de revoada

Participação em De Revoada

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18.12.2013

Os leitores de obras literárias gostam de dar títulos grandiosos a seus escritores preferidos ou admirados, tais como ‘o maior poeta do nosso tempo’, ‘o maior escritor da língua portuguesa’. Na virada do século, essa tendência virou uma verdadeira mania. Todos queriam dar o seu palpite sobre os maiores escritores do século que findava. Lembro que também entrei na dança e arrisquei que o grande escritor do século, o grande Dichter, chamava-se Franz Kafka e que o maior poeta tinha escrito em português, Fernando Pessoa. Mas imagino que no fundo todos sabem que esses exercícios são divertidos para quem gosta de ler, mas certamente vãos. Muito mais importante que receber o título de ‘maior escritor’ é ser lido e apreciado. É bem verdade que aprendi na escola, na universidade e em vários cursos que ‘Camões é o maior poeta da língua portuguesa’, e que muito mais tarde, após leituras e mais leituras, cheguei à conclusão, ora tão original, de que ‘Camões é o maior poeta da língua portuguesa’. Mas essas classificações podem às vezes desorientar. O poeta Carlos Drummond de Andrade foi considerado o grande poeta brasileiro na segunda metade do século passado. Nos últimos tempos, tenho escutado e lido ressalvas quanto a esse julgamento. Alguns acusam um certo prosaísmo nos poemas de Drummond, e muitos o consideram discursivo e pouco moderno (isso soaria provavelmente engraçado nos ouvidos do poeta na década de 30) sem o rigor poético de João Cabral de Melo Neto. Ora, penso que atacando a primazia atribuída a Drummond na poesia contemporânea, muitos acabam cometendo erro grave, que é não reconhecer a excelência da sua poesia. Se ele é ou não ‘o nosso maior poeta’, pouco importa. Mas ler, apreciar e assimilar os seus poemas é um privilégio que seria muita burrice recusar ou menosprezar. Ele não está entre meus poetas favoritos, mas no começo do dia quase sempre lembro Drummond:

‘Lutar com palavras
É a luta mais vã
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã.’

Rosaura Eichenberg

18.12.2013

Lawrence Olivier como Ricardo III

Há escritores que são realmente tragados pela própria obra. Às vezes fico pensando que vai chegar o dia em que os espanhóis não saberão quem foi Miguel de Cervantes, mas todos reconhecerão Dom Quixote. Shakespeare é um desses escritores – sua obra é um verdadeiro oceano, quase impossível imaginar que tenha saído de letras desenhadas por uma pena. Na Enciclopédia Britânica, encontra-se uma descrição surpreendente de Ricardo III da Inglaterra, o personagem central do drama histórico The Life and Death of King Richard III, que versa sobre a tirania. A figura histórica não corresponde ao monstro genialmente criado por Shakespeare – enredado, sem dúvida, nos conflitos e costumes um tanto bárbaros da época, o rei parece ter sido um bom administrador e  respeitado pelos seus súditos. Além disso, não há retratos, nem relatos da época que confirmem o fato de que era corcunda. Em fevereiro de 2013, arqueólogos descobriram em Leicester o esqueleto de Ricardo III, e revelou-se que ele sofria de uma escoliose bem acentuada. Não era, portanto, corcunda. Um século separa as vidas de Ricardo III e Shakespeare, e, ao escrever o drama, esse último teria se baseado em lendas criadas por motivos políticos e muito do agrado da dinastia Tudor. Além do mais, o interesse maior de Shakespeare era escrever sobre a tirania. Mas isso nos leva a pensar sobre a força da ficção, ou melhor, de certas obras de ficção. Poucos se darão ao trabalho de procurar conhecer o Ricardo III histórico, mas quem não guardará na memória o monstro corcunda, capaz de maldades e mais maldades, a correr pelo campo de batalha gritando ‘Meu reino por um cavalo!’?

Rosaura Eichenberg

18.12.2013 – Reflexão

Uma coisa é certa: não existe caminho das pedras para os escritores. Quem escreve pra valer tem de construir suas próprias regras. Leituras (acima de tudo), conversas, experiências, conselhos, cursos, oficinas: há muita ajuda por toda parte, mas desconfio que o ato de escrever é e sempre será aterradoramente solitário.

Rosaura Eichenberg

18.12.2013

Caderno de Esboços  Marc Chagall

Em 2009, a exposição O Mundo Mágico de Marc Chagall no Museu Nacional de Belas Artes proporcionou ao carioca um vislumbre da arte de Marc Chagall. Além de pinturas a óleo, foram exibidas gravuras e guaches ilustrando temas da Bíblia, a história de Dafne e Cloé, o romance As Almas Mortas de Nicolai Gogol, as fábulas de La Fontaine. E a beleza do desenho e das cores, a expressividade dos personagens de Gogol, tudo contribuiu para tornar sensível a nossos olhos a falta de ilustrações nos livros modernos. Há ainda fotos, certamente, mas os desenhos e as gravuras desapareceram das páginas. É bem possível que encareceriam ainda mais as edições – não deve ser baixo o custo de um bom ilustrador e de um processo decente de reprodução das imagens. Mas as exigências dos métodos modernos de produção de livros não calam a voz da Alice dentro de nós: “E de que serve um livro sem desenhos e diálogos?”

Rosaura Eichenberg

18.12.2013

A Íbis se propõe a oferecer a leitura de textos sobre literatura e arte apesar de  uma contradição intrínseca a esse projeto e intenção. Serão textos por vezes longos, e a prática revela que a leitura se realiza com mais concentração e prazer nos livros ou periódicos de papel. Será o cansaço dos olhos provocado pela leitura na tela ou mera inadequação aos novos meios de comunicação proporcionados pela tecnologia sempre em desenvolvimento? Já surgem no mercado editorial os e-books, mas ainda é comum a observação de que é incômodo ler textos longos na tela do computador. ‘Quando tenho que ler um texto mais denso, imprimo e leio com atenção longe do computador.’ Os e-books já oferecem uma apresentação que atenue essas queixas que ainda se escutam? E os futuros leitores, que hoje usam fraldas, sentirão a necessidade do texto impresso em papel para que a leitura lhes proporcione prazer e informação bem como o tempo de ruminar e digerir as letras? As mudanças têm prioridade máxima em nosso tempo, e todos sabemos que elas estão longe de ser fáceis. Ainda alinhado com aqueles que não abrem mão do prazer de ler um texto impresso, este espaço apresenta seu conteúdo sem bloquear a possibilidade de textos longos, mesmo sabendo que a leitura pode se tornar cansativa na tela.

Rosaura Eichenberg

18.12.2013

No final de 2009, alunos de uma universidade brasileira atacaram aos gritos de ‘Puta! Puta!’ uma colega que estava de vestido muito curto. Antes da revolução dos costumes sexuais, era comum uma dissociação da figura da mulher – ela era a santa, a senhora do lar, a mãe dos filhos, de um lado, e a puta, de outro. Essa divisão parecia diluída no mundo atual, mas o incidente na universidade veio me mostrar o contrário. Aliás, veio me lembrar que a imagem da mulher nos meios de comunicação, quando ela é apresentada como objeto de desejo, beira a figura da puta. Uma amiga psicóloga me disse: ‘Essa dissociação não desapareceu. Psicologicamente, ainda é assim.’ As mudanças externas são relativamente fáceis de serem levadas a cabo, as interiores levam muito mais tempo. João Guimarães Rosa escreveu Dão-La-La-Lão, uma novela de Corpo de Baile, em que se aproxima com muito tato e beleza dessa divisão da imagem feminina.

Rosaura Eichenberg

18.12.2013

rastrosdeodioMesmo sem conhecimento cinematográfico aprofundado, tive há algum tempo a oportunidade de ver dois filmes de faroeste e fazer uma pequena reflexão sobre a expressão artística. O primeiro foi um filme de John Ford de 1956, The Searchers (o título em português Rastros de Ódio é desta vez bem melhor que o original), uma reflexão sobre o ódio entre brancos e índios, sobre a possibilidade de um apaziguamento dos conflitos. O segundo tinha o título Era Uma Vez no Oeste, uma produção ítalo-americana de 1969 com direção de Sergio Leone, uma reflexão sobre o gênero do faroeste com alusões a cenas clássicas desse tipo de filmes. Por exemplo, a cena do massacre da família no início lembra certamente o ataque dos índios no começo de Rastros de Ódio, quando uma família inteira é aniquilada. A estrutura narrativa de pensar fatos e situações já narrados e refletidos por outros é certamente mais densa e pesada, de apreensão mais difícil. Mas o que me chamou a atenção foi o seguinte: no filme de John Ford, o espectador é envolvido na  trama da história, nos sentimentos dos seres humanos que visualiza na tela, nos seus receios, aspirações, terrores. É como se o espectador tivesse uma lira interior, e as imagens do filme fossem eraumavezoestededilhando uma a uma cordas que fazem vibrar todo o seu corpo. No filme do diretor italiano, o ódio deixa de ser aquilo que nem se explica entre os brancos e os índios, é agora algo racional, conflito de interesses materiais, parte de uma equação de solução relativamente fácil. E de certa maneira as cores estão carregadas demais, o batom borra a expressão dos lábios, o vilão rola na lama, tudo em tom por demais patético. Os espectadores são convidados a admirar as acrobacias do diretor e dos atores, alguns com desempenho notável, mas a lira interior de quem vê o filme se mantém muda, afogada pelos sons das fanfarras, e lá de dentro sentimos apenas um longo bocejo que teima em não terminar.

Rosaura Eichenberg

18.12.2013

Em outubro de 2009, o historiador gaúcho Voltaire Schilling deu início a uma polêmica saudável sobre a arte contemporânea com o seu texto ‘A Capital das Monstruosidades’ a respeito dos monumentos de Porto Alegre. São em geral esculturas de nosso tempo, apresentadas nas várias bienais de arte de Porto Alegre, que os artistas houveram por bem deixar na cidade.  Foram muitos os artigos que se seguiram, revelando um entusiasmo insuspeitado nos gaúchos para tratar de tema tão inóspito. Difícil, sem dúvida, porque é cada vez maior o afastamento entre a arte e a sociedade das pessoas comuns, e porque as relações entre a arte e o mercado são confusas mas necessárias, pois os artistas têm de ser de algum modo financiados. A chamada arte moderna já teve seus momentos épicos no início do século passado – a estreia da Sagração da Primavera de Igor Stravinsky em Paris, a Semana da Arte Moderna no Brasil – e seus momentos de grande expressão e rebeldia como o Chien Andalou de Luis Buñuel, mas depois vieram pós-modernismos e pós-pós-modernismos, uma procura fatigada de ultrapassar limites que nem mais se enxergam. E nesse ponto arrisco uma opinião leiga, essa tal de arte contemporânea está, quem sabe, envelhecida. Instalações, performances, sei lá que mais – não são tudo velharias? Tudo coberto de poeira, teias de aranha. Uma arte que não conseguiu desabrochar e feneceu na sua novidade. Por isso, a polêmica provocada por Voltaire Schilling parece tão importante, um sopro de vitalidade em experimentações um tanto senis. E uma coisa é certa: já me disseram que a loucura humana é infinita – ao que parece, a criatividade humana também. O artista contemporâneo saberá cumprir seu destino de fênix.

Rosaura Eichenberg

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