, com torcidas e paixões de jogos de futebol. E lembrei que noutro festival famoso, em 1966, a música de Chico Buarque, “A Banda”, cantada por Nara Leão, dividiu o prêmio com uma canção de Geraldo Vandré chamada “Disparada”, se não me engano. Nesse festival não houve vaias, só muita animação, dança e aplausos. Entre a juventude, mais tarde, é que circulou a polêmica sobre o acerto ou não do empate, sobre qual das músicas seria a melhor. Hoje, relembrando esses eventos, achei curioso que por duas vezes Chico Buarque e Geraldo Vandré tenham se enfrentado na febre dos festivais.

Nunca deixei de gostar de “A Banda”. Anos mais tarde, falando com uma professora de música, ela me chamou atenção para uma característica musical do Brasil – em todo canto deste país, principalmente nas cidadezinhas do interior, há sempre uma praça com um coreto ou plataforma, e ali, todo fim de semana, toca a banda. Chico Buarque foi buscar água nessa bica, e aproveitou a tradição com bastante esperteza, porque (se o meu parco conhecimento de música não me engana) fez sua canção imitar o som de uma banda, o mesmo ritmo ingênuo e simples. O resultado é que, com vinte e poucos anos, pôs o país inteiro a dançar – não é pouca coisa.

O sabiá canta muito bonito. Numa aula de língua alemã nos anos 90, o professor levou uma gravação do canto do rouxinol, para que conhecêssemos a beleza que os poetas alemães exaltam em seus escritos. Problema de gravação ou meu ouvido nada apurado, não sei, mas não pude deixar de considerar o rouxinol um cantor bem mixuruca perto do sabiá que eu conhecia na natureza.

John Keats evocou o canto do rouxinol em versos de pura música:

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaThat thou, light-winged Dryad of the trees
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaIn some melodious plot
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaOf beechen green, and shadows numberless,
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaSingest of summer in full-throated ease.

Tom Jobim escreveu uma música delicada e melodiosa como o canto de sabiá que eu tinha escutado, e Chico Buarque travou um diálogo com o sabiá que canta na minha terra de palmeiras que já não há, uma conversa melancólica condizente com o tom sombrio da época. A voz doce das duas cantoras em Cy completava o clima intimista da canção, suave e graciosa, talvez pouco apropriada para os entusiasmos nada harmônicos das torcidas dos festivais.

As duas canções de Geraldo Vandré eram, essas sim, bem próprias de festival, adequadas para os conflitos sociais, mas aos meus ouvidos de hoje soam pobres e tremendamente chatas. A ditadura militar foi uma desgraça que nos aconteceu impregnando de feiura as terras brasileiras. E esse breu que nos cobriu não poupou nem mesmo muitos daqueles que se insurgiam contra o arbítrio. A música de Vandré traz em seu bojo um Brasil feio. Por isso, quando vi o vídeo do Festival Internacional da Canção, senti que Tom Jobim e Chico Buarque, em pé atrás das moças que entoavam o canto do sabiá, pareciam desajeitados, sem saber muito bem o que estavam fazendo ali, como se estivessem cumprindo missão ingrata, mas imperiosa. A beleza da música abafada e amarfanhada pelo ruído do público, sorrisos entre irônicos e acanhados, mas um brilho tênue resistindo na paisagem brasileira. Senti vontade de atravessar os anos para estar lá, batendo palmas para o sabiá, Gonçalves Dias, Tom Jobim e Chico Buarque, protagonistas da resistência.

Rosaura Eichenberg

22.07.2014 – A Dança das Palavras

 

dylan 1963

Nos meus anos mais jovens (para lembrar um poema de Hölderlin), vi nascer dentro de mim uma paixão pelos versos do poeta, compositor e artista americano Bob Dylan. Paixão que ao longo do tempo só fez crescer, tornando-se cada vez mais intensa. A voz de Dylan é um pouco anasalada e sua dicção é única, isto é, não é fácil compreender o que canta, pois as palavras soam estranhas, principalmente para quem não fala inglês como língua materna.  Em tempos remotos, eu escutava com frequência uma de suas canções de amor chamada “It’s All Over Now, Baby Blue”. Uma canção muito bela sobre um amor que se desfaz. No meio dos versos pungentes mesmo quando irônicos,  eu escutava o amante dizer, entre palavras duras sobre ter de ir embora e tomar outro caminho:

“Take what you have gathered from cau-in-so-dance”

Era exatamente assim que as palavras soavam nos meus ouvidos, e eu não conseguia compreender que dança era essa. Eram tempos sem os recursos da internet, e eu não tinha agilidade suficiente para saber onde esclarecer a minha dúvida. Experimentei os nomes de várias danças que conhecia, e o termo mais próximo que encontrei foi calipso, mas sabia que não era isso porque não conseguia escutar nenhum “L” na voz de Dylan. Só bem mais tarde encontrei por acaso a letra da canção e li o seguinte verso:

“Take what you have gathered from coincidence”

E não pude deixar de sorrir para Bob Dylan. Tem razão, Mr. Dylan, eu me rendo. A coincidência é uma dança.

Rosaura Eichenberg

21.04.2014 – Arthur Rubinstein

O famoso pianista do século passado, Arthur Rubinstein, dizia que se deve amar a vida incondicionalmente. Numa entrevista que concedeu aos 90 anos de idade, à pergunta de seu interlocutor – “Você disse frequentemente que é o homem mais feliz que conhece. Acho que as pessoas gostariam de saber quais são as fontes dessa felicidade.” – Rubinstein respondeu o seguinte:

“Minha felicidade, meu sentimento de felicidade, minha consciência da felicidade surgiu logo depois de uma tentativa de me matar. Quis me suicidar na madura idade de 20 anos, porque tinha chegado a uma espécie de hora zero, se é que posso chamá-la assim. Não havia nada para mim. Estava detido em Berlim a caminho de Paris. Não podia chegar até lá, porque não tinha dinheiro. Prometi voltar com algum dinheiro, mas não tive como arranjá-lo. Eu estava num hotel em Berlim, e depois de algumas semanas já não podia pagar pelo meu quarto. A mulher que eu amava muito era casada e prometeu divorciar-se, mas não se divorciou e rompeu comigo. Eu não ousava falar sobre tudo isso com meus pais, não tinha nenhum contato com eles, ninguém sabia onde eu estava. Tentei me suicidar, mas continuo vivo – não funcionou. Rebentou aquilo com que tentei me enforcar, e eu caí no chão. Eu me sentia infeliz, toquei um pouco de piano e depois fiquei com muita fome. Assim quando saí para a rua, eu de certa maneira tinha renascido. Estava desistindo da vida, aí então retornei para ela. Mas esse retorno foi muito estranho, porque de repente compreendi, com muita clareza, o quanto eu fora tolo. Que a vida não depende em absoluto de coisas como não pagar o hotel, ou uma mulher te abandonar, ou a carreira ser interrompida. A vida é o que ela te dá. Está diante de ti.”

Rosaura Eichenberg

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