de revoada

28.03.2021- Enigma antigo

 

Existirá realmente esta identidade coletiva vaga a que chamamos de povo de um país? Miguel de Unamuno não gostava da palavra povo. 

Os habitantes das nações modernas partilham costumes em comum, paisagens, modos de ver as coisas, tradições culturais e, sobretudo, uma mesma língua, tesouro em que se guardam e se transmutam todas as suas experiências.

Mas o que existe para além das circunstâncias não é sempre o jeito individual de ser, a aventura iniciada no mistério do nascimento, assumida como possível no combate com o tempo, e desaguando sem imprevistos no outro grande mistério de não ser?

 

 

Rosaura Eichenberg

06.02.2021 – Ainda sobre Machado de Assis

 

É bastante conhecida a mudança inesperada que ocorreu na carreira literária de Machado de Assis com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas talvez valha a pena comentá-la mais uma vez, ainda que sem o rigor de um estudo aprofundado. 

Machado começou a trabalhar numa tipografia, depois passou a escrever para os jornais e aventurou-se como escritor em vários gêneros: escreveu poesia, peças de teatro, contos e romances. A quebra na linha de sua trajetória literária se torna mais visível no romance com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1881. 

Antes Machado tinha publicado quatro romances, Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, que seguiam moldes literários franceses. Os capítulos saíam em revistas femininas à maneira de folhetim. Cumpre dizer que apesar da grande influência francesa na cultura daqueles tempos, os romances revelam um escritor com força e estilo próprios. Um tema constante nos quatro é a questão moral confrontada pelas protagonistas – moças envolvidas em casos amorosos, que pelo casamento terão uma ascensão social. O que lhes tortura o espírito é saber se é amor ou interesse o que as impele ao casamento. A ironia machadiana já marca presença nesses romances, com especial destaque em Iaiá Garcia.

Eis que em 1881 Machado publica um romance em que reconhece a influência inglesa de Laurence Sterne e deixa a ironia extravasar numa conversa direta do narrador com o leitor. Mas o que espanta no romance é menos o estilo literário adotado que a maneira desabusada como descreve e comenta as fraquezas humanas. Afinal, o narrador que comanda o romance está morto, e essa condição lhe permite observar o interior dos seres humanos sem qualquer entrave imposto pela vida. Machado é impiedoso em seu retrato das criaturas humanas na sua lida diária.

Mesmo naquela época, o mundo literário reagiu a mudança tão brusca nas obras do escritor. Até hoje, mais de um século passado, muitos ainda buscam respostas para o enigma. A ruptura na linha literária até então traçada se deu quando Machado se encontrava no final de seus trinta anos e início dos quarenta. Foi por esse período que Machado teve a primeira crise de epilepsia, fato marcante que o levou a refugiar-se na serra por algum tempo. Mas quase todos reconhecem que ligar a manifestação da doença com a inesperada reviravolta em seus escritos seria dar uma resposta simples a uma questão complexa, o que em geral se revela falho.

Num artigo escrito por Lúcia Miguel Pereira, encontrei uma observação que me apontou um possível esclarecimento. A autora menciona a resposta de Machado de Assis a um contemporâneo que lhe perguntou a razão de ele ter tomado desvio tão imprevisto ao escrever Memórias Póstumas de Brás Cubas. Disse Machado: “Eu apenas me desiludi dos seres humanos.”  

Numa compreensão tosca, concluí que depois de tanta discussão moral a respeito dos atos humanos e suas intenções, Machado tinha jogado a toalha e decidido que ser humano não presta. Com essa visão desassombrada da vida humana, Machado afiou suas observações sobre os embates interiores de seres tão fracos, sem recuar diante do que seus olhos revelavam. A partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, sua obra se pautou pela busca da verdade, ainda que ingrata, da humana condição. Essa sua visão amarga se traduz muito bem numa das últimas frases de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Não tive filhos. Não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

Os grandes romances que se seguiram – Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Ayres – obedecem a diretiva determinada no romance de 1881, cada um aprofundando a seu modo as revelações de Machado. Essa mesma amargura também se manifestará nos contos, outro gênero que a pena de Machado honrou com verdadeiras obras-primas.

Há de se convir que não é palatável o que Machado de Assis mostra na sua obra a respeito da vida sobre a Terra. Machado exige dos leitores muito estudo e reflexão para que possam começar a entrever o que ele está dizendo. Até os próprios estudiosos da sua obra tentam por vezes atalhos pouco esclarecedores na sua tentativa de compreendê-lo. Estudar Machado de Assis em busca de um retrato das contradições da vida social no II Império me parece atalho que proporciona um voo curto de galinha. A vida social não é o que mais importa nos escritos machadianos. Os ensaios de Augusto Meyer sobre Machado de Assis aproximam-se bem mais do Bruxo do Cosme Velho propondo vislumbrar na sua obra o homem subterrâneo de Dostoiévski, mas esse atalho não é prazeroso pois se embrenha na amargura da visão machadiana.

Cumpre frisar que dois movimentos estão presentes na maneira como Machado de Assis considera a vida humana. Primeiro, nunca será demasiado lembrar a grande coragem para não recuar diante do que se revela a seus olhos. Ele aponta, esmiúça, detalha, pinta, perscruta os seres humanos sem evitar descrever o que está longe de ser aprazível. O segundo movimento é que só foi capaz desse trabalho duro por amar a vida que lhe revela seu ser tão amargo. No conto “Viver!” incluído em Várias Histórias, o final é um diálogo entre duas águias:

 

“Uma águia – Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo

                         e ainda sonha com a vida.   

A outra – Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.”

 

Machado apresenta uma visão nada agradável do ser humano, difícil de provocar sentimentos amorosos nos leitores. Mas se a amargura o dominasse por inteiro, ele não teria escrito nada. Escrever é um ato de amor.

Esses parágrafos são um apanhado muito superficial de minha reação à obra de nosso maior escritor. Mas não poderia terminar o texto sem fazer uma menção especial a uma de suas obras, o romance Dom Casmurro.  Capitu, a protagonista, é uma das maiores personagens femininas da literatura brasileira e da literatura ocidental. Uma realização extraordinária de Machado de Assis. Apesar de ser personagem controversa – os que conhecem o romance sabem disso – Capitu só adquire vida por ser a criação de um grande amor – de Machado de Assis e de seus leitores.

 

 

Rosaura Eichenberg

03.02.2021 – Ler Machado de Assis não é fácil

 

Machado de Assis é o maior escritor que o Brasil já teve. Trata-se de um consenso bastante sólido na cultura brasileira. Mas, como nada no Brasil é simples e corriqueiro, ele não é leitura que se abre generosa aos que dele se aproximam. Ler Machado é uma conquista árdua que exige grande trabalho. Ele próprio tinha ciência dessa dificuldade, pois escreveu em Memórias Póstumas de Brás Cubas:

“Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco.”

Difícil ou não, sua importância na literatura brasileira só faz crescer com os anos, e sim, ele tem presença obrigatória no currículo escolar dos brasileiros, porque todos têm de conhecer a cultura de seu país. Como na superfície nossa vida cultural está infestada de estereótipos, faz-se necessário saber dos veios do minério de real valor.

A dificuldade de leitura da obra de Machado já rendeu muita polêmica. Além de pessoas sem bagagem cultural chegarem a pensar em tirá-lo do currículo escolar, houve quem apresentasse a sugestão de reescrever textos de Machado com linguagem mais moderna para facilitar a leitura. Uma ideia falha por se apoiar num falso diagnóstico. A linguagem de Machado é do século XIX, mas coloquial. Apesar de alguns termos em desuso, a compreensão flui pelas palavras. O máximo que se poderia fazer é um glossário dos termos antiquados, mas várias gerações leram Machado sem sentir essa necessidade. Estaria o problema nos jovens atuais que querem tudo mastigado, sem disposição para qualquer trabalho mais duro?

Embora isso possa ter um grão de verdade, não dá para negar que existe uma barreira real na leitura das obras de Machado de Assis. Não é um escritor fácil. A dificuldade não está na linguagem, mas na sua visão de mundo que requer maturidade e experiência de vida para começar a ser entrevista.  E existe ainda o agravante de Machado usar a ironia como seu recurso de linguagem preferido. Uma pintura com as tintas da ironia não resulta clara nem nítida. A luz que a revela é oblíqua.

Com base na minha própria experiência, considero bastante difícil que jovens compreendam Machado de Assis. O que ele apresenta não é agradável, antes muito amargo. Os jovens não apreciam esse travo. Mas isso não implica que a leitura de Machado de Assis deva desaparecer nas escolas. Pelo contrário. Seja qual for a resposta de cada um a essa experiência de leitura, terá sido um passo importante na sua percepção de nossa cultura.

Nós brasileiros temos de aceitar que somos um país peculiar, diferente. Nosso maior escritor trilhou caminho acidentado e pedregoso, mas isso não é motivo para deixar de acompanhá-lo na sua busca.     

 

 

Rosaura Eichenberg

27.01.2021 – Mozart e Lewis Carroll

 

Um pensamento especial hoje para dois grandes gênios da humanidade.

 

WOLFGANG AMADEUS MOZART

 

LEWIS CARROLL 

Ilustração de Lewis Carroll

 

 

“Você não sabe do que está falando!” gritou Humpty-Dumpty.”Quantos dias tem um ano?

“Trezentos e sessenta e cinco”, disse Alice.

E quantos aniversários você faz?”

“Um.”

“E se tirar um de trezentos e sessenta e cinco, o que resta?”

“Trezentos e sessenta e quatro, claro.”

 “…e isso mostra que há trezentos e sessenta e quatro dias em que você pode ganhar presentes de não-aniversário…” 

“Certamente”, disse Alice.

“E apenas um para presentes de aniversário, sabe. “

 


 

 

Rosaura Eichenberg

17.01.2021 – Letter to my American friend

 

My dear American friend,

 

In the beginning of 2020, Dylan released his beautiful song on Kennedy’s demise, “Murder Most Foul”.  It sounded in my ears as a funeral song for America. Once again, he proved to be an artist of superior intellect, capable of discerning what happens while it is happening.

I spent a year in your country and warm feelings grew up in my heart toward America. I still remember Kennedy’s speech to us, exchange students, in the gardens of the White House. I felt his assassination as a terrible blow on America and the entire world.

Tonight, I am crying a river over America. No shining light in the near future.

The dark clouds are over your country now, but they will spread all over the world. I know that our thoughts go different ways, ideologies prevent a good understanding. But believe me, we will be fellow victims in the end.

An awful totalitarianism, worse that Hitler’s, Stalin’s and Mao’s, hovers over mankind – the “owners of power” want a global empire. During the last four years, America stood as a bulwark against this menacing tyranny. Your country faced the challenge of China. Now a pack of rats has rigged your election, destroyed the integrity of your Constitution and played havoc overall.

Oddly enough, the last awful episodes were transparent for me, because the rats used strategies that are common in South America. Donald Trump won the November election by a landslide, but they succeeded in tampering this result using machines and software designed for Chávez, the Venezuelan dictator, who insisted on not losing any election. They improved his methods with a fancy network that linked Frankfurt, Barcelona, Italy and had at its service the Italian satellite, Leonardo. The mainstream media and the Big Tech supported the vote-rigging by repeatedly claiming that Joe Biden had won the election and censoring any mention or comment on vote fraud.

It was a great disaster that many official agencies, including the FBI, the CIA and the NSA, did not want to investigate what had happened. This culminated with the Supreme Court dismissing a Texas lawsuit, because the judges considered that Texas had no standing to verify what had happened in other States. Donald Trump and his more than 75 million voters were left in the lurch.

The second great move in their strategy was the attack on the Capitol on Wednesday, the sixth of January. There was a turmoil, Trump supporters invaded the Capitol, and the result of this crowd unrest was tragically four fatal victims. Trump and his supporters were vilified, their freedom of speech suppressed, and the Congress certified the votes for Joe Biden. Little by little some witnesses, videos and photos began to unravel what had happened – the officers of the Capitol seemed to have eased the entry to the building, many Antifa and BLM people organized the invasion, the reckless and tangled up crowd did not know exactly what to do. And one had to face a cruel reality – Trump and his supporters had fallen into a trap. A trap created with the strategies of urban demonstrations quite common in South America.

So, my dear friend, we are now facing defeat in a great battle. The consequences will be terrible for your country, for my country, and for the free world.

Your country will fall apart in a few months. Your Constitution and its First Amendment will be thrown away in the trashcan. You will have to get accustomed to not being free anymore. You will have to comply to idiocy and repeat that Beethoven’s 5th Symphony oppresses the Negroes. The American Way of Life will disappear together with your culture, your art and the American dream. Quite likely the Statue of Liberty will drown in the Hudson river. Thomas Jefferson’s statue has already been toppled down; the strong foundations of your Founding Fathers will be eaten away by the rats.

My country will not have a better fate. We can already catch a glimpse of our future in Venezuela or Argentine. Quite soon we will be digging out rotten meat in order to have something to eat. The beasts of prey will fall upon my country with their claws ready to exploit our richness and enslave the people. Our Amazonian Forest will be torn apart – the lots of land will be sold worldwide, and the precious plants, lumber and ore will disappear in foreign filthy hands. The exploitation will be ferocious this time. So, the dream of “the country of the future” will come to an untimely end before it could even begin.

My friend, the book of the world, as we have known it so far, is getting to its final page. What can we do but cry? I am crying a river over America. I am crying a river over Brasil. I am crying a river over the free world.

Some years ago, you came to visit me in Rio de Janeiro. We were walking down a street, and seeing the Christ on Corcovado, you turned to me and said: “This will have to go. It insults other religions.” My reaction was overblown for reasons that were basically cultural. How dared a foreigner talk this way about one of our cultural icons? Now I understand that our innocent conversation went deeper than that.

The main target of the modern lords of war is Jesus Christ, it is God. The world is waging a spiritual war. They want to annihilate Jesus Christ, because He is the true foundation of the world that respects life, the individual soul, the individual freedom. They already know that there’s no use crucifying Him, but they try to destroy Him anyway. In the very least – that’s what they think — they will destroy many of those that live in His world.

We must learn how to pray, for in this awful wartime we should put despair aside and pray. There must have been many other such plights in the history of mankind, and good has prevailed. Let’s pray that once again good will overcome evil. Let’s pray.

Your dear Brazilian friend

Rosaura Eichenberg

16.01.2021 – Rosa em Mutação

 

“As though a rose should shut and be a bud again.”
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaJohn Keats   “The Eve of St. Agnes”

 

“Como se uma rosa se fechasse e voltasse a ser um botão.”

 

 

Rosaura Eichenberg

12.01.2021 – A statement by Mark Twain

 

“It doesn’t matter what the press says

It doesn’t matter what the politicians or the mobs say

It doesn’t matter if the whole country decides that

Something wrong is something right.

 

Republics are founded on one principle above all else

The requirement that we stand up for what we believe in

No matter the odds and consequences.

 

When the mob and the press and the whole world tell you to move

 Your job is to plant yourself like a tree

Beside the river of truth and tell the whole world:

                         ‘No, you move.’ “

 

Mark Twain

 

Não importa o que diz a imprensa

Não importa o que dizem os políticos ou a turba

Não importa se todo o país decidir que

Algo errado é algo correto.

 

As repúblicas são fundadas num único princípio acima de tudo

O requisito de defendermos aquilo em que acreditamos

Sejam quais forem os reveses ou as consequências.

 

Quando a turba, a imprensa e todo o mundo mandarem você se mover

O que deve fazer é plantar-se como uma árvore

Ao lado do rio da verdade e dizer ao mundo inteiro:

                        “Não, mova-se você.”

 

 

Rosaura Eichenberg

11.01.2021 – Robert Frost on Winter

 

The woods are lovely, dark and deep,

But I have promises to keep,

And miles to go before I sleep,

And miles to go before I sleep.

Robert Frost

 

As matas são belas, escuras e profundas,

Mas tenho promessas a cumprir,

E léguas a trilhar antes de dormir,

E léguas a trilhar antes de dormir.

 

 

Rosaura Eichenberg

08.01.2021 – Calendário do Livro das Horas do Duque de Berry

 

Na primeira metade do século XV, a Europa Ocidental estava no final da Guerra dos Cem Anos, uma série de conflitos entre a França e a Inglaterra para a conquista do poderoso reino da França. A guerra e a praga estavam por toda parte. Tumulto, dor no coração e desespero eram o esteio para muitos homens medievais.

Ninguém saiu ileso.

Durante esses tempos tumultuados, faz-se mister uma fé sólida e a busca de alguma forma de esperança para a sobrevivência cotidiana. Assim como o fluxo da noite e do dia, a única constante nesses tempos desafiadores é o próprio tempo. Por isso, um calendário nos ajuda a seguir adiante e esperar tanto uma regularidade como algo melhor – o futuro.

 

Na arte ocidental, um dos mais refinados calendários está no início do manuscrito de devoção do século XV –  ”As Horas Muito Ricas do Duque de Berry”.

 

Inverno     –     Dezembro

 

Primavera    –    Março

 

Verão   –    Junho

 

Outono  –    Setembro

 

 

Rosaura Eichenberg

04.01.2021 – Vírus Retóricos: Hate Speech, Teoria da Conspiração, Fake News

 

Em janeiro de 2015, um ataque terrorista islâmico matou 12 jornalistas do hebdomadário francês Charlie Hebdo, um periódico esquerdista com sátiras virulentas contra seus alvos preferidos – governos e ideologia de direita, com especial ênfase para a religião católica e o Papa. Em 2005, quando um cartum dinamarquês sobre Maomé atraiu a fúria islâmica contra seu autor, o Charlie Hebdo tinha se solidarizado com o cartunista e publicado o cartum. Por essa razão, os muçulmanos juraram matar os jornalistas franceses, ameaça cumprida em 2015.

O massacre abalou o mundo ocidental. Muitos chefes de estado participaram de marchas em Paris contra o terrorismo, e nas manifestações que se seguiram, os cartazes repetiam “Je suis Charlie”. Passadas algumas semanas, observei uma mudança nas discussões que lia entrecortadas nas agências de notícias. Em vez de refletirem sobre o terrorismo e as doze vidas ceifadas, a maioria parecia querer determinar os limites da crítica, se era realmente possível ofender alguém sem qualquer freio de moderação. E todos se perdiam nos detalhes dessa argumentação, esquecendo os doze jornalistas que tinham perdido a vida.

Lembrei as aulas de retórica e pensei – se alguém se descobre sem argumentos numa discussão, o truque mais fácil é mudar de assunto. Parece ter sido o que fizeram. Minha amiga americana ponderava que até o Papa tinha dito que não se podia ofender ninguém com tanta virulência. Tentando dirigir a discussão para a realidade, respondi que os cartunistas eram de esquerda, e o que já tinham publicado contra Jesus Cristo e a Virgem Maria era muito pior que seus cartuns sobre Maomé. E aí perguntei, qual foi o cristão que pegou um fuzil para matar os jornalistas que ofenderam Jesus Cristo e a Virgem Maria?

Essa reflexão já antiga me levou a examinar truques retóricos que vêm se repetindo para evitar qualquer debate sobre a realidade dos fatos. São formas de desviar a atenção da realidade e, para ser bem franca, constituem retórica para imbecis. O assustador é que esse discurso se infiltra na linguagem como um vírus, e os desavisados se deixam enredar nas teias armadas. Não se discute com imbecil – corta-se a linha da conversa e trata-se de encontrar novo fio da meada.

aaaaaaaaaaaaaaaaa________________________________________

 

Ao ver um vídeo com um trecho de um discurso de Hillary Clinton na campanha presidencial de 2016, senti um arrepio de pavor. Ela investia contra os que apoiavam o candidato Donald Trump, dizendo que eram racistas, sexistas, homofóbicos, nazistas, fascistas, a lista era interminável. Rotulou esses seres desprezíveis de deploráveis, afirmando que seria necessário colocá-los num cesto por serem irrecuperáveis. De olhos arregalados e o coração na mão, eu só troquei mentalmente “os apoiadores de Trump” pela palavra “judeus” e entendi quem estava falando. Seguindo a linha do genocida do III Reich, emprega-se hoje a retórica do ódio – Hate Speech.  Assim como Hitler desumanizou os judeus retirando-lhes o direito à própria vida, essa retórica demoniza qualquer adversário roubando-lhe o direito de se expressar dada a sua natureza demoníaca. De quebra, tal vírus retórico mascara o ódio sem freios de quem o emprega.

 

Em 2014, antes da eleição presidencial brasileira, o avião que transportava o candidato que tinha sido governador de Pernambuco caiu depois de decolar do aeroporto de Santos. Numa reunião de colegas do curso de alemão, comentávamos o acidente que abalou o país. Eu questionava o que poderia ter acontecido, achando escassas as explicações apresentadas. De repente, a colega ao meu lado me interrompeu ríspida afirmando que minhas dúvidas eram Teoria da Conspiração.  Atônita diante da dureza com que ela tinha falado, respondi que não tinha conhecimento de conspiração nenhuma, queria apenas saber por que a caixa preta do avião não estava funcionando na hora do acidente. Foi a primeira vez que me deparei com esse vírus retórico – alegar teoria da conspiração visa a acabar com qualquer discussão obrigando os desavisados a apresentar provas do que eles nem sabem o que é, enquanto seus oponentes escamoteiam a culpa em cartório. Por sinal, o acidente nunca foi explicado por causa da falha da caixa preta.

 

Não tenho certeza, mas acho que foi em 2016, antes da eleição americana, que comecei a encontrar na internet a expressão Fake News. Faço uma ligação entre o emprego desse vírus retórico e um escândalo que então estourou – era um caso de tráfico sexual de crianças, que ficou conhecido como Pizzagate por ter como centro de operações uma pizzaria. Um escândalo ligado a pessoas da campanha de Hillary Clinton. Pode ser que me engane, pois não navego na internet com destreza e grande frequência, mas de uma coisa tenho certeza: o efeito dessa expressão Fake News é altamente prejudicial. Esse vírus retórico consegue minar a credibilidade de qualquer news. Com isso, o jornalismo tem seus dias contados, e o único resultado possível é a instituição do Ministério da Verdade do romance de George Orwell.

aaaaaaaaaaaaaaaa_________________________________________

 

A melhor maneira de lutar contra um vírus é impedir que se introduza no organismo sadio. Esses três vírus retóricos mencionados já se tornaram lugar-comum nas discussões atuais, por isso cabe procurar o remédio adequado para neutralizá-los. Até agora o que parece mais eficaz é não se deixar enredar por eles, conduzir a discussão para fora do alcance de suas garras. E vigiar para que aqueles que os empregam saibam que não estão lidando com idiotas.  

 

 

Rosaura Eichenberg

Copyright 2012 © Todos os direitos reservados à Íbis Literatura & Arte