de revoada

13.10.2106 – Bob Dylan

 

        The Nobel Prize in Literature 2016 is awarded to BOB DYLAN

 

The news sounded like chimes of heaven in my ears. I was never too impressed by awards, much less by literary prizes. Even so I could not help smiling and smiling and smiling that the 2016 Nobel Prize in Literature was awarded to BOB DYLAN  A great poet that partakes of the lineage of Shakespeare and Keats was honoured today, and I am glad. Thank you, Mr. Dylan, for being so good in making sentences that go right into our hearts.

 

Rosaura Eichenberg

19.04.2016 – Entre Aspas 2 de Fernando Eichenberg

 Entre Aspas 2

Quando bem feita, uma entrevista pode nos transmitir um acervo de informações colhidas pelo estudo e pela experiência do entrevistado na sua área de atuação. Além disso, é uma conversa, e assim não deixa de revelar esse entrevistado como alguém de visões, paixões e emoções mutáveis, tão sujeito ao imponderável quanto todos somos.

Fernando Eichenberg  realiza entrevistas há muito tempo,  e uma primeira coletânea de seu trabalho foi publicada em Entre Aspas  pela Editora Globo em 2006. Vivendo em Paris desde os anos 90, a gama de seus entrevistados impressiona pelo peso e variedade dos assuntos culturais abordados. E o resultado das entrevistas, pela seriedade e conhecimento fundamentado em muita leitura com que ele conduz o fluxo de perguntas e respostas. Mas o que mais fascina no trabalho de Fernando Eichenberg é sua capacidade de se debruçar sobre seus interlocutores, de transmitir lampejos de frases e expressões que deixam à mostra um pouco da aventura de viver e pensar que cabe a cada ser humano.

Com esta nova coletânea, o Entre Aspas 2,  os leitores terão outra oportunidade de conhecer esse trabalho realizado com muita competência e sensibilidade.

Em 2001, Fernando Eichenberg publicou, junto com David Coimbra, o livro Viagem (Editora Artes e Ofícios), crônicas de viagem. Um futuro trabalho contemplará textos sobre a Paris que ele aprendeu a conhecer e amar. Algo a ser aguardado por quem gosta de ler bons livros.

 

Rosaura Eichenberg

05.03.2016 – Depois de ler “Costumes em Comum” de E. P. Thompson

 

Há muito tempo, depois de realizar a tradução de Costumes em Comum, obra do historiador  inglês E. P. Thompson sobre os costumes populares na Inglaterra rural do século XVIII, escrevi a seguinte nota sobre o ofício de historiador.

Não há possibilidade de ser absolutamente imparcial no relato da história. Todos, sobretudo os que se julgam objetivos, têm algum grau de miopia, e há os que são definitivamente vesgos. O importante é conhecer o seu grau de desvio para poder usá-lo como ferramenta de controle. Munido desse constante ajuste de lente, importa que o historiador cultive o maior respeito pelo que aconteceu e acontece ao redor de si e de seus centros de informação. Se além de honesto e diligente, o historiador for também brilhante, será então um prazer seguir os movimentos de sua mente iluminando o maior número possível das várias, diversas e, muitas vezes, contraditórias facetas do que observa.

Rosaura Eichenberg

26.02.2016 – Cadeira de balanço

 

Foto tirada por Paulo Eichenberg

Foto tirada por Paulo Eichenberg

 

O passarinho embala a ausente presença que retoma seu assento no coração da gente.

 

Rosaura Eichenberg

18.02.2016 – Guilhermino César sobre ‘O Livro do Desassossego’

 

Remexendo papéis antigos, encontrei uma carta do professor Guilhermino César, escritor e estudioso de literatura, com quem tive a oportunidade de ler literatura brasileira durante meus estudos de letras na UFRGS nas décadas de  1960/70. Foi um professor que muito me marcou por manifestar em alto grau uma qualidade de que os outros professores de literatura pareciam estranhamente desprovidos: ele era apaixonado por literatura. A carta que encontrei é de 17 de dezembro de 1983, e naquela época aparecera o Livro do Desassossego de Bernardo Soares, outro heterônimo de Fernando Pessoa. Vale a pena registrar o comentário de Guilhermino César:

“Nunca depositei esperança na “existência” do Bernardo Soares. No entanto, que força tem o “homem”! Tenho-o ao alcance da mão. São páginas de grande poder sugestivo. Em prosa, creio que F. P. não escreveu nada melhor.
“O livro chegou-me na hora, quando eu dava minhas últimas aulas, na Pós-Graduação, sobre os heterônimos menores. Ora, o Bernardo Soares é um dos maiores. Isso me desequilibrou e tive de compor outro roteiro. Ainda perturbado, lembro-me de ter escrito algo, no Correio, sobre o desassossegado sujeito.”

 

Rosaura Eichenberg

08.02.2016 – Kafka e o malabarismo

 

Olhar de Kafka aos 40 anos

Foi apenas nos anos 1980 que as obras de Franz Kafka receberam boas traduções no Brasil. Antes o português de seus livros levantava muitas barreiras a cada página e desencorajava o leitor mais destemido. Por isso, quando tomei conhecimento de várias obras de Kafka nos anos 1970, li os textos em sua versão inglesa. Mas o impacto que essa leitura me causou não foi pequeno, e logo me vi diante de um dilema. A leitura em inglês não me satisfazia, queria ler os textos do tcheco na minha língua materna ou então, se isso fosse impossível, na língua em que ele escreveu. Tenho ascendência alemã – meu bisavô era alemão – mas não aprendi a língua em casa, apesar de meus pais e meus avós falarem alemão entre si. Muito provavelmente porque a minha infância se passou depois da segunda grande guerra. Na adolescência, fiz algumas tentativas de aprender o idioma, mas as dificuldades sempre superaram o meu empenho bastante fraco. No início dos anos 1980, porém, esse empenho recebeu o empuxo de meu desejo de chegar mais perto do que dizia Franz Kafka em seus livros. E esse empuxo foi suficiente para me guiar pelo labirinto de declinações e verbos no final das frases, um longo percurso que durou uma dúzia de anos. O meu conhecimento da língua alemã ainda deixa muito a desejar, mas consigo ler textos em alemão, e com isso pude me aproximar de Franz Kafka.

O que me impressionou em Kafka foi sobretudo a força concentrada em cada uma de suas frases, as palavras rolando pesadas, funcionando como ímãs. Para falar a verdade, nunca tinha lido ninguém que conseguisse escrever assim. Na prosa de ficção, sempre encontrei o talento dos escritores armando as páginas iniciais para criar o clima da narrativa e envolver o leitor no que aconteceria. Mesmo nas narrativas modernas, que em geral colocam o leitor de imediato no centro da ação, esse trabalho preliminar se faz mister. Kafka é capaz de criar esse clima em uma única página, em um único parágrafo, até em uma única frase ou palavra. Ao ler seu diário, em que muitas vezes esboça fragmentos de narrativa, isso se torna particularmente claro. Não há palavras leves, todas pesam como chumbo. Seu poder de escrita ainda se tornou mais misterioso para mim, quando pude constatar que a linguagem utilizada é simples, sem floreios, sem inovações. Como li em vários estudos sobre Kafka, sua linguagem é quase burocrática. Como compreender sua capacidade de incorporar tamanha força?

No início do diário de Kafka, correspondente ao ano de 1910, encontrei uma reflexão sobre o ato de escrever que se mostra rica em caminhos de interpretação.

 

Página do diário – 1910diario malabristas 3

Finalmente, depois de cinco meses da minha vida em que não consegui escrever nada que me satisfizesse, e pelos quais nenhum poder vai me compensar, embora todos tivessem a obrigação de fazê-lo, ocorre-me falar de novo a mim mesmo. A isso sempre respondi, quando realmente me perguntava, que havia ainda algo a irromper de mim, deste monte de palha que sou há cinco meses e que parece destinado a pegar fogo no verão e ser consumido mais depressa que um piscar de olhos dos espectadores. Se isso ao menos acontecesse comigo! E dezenas de vezes deveria acontecer, pois nem sequer me arrependo do tempo infeliz. Minha situação não é infelicidade, tampouco é felicidade, não é indiferença, nem fraqueza, nem cansaço, nem outro interesse, o que é então? Que eu não saiba o que é, depende talvez da minha incapacidade de escrever. E essa acredito compreender, sem conhecer sua razão. Todas as coisas, isto é, todas as que me acontecem, não me ocorrem a partir da raiz, mas só a partir de algum ponto ali pelo meio. Que alguém tente segurá-las, que alguém tente pegar uma gramínea e agarrar-se firme a uma folha de grama, quando ela só começa a crescer pelo meio do talo. Isso conseguem talvez alguns, como, por exemplo, os malabaristas japoneses, que sobem numa escada de mão que não está assentada sobre a terra, mas sobre as solas levantadas de outro malabarista meio deitado no chão, e que não está encostada contra a parede, mas elevando-se tão somente no ar. Eu não consigo fazer essa proeza, independentemente de aquelas solas não estarem à disposição de minha escada. Claro que isso não é tudo, e não é uma pergunta dessas que me leva a falar. Mas todo dia uma linha ao menos deve ser apontada para mim, assim como apontamos o telescópio para os cometas. E se eu então aparecesse diante daquela frase, seduzido por aquela frase, assim como, por exemplo, aconteceu no último Natal, quando fui tão longe que mal conseguia me controlar, e quando na realidade eu parecia estar no último degrau da minha escada, a qual, entretanto, se mantinha tranquila sobre o chão e contra uma parede. Mas que chão, e que parede! Ainda assim aquela escada não caía, de tanto que meus pés a pressionavam sobre o chão, de tanto que meus pés a levantavam contra a parede. (Tradução minha.)

 

Ao falar da escrita de que espera ser capaz, ele usa uma forma impessoal para dizer que algo ainda poderia irromper de si. O verbo que emprega ‘herausschlagen’ é muito usado em outros contextos com a palavra ‘Flammen’, para descrever as labaredas de um incêndio saindo pelas aberturas e espalhando-se no ar. Suas dúvidas a respeito desse potencial chegam a prever um fogo que consumiria por inteiro o monte de palha de que se considera feito. Pouco adiante emprega uma imagem para o ato de escrever que espanta pela inversão inusitada da ação. Compara a criação de uma frase ao ato de apontar um telescópio para os cometas. Mas não é ele quem aponta para a frase-cometa, a linha é que vem a ser apontada na sua direção, ela é que poderá descobri-lo, a ele que ocupa o lugar do cometa. A frase vai revelá-lo. É o reconhecimento de uma existência autônoma das frases, portadoras talvez da força concentrada que tanto me impressionou.

desenho-malabaristas (Small)Brandir ou manejar essas frases que vêm ao seu encontro não é tarefa trivial. A dificuldade advém de não se conhecer a situação por inteiro. Diz ele que tudo o que lhe acontece não ocorre a partir da raiz, mas surge de algum lugar pelo meio. É preciso agarrar-se a uma folha de grama que cresce pelo meio do talo, e assim surge a imagem dos malabaristas japoneses que sobem uma escada que não está assentada no chão, nem escorada contra a parede. As frases a serem escritas irrompem de seu interior, vêm procurá-lo como a um cometa, e por ele desconhecer onde estão arraigadas, é preciso realizar o malabarismo de elevá-las no ar sem qualquer apoio. Não é surpreendente que o ato de escrever seja compreendido desse modo por Franz Kafka, quando as frases de seus livros nos causam tanto espanto pela força que revelam. A linguagem pode ser normal, quase burocrática, mas a maneira como é empregada desafia os limites da mente humana.

Essa imagem dos malabaristas me levou a pensar na leitura de uma das obras-primas de Kafka, A Metamorfose. A narrativa é uma proeza de malabarismo. Ele descreve uma situação que alguém poderia supor fantástica. Gregor Samsa acorda certa manhã para se descobrir metamorfoseado num enorme inseto. Mas a narrativa não tomba no fantástico, não abandona a realidade de Gregor Samsa. Tampouco tomba num realismo que explica o fantástico como sonho, fantasia, metáfora empregada para revelar o significado do que é real. A narrativa avança no fio da navalha conduzindo o leitor a um outro mundo, real e fantástico ao mesmo tempo, a um mundo que não comporta explicação. E o malabarista não faz nenhum movimento em falso, mantém até o fim seu estranho equilíbrio. Por isso minha reação aos livros de Kafka, nunca tinha lido ninguém que conseguisse escrever assim.

Rosaura Eichenberg

14.10.2015 – O ideograma wu 武

 

O ideograma significa marcial e está presente em 武術 – wu shu, isto é, arte marcial, e em 武 士 – wu shi, isto é, guerreiro. Encontramos a seguinte explicação para o ideograma :

武 : “止” “戈” 為 武.
wu : “zhi” “ge” wéi wu.
marcial : o ideograma () “parar” e o ideograma () “lança” estão no ideograma () “marcial”.

Assim o sentido básico da arte marcial é deter a lança, controlar a violência. Não é atacar, a arma cumpre seu objetivo último quando deixa de existir, quando se torna desnecessária. O texto continua:

武 力 不 能 服 人, 唯 有 德 能 服 眾.
wu li bù néng fú rén, wéi you dé néng fú zhòng.

A arte marcial não pode conquistar os homens pela força física (), somente junto com a força moral () é que ela conquista as multidões.

Essa necessidade da força moral na essência das artes marciais chinesas me levou a pensar na violência de nossos tempos e principalmente num livro de Dashiell Hammett, O falcão maltês, que li há muitos anos e teve um considerável impacto sobre mim. John Huston realizou um filme muito bonito com essa história, que no Brasil recebeu o título de Relíquia Macabra. Nessa versão cinematográfica, quem faz o papel do detetive Sam Spade é Humphrey Bogart.

O cenário de O falcão maltês é uma San Francisco dominada por negócios escusos e pelas ações cruéis de bandos corruptos. É contra esse pano de fundo que o detetive Sam Spade ganha a vida com seu escritório de investigações. Ele não pertence à linhagem dos detetives de raciocínio ironicamente exato como Sherlock Holmes, mas é aos socos, em lutas corpo a corpo, usando expedientes por vezes não convencionais, que se move no emaranhado de interesses e traições. Assim garante seu ganha-pão e, em primeiro lugar, sua integridade física.

Ele não trabalha sozinho, tem um sócio em seu escritório. Não é alguém que seja particularmente seu amigo, ele até teve um caso amoroso com a esposa do sócio, uma mulher de quem procura em vão se desvencilhar. O enredo gira em torno de um falcão maltês, uma estatueta supostamente preciosa, e são muitos os encontros e desencontros, investidas, ameaças, lutas entre aqueles que cobiçam o pássaro. Sam Spade entra na trama macabra ao ser contratado pela integrante de um dos grupos que procuram se apossar da estatueta. Entretanto, quem dá o primeiro passo na investigação não é Sam Spade, mas seu sócio que acaba assassinado ao comparecer ao encontro marcado.

As peripécias seguem vias tortuosas, mas aqui faço questão de acentuar um caminho sem curvas percorrido por Sam Spade. Os desmandos do ambiente corrompido tinham chegado perto dele, o homem assassinado no início da história era seu sócio. Não que fossem grandes amigos, mas trabalhavam juntos. Por isso, em meio aos golpes desferidos pelas ambições em jogo, ele não recua até descobrir quem matou seu sócio e entregar o assassino à polícia. Compreendi que o detetive durão não se mantinha íntegro apenas pela força de seus socos e suas armas, mas sobretudo pela força moral de não se deixar contaminar pelo mal.

Nos guerreiros chineses, a força física pouco pode contra o inimigo, precisa do concurso da força moral para derrotá-lo. Sam Spade precisa da força moral para manter sua integridade de indivíduo. Aos meus olhos eles se irmanam na batalha.

Rosaura Eichenberg

4.04.2015 – O enigma brasileiro

Num seminário de literatura sobre a obra de Machado de Assis, realizado há mais de três décadas, tive uma experiência surrealista. Quase sem querer, eu me referi a Machado de Assis como escritor brasileiro, o que desencadeou uma saraivada de golpes desferidos por meus colegas. Como eu poderia dizer asneira tamanha? Só quem não era capaz de leitura crítica podia falar tal coisa. Sem conseguir acreditar no que escutava, fiquei sabendo que Machado de Assis foi um escritor universal, que de brasileiro não tinha nada. Confesso que não consegui acompanhar a discussão cerrada que se seguiu por causa de minha total perplexidade, mas ainda me lembro de um argumento – Machado de Assis não era brasileiro porque escrevia bem, brasileiro era Jorge Amado que escrevia mal. Sempre que penso nesse acontecimento do passado, lembro que Machado de Assis escreveu um texto fundamental a respeito da, vamos dizer, brasilidade. “Instinto de Nacionalidade” é um ensaio sobre a literatura brasileira, principalmente a realizada pelos românticos, em que ele propõe que os escritores abandonem o fascínio pelos aspectos exteriores de nossa paisagem, flora e fauna, inclusive a humana, e procurem cuidar do sentimento interior que caracteriza os brasileiros. Resumindo de modo grosseiro, ninguém precisa se fantasiar para ser brasileiro. E lembro também que Machado não só formulou o enigma brasileiro de maneira brilhante – seu ensaio ainda continua sem resposta depois de tantos anos – como também realizou o que propunha na sua obra. Pois não criou por acaso uma das mais impressionantes personagens femininas da literatura ocidental, que não pode ser senão brasileira?

Rosaura Eichenberg

23.08.2014 – De sabiás e bandas

A morte de uma das integrantes do Quarteto em Cy, Cybele, me transportou ao passado, e vi num dos jornais online o vídeo em que ela e a irmã Cynara cantam “Sabiá”, de Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque,  no Festival Internacional da Canção em 1968. A canção venceu o festival, e seu prêmio foi aplaudido debaixo de muitas vaias. À época eu estava distraída lidando com os confrontos e sofrimentos de ser jovem, por isso ouvi falar do que tinha acontecido, mas não registrei que a canção derrotada, que o público queria vencedora (razão das vaias), era de Geraldo Vandré, aquela que dizia “Quem sabe faz a hora…”, tantas vezes entoada nas passeatas em todo o Brasil contra a ditadura militar.

Nos anos 60, os festivais eram acontecimentos estrondosos, com torcidas e paixões de jogos de futebol. E lembrei que noutro festival famoso, em 1966, a música de Chico Buarque, “A Banda”, cantada por Nara Leão, dividiu o prêmio com uma canção de Geraldo Vandré chamada “Disparada”, se não me engano. Nesse festival não houve vaias, só muita animação, dança e aplausos. Entre a juventude, mais tarde, é que circulou a polêmica sobre o acerto ou não do empate, sobre qual das músicas seria a melhor. Hoje, relembrando esses eventos, achei curioso que por duas vezes Chico Buarque e Geraldo Vandré tenham se enfrentado na febre dos festivais.

Nunca deixei de gostar de “A Banda”. Anos mais tarde, falando com uma professora de música, ela me chamou atenção para uma característica musical do Brasil – em todo canto deste país, principalmente nas cidadezinhas do interior, há sempre uma praça com um coreto ou plataforma, e ali, todo fim de semana, toca a banda. Chico Buarque foi buscar água nessa bica, e aproveitou a tradição com bastante esperteza, porque (se o meu parco conhecimento de música não me engana) fez sua canção imitar o som de uma banda, o mesmo ritmo ingênuo e simples. O resultado é que, com vinte e poucos anos, pôs o país inteiro a dançar – não é pouca coisa.

O sabiá canta muito bonito. Numa aula de língua alemã nos anos 90, o professor levou uma gravação do canto do rouxinol, para que conhecêssemos a beleza que os poetas alemães exaltam em seus escritos. Problema de gravação ou meu ouvido nada apurado, não sei, mas não pude deixar de considerar o rouxinol um cantor bem mixuruca perto do sabiá que eu conhecia na natureza.

John Keats evocou o canto do rouxinol em versos de pura música:

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaThat thou, light-winged Dryad of the trees
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaIn some melodious plot
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaOf beechen green, and shadows numberless,
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaSingest of summer in full-throated ease.

Tom Jobim escreveu uma música delicada e melodiosa como o canto de sabiá que eu tinha escutado, e Chico Buarque travou um diálogo com o sabiá que canta na minha terra de palmeiras que já não há, uma conversa melancólica condizente com o tom sombrio da época. A voz doce das duas cantoras em Cy completava o clima intimista da canção, suave e graciosa, talvez pouco apropriada para os entusiasmos nada harmônicos das torcidas dos festivais.

As duas canções de Geraldo Vandré eram, essas sim, bem próprias de festival, adequadas para os conflitos sociais, mas aos meus ouvidos de hoje soam pobres e tremendamente chatas. A ditadura militar foi uma desgraça que nos aconteceu impregnando de feiura as terras brasileiras. E esse breu que nos cobriu não poupou nem mesmo muitos daqueles que se insurgiam contra o arbítrio. A música de Vandré traz em seu bojo um Brasil feio. Por isso, quando vi o vídeo do Festival Internacional da Canção, senti que Tom Jobim e Chico Buarque, em pé atrás das moças que entoavam o canto do sabiá, pareciam desajeitados, sem saber muito bem o que estavam fazendo ali, como se estivessem cumprindo missão ingrata, mas imperiosa. A beleza da música abafada e amarfanhada pelo ruído do público, sorrisos entre irônicos e acanhados, mas um brilho tênue resistindo na paisagem brasileira. Senti vontade de atravessar os anos para estar lá, batendo palmas para o sabiá, Gonçalves Dias, Tom Jobim e Chico Buarque, protagonistas da resistência.

Rosaura Eichenberg

22.07.2014 – A Dança das Palavras

 

dylan 1963

Nos meus anos mais jovens (para lembrar um poema de Hölderlin), vi nascer dentro de mim uma paixão pelos versos do poeta, compositor e artista americano Bob Dylan. Paixão que ao longo do tempo só fez crescer, tornando-se cada vez mais intensa. A voz de Dylan é um pouco anasalada e sua dicção é única, isto é, não é fácil compreender o que canta, pois as palavras soam estranhas, principalmente para quem não fala inglês como língua materna.  Em tempos remotos, eu escutava com frequência uma de suas canções de amor chamada “It’s All Over Now, Baby Blue”. Uma canção muito bela sobre um amor que se desfaz. No meio dos versos pungentes mesmo quando irônicos,  eu escutava o amante dizer, entre palavras duras sobre ter de ir embora e tomar outro caminho:

“Take what you have gathered from cau-in-so-dance”

Era exatamente assim que as palavras soavam nos meus ouvidos, e eu não conseguia compreender que dança era essa. Eram tempos sem os recursos da internet, e eu não tinha agilidade suficiente para saber onde esclarecer a minha dúvida. Experimentei os nomes de várias danças que conhecia, e o termo mais próximo que encontrei foi calipso, mas sabia que não era isso porque não conseguia escutar nenhum “L” na voz de Dylan. Só bem mais tarde encontrei por acaso a letra da canção e li o seguinte verso:

“Take what you have gathered from coincidence”

E não pude deixar de sorrir para Bob Dylan. Tem razão, Mr. Dylan, eu me rendo. A coincidência é uma dança.

Rosaura Eichenberg

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