de revoada

18.12.2013

rastrosdeodioMesmo sem conhecimento cinematográfico aprofundado, tive há algum tempo a oportunidade de ver dois filmes de faroeste e fazer uma pequena reflexão sobre a expressão artística. O primeiro foi um filme de John Ford de 1956, The Searchers (o título em português Rastros de Ódio é desta vez bem melhor que o original), uma reflexão sobre o ódio entre brancos e índios, sobre a possibilidade de um apaziguamento dos conflitos. O segundo tinha o título Era Uma Vez no Oeste, uma produção ítalo-americana de 1969 com direção de Sergio Leone, uma reflexão sobre o gênero do faroeste com alusões a cenas clássicas desse tipo de filmes. Por exemplo, a cena do massacre da família no início lembra certamente o ataque dos índios no começo de Rastros de Ódio, quando uma família inteira é aniquilada. A estrutura narrativa de pensar fatos e situações já narrados e refletidos por outros é certamente mais densa e pesada, de apreensão mais difícil. Mas o que me chamou a atenção foi o seguinte: no filme de John Ford, o espectador é envolvido na  trama da história, nos sentimentos dos seres humanos que visualiza na tela, nos seus receios, aspirações, terrores. É como se o espectador tivesse uma lira interior, e as imagens do filme fossem eraumavezoestededilhando uma a uma cordas que fazem vibrar todo o seu corpo. No filme do diretor italiano, o ódio deixa de ser aquilo que nem se explica entre os brancos e os índios, é agora algo racional, conflito de interesses materiais, parte de uma equação de solução relativamente fácil. E de certa maneira as cores estão carregadas demais, o batom borra a expressão dos lábios, o vilão rola na lama, tudo em tom por demais patético. Os espectadores são convidados a admirar as acrobacias do diretor e dos atores, alguns com desempenho notável, mas a lira interior de quem vê o filme se mantém muda, afogada pelos sons das fanfarras, e lá de dentro sentimos apenas um longo bocejo que teima em não terminar.

Rosaura Eichenberg

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