A mensagem de 24 de novembro do 2021 dizia: “Que bom seria sentar contigo e conversar, conversar!!!”
Sim, temos muito que conversar.

No momento sinto, como Emily Dickinson:
“The only news I know
Is bulletins all day
From Immortality.”
“As únicas notícias que tenho
São boletins o dia todo
Da Imortalidade.”
Rosaura Eichenberg
A mensagem via e-mail chegou com um choque abrupto. Maria Helena Martins (1941-2022), minha amiga e colega na UFRGS, tinha falecido.


A nota de pesar aponta o quanto a Maria Helena realizou com seus estudos e trabalhos no campo das letras. Seu desempenho na área acadêmica foi exemplar, e cumpre destacar sua tese de mestrado sobre o poema “Antônio Chimango”, publicada com o título de Agonia do Heroísmo pela editora L&PM em 1980.

O que tenho ainda em mais alta conta é sua dedicação ao site criado para estudar e analisar a obra de seu pai, Cyro Martins. Um trabalho muito bonito. O nome do site é Celpcyro – Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise – www.celpcyro.org.br.
Numa das minhas últimas conversas/mensagens com a Maria Helena, trocamos queixas de mazelas de saúde que ocorrem com a idade, por causa de um problema meu a esse respeito. Sei que a conversa com a amiga me animou como sempre, e afirmei confiante que não era hora de falar em ponto final, porque ainda estávamos nas vírgulas. A lembrança da Maria Helena me torna ainda mais confiante, vislumbrando que pontos finais soem abrir para muitos outros parágrafos / estradas.
Because I could not stop for Death –
He kindly stopped for me –
The Carriage held but just Ourselves –
And Immortality.
Emily Dickinson
Porque eu não pude parar para a Morte –
Ele gentilmente parou para mim –
A Carruagem só transportava a Nós Próprios –
E a Imortalidade.
Rosaura Eichenberg
A escritora francesa Charlotte Delbo (1913-1985) participou do movimento da Resistência Francesa contra a ocupação nazista da França. Militante comunista, ela foi presa em 1942 e mais tarde enviada ao campo de concentração de Auschwitz. Seu marido foi também preso, torturado e fuzilado.
Em dezembro de 2021, a Editora Carambaia publicou Auschwitz e Depois, tradução de Monica Stahel. É o testemunho de Charlotte Delbo sobre sua passagem pelos campos de concentração nazistas.
Não devemos nos iludir, pensando que pesadelo tão medonho é coisa do passado prestes a cair no esquecimento. O mal do século XX, o totalitarismo, ainda ameaça a humanidade com um grau talvez maior de devastação. A guerra já estrondeia entre nós e em nossos corações. Vale, portanto, lembrar estas palavras de Charlotte Delbo na tradução de Fernando Eichenberg:
“Vocês não podem compreender
Vocês que não escutaram
Bater o coração daquele que vai morrer…”
Rosaura Eichenberg
Emily Dickinson – 1741
That it will never come again
Is what makes life so sweet
Believing what we don’t believe
Does not exhilarate
That if it be, it be at best
An ablative estate –
This instigates an appetite
Precisely opposite
Que nunca virá de novo
É o que torna a vida tão doce
Acreditar no que não acreditamos
Não inspira euforia
Que se existir, seja no máximo
Um território ablativo –
Isso instiga um desejo
Precisamente oposto
Rosaura Eichenberg
Porto Alegre é uma cidade que tem seu poeta próprio, e ele se chama Mario Quintana.
O velho poeta, como ele se autodenominou na dedicatória do autógrafo que concedeu à minha mãe, tinha olhos de criança para ver o mundo.
‘Todos esses que aí estão atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!”
É bom lembrar o poeta pelo que escreveu, porque ele declarou num encontro de literatura que a parte de que mais gostava nos artigos sobre seus poemas eram as citações.
Nos tempos de antigamente, quando o jornal de Porto Alegre era “O Correio do Povo”, Mario Quintana assinava uma coluna chamada “Caderno H”. Foi entre esses pensamentos avulsos que encontrei certo dia a seguinte preciosidade, que nunca mais escapuliu da minha mente.
CADERNO H
DO IDEAL
As lagartas não podem acreditar na lenda – tão antiga entre o seu rastejante e esforçado povo – de que um dia serão borboletas… e toda a sua felicidade consiste em relembrar, às vezes, o absurdo e maravilha desse velho sonho.
Ora, neste ano da graça de 2022, em janeiro para ser mais preciso, foi encontrado um poema inédito de Mario Quintana. Estava escrito numa folha de papel perdida entre as páginas de um livro, repassado a uma livraria como parte do lote de uma biblioteca particular. Quem descobriu a raridade foi o livreiro.
O título é “Canção do Primeiro do Ano”, e a data anotada 1º de janeiro de 1941.
Canção do primeiro do ano
Pelas estradas antigas
As horas vêm a cantar.
As horas são raparigas,
Entram na praça a dançar.
As horas são raparigas…
E a doce algazarra sua
De rua em rua se ouvia.
De casa em casa, na rua,
Uma janela se abria.
As horas são raparigas
Lindas de ouvir e de olhar.
As horas cantam cantigas
E eu vivo só de momentos,
Sou como as nuvens do céu…
Prendi a rosa dos ventos
Na fita do meu chapéu.
Uma por uma, as janelas
Se abriram de par em par.
As horas são raparigas…
Passam na rua a dançar.
Janela da minha vida,
Aberta de par em par!
As horas cantam cantigas
E, de novo, sem lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Em tuas mãos distraídas…
Mario Quintana
P. Al. 1/1/41
Uma estranheza de paralelos não me passou despercebida. O poema canta o início de 1941, a sua descoberta tardia vem cantar o princípio de 2022. O mundo estava em guerra em 1941, o mundo está em guerra em 2022. Como seria de esperar, a canção reflete o passar do tempo que, em tempos de guerra, se torna mais premente.
Disse o poeta americano Robert Frost:
“In three words I can sum up everything I’ve learned about life: it
goes on.”
“Em três palavras posso resumir tudo o que aprendi sobre a vida: ela segue adiante.”
É uma visão desconsolada da vida.
Há rios e oceanos de distância entre a falta de luz sentida pelo americano e as janelas abertas e as raparigas a cantar anunciadas por Mario Quintana, ainda que ele só viva de momentos como as nuvens do céu…
Mesmo em anos de guerra, mesmo conhecendo a fragilidade e talvez inutilidade de seu esforço, ele insiste em atirar “a rosa dos sonhos em tuas mãos distraídas…”
Afinal, é preciso sempre relembrar “o absurdo e maravilha desse velho sonho”.
Rosaura Eichenberg
O mundo está em guerra. Quem ainda não sabe deve ajustar as lentes de seus olhos. São tempos difíceis e sofridos.
Com esta realidade de pano de fundo, vale relembrar o filme “Casablanca”, pois talvez seja de grande ajuda ver como os homens do passado resistiram e sobreviveram a tempos sem respeito pela vida e pela humanidade.
Abaixo a letra da música que impregna todo o filme, uma celebração melancólica da luta humana que não pode ter fim as time goes by.
You must remember this,
A kiss is just a kiss.
A sigh is just a sigh.
The fundamental things apply,
As time goes by.
And when two lovers woo,
They still say “I love you.”
On that you can rely.
No matter what the future brings,
As time goes by.
Moonlight and love songs,
Never out of date.
Hearts full of passion,
Jealousy and hate.
Woman needs man,
and man must have his mate.
That no one can deny.
It’s still the same old story,
A fight for love and glory,
A case of do or die.
The world will always welcome lovers,
As time goes by.
Rosaura Eichenberg
No Réquiem de Mozart, existe um trecho – Offertorium – que há muito tempo me deixou perplexa e me fez pensar. Até hoje é um mistério para mim o que escutei e escuto. Uma experiência auditiva muito individual e específica, mas acho que vale a pena registrá-la.
Offertorium
Domine Jesu Christi, Rex gloriae,
libera animas omnium fidelium
defunctorum de poenis inferni
et de profundo lacu.
Libera eas de ore leonis,
ne absorbeat eas tartarus,
ne cadant in obscurum
Sed signifer sanctus Michael
repraesentet eas in lucem sanctam
Quam olim Abrahae promisisti
et semini ejus.
Ofertório
Senhor Jesus Cristo, Rei da glória,
liberta as almas de todos os fiéis
defuntos das penas do inferno
e do lago profundo.
Liberta-as da boca do leão,
que não sejam tragadas pelo Tártaro,
nem caiam nas trevas.
Mas que o santo porta-estandarte Miguel
as represente na luz santa.
Como outrora prometeste a Abraão
e a toda sua descendência.
Na interpretação do maestro Herbert von Karajan, acontece uma coincidência quando as vozes se sobrepõem umas às outras ao cantar o texto. Trata-se de uma coincidência específica, porque não a encontrei nas interpretações de outros maestros. E também porque essa coincidência faz soar uma frase em português, minha língua que está longe de ser amplamente conhecida.
Trata-se do final do texto, quando cantam Quam olim Abrahae promisisti. A superposição das vozes resulta em
aaaaaaaaaaaaaaAmor é carne Amor existe.
Neste Natal, quando “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”, é um alento de esperança em nossas preces escutar que
aaaaaaaaaaaaaaaaaaAmor existe.
Rosaura Eichenberg
Sonhar o sonho impossível,
Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca.
– O Homem de la Mancha – filme de 1972 dirigido por Arthur Hiller
– Dom Quixote de La Mancha – Miguel de Cervantes
A Room of One’s Own é um ensaio literário escrito por Virginia Woolf e publicado em 24 de outubro de 1929. Trata-se de uma tese sobre a posição da mulher na esfera da literatura. Virginia Woolf propõe que a mulher carece de um espaço próprio em que possa exercer sua criatividade e escrita, pois a sua lida diária nos afazeres domésticos e cuidados com os filhos a confinam num canto espremido de sua vida interior sem que tenha como se desenvolver. A certa altura Virginia Woolf pergunta: “Onde está a irmã de Shakespeare?”
Como todo texto escrito por Virginia Woolf, as frases não têm como ser mais refinadas, precisas e elegantes. Mas a leitura prazerosa não encobre o fato de que se trata de um texto militante – e o grau de incompatibilidade entre militância e literatura é alto. O ofício de escritor exige um olhar bem mais amplo e aberto do que o foco intenso, mas restrito dos militantes.
Um dado chama a atenção no texto de Virginia Woolf. Ela escreveu o ensaio no início do século XX – o século XIX presenciou um desenvolvimento extraordinário do romance inglês. Ao ler o ensaio, impossível não pensar em Emily Brontë, Jane Austen e George Eliot, três escritoras superlativas, sem falar em tantas outras mulheres que brilharam na arena literária como a própria irmã de Emily Brontë. Virginia Woolf fala em Jane Austen, a quem atribui as frases mais bem escritas na língua inglesa. Vindo de Virginia Woolf, é um elogio e tanto.
Resultado: depois da leitura desse ensaio tão bem escrito, o que vem à mente é que na Inglaterra do século XIX não havia falta de quartos próprios para as mulheres escritoras.
Rosaura Eichenberg
“À des amants, il faut la solitude.”
Ste. Thérèse de Lisieux
Rosaura Eichenberg