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8.06.2014 – Pássaro Azul

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 Fotos de Ana Caillaux

Mesmo sem câmeras especiais e a aparelhagem dos fotógrafos especializados em captar as imagens dos pássaros, o azul deste passarinho se espraiou diante de todos os olhos e coloriu o Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Ana Caillaux

8.06.2014 – Reflexões provocadas por Rubem Braga

rubembragaNo Galpão das Artes do Teatro Tom Jobim no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, realiza-se até 15 de junho próximo uma exposição sobre Rubem Braga – o Fazendeiro do Ar. Um prazer sempre renovado ler seus textos. A exposição fala de sua infância, de seu ofício de escritor, editor e repórter, de sua cobertura-jardim em Ipanema, de seu tempo como correspondente de guerra (Segunda Guerra Mundial). Embaixo das fotos da infância, chamam atenção várias pedras, silenciosas, apenas com lembranças de águas e ventos. Na sala dedicada ao escritor, poeta e editor, várias máquinas de escrever, dessas que já não se usam, e na sala do repórter e correspondente de guerra, uma fileira de telefones, aparelhos toscos se comparados às engenhocas de nossa época. Na parede, um texto escrito em 1945, sobre capelinhas arrebentadas e um Cristo morto, decapitado e com um dos braços pendente. A beleza do texto como testemunho de um escritor diante de realidades brutas como a da guerra, enfrentando a necessidade extemporânea de produzir escritos para o jornal já marcado com o moto contínuo da edição diária. Isso me lembrou um de meus sobrinhos, que é jornalista e correspondente de um jornal brasileiro no exterior. Apesar de apaixonado pela profissão, confessando sentir a adrenalina da notícia inesperada e urgente, ele é antes de tudo um escritor. E Rubem Braga repórter e correspondente de guerra fez ecoar nos meus ouvidos as reclamações frequentes de meu sobrinho – o ritmo frenético das informações, os textos das agências de notícias, imagens, vídeos, tudo amontoado nas mentes de quem edita os jornais e de quem os lê. Custei a entender essas queixas, mas via claro que ele queria poder escrever com mais reflexão, descrevendo com sensibilidade o que lhe era dado noticiar. Por exemplo, o modo como as notícias batiam nas pessoas que as estavam vivendo. E de repente me ocorreu um vislumbre do que afeta as letras – a leitura e a escrita – neste mundo de e-books, kindles, blogs, emails, internet, iphones, ipads. Embora faça parte da mudança, o provável desaparecimento do livro feito de papel e tinta não é o elemento de maior impacto. A mutação que está abalando as letras de todas as línguas é uma nova vivência do tempo. Antes da grande revolução que a tecnologia causou em nossa vida, a maneira de se comunicar com familiares e amigos que se encontravam em locais distantes era escrever uma carta. Escrevia-se uma mensagem, enviava-se a missiva pelo correio na esperança de que chegasse ao destinatário, o que nem sempre acontecia (o poeta Mario Quintana dizia que as cartas perdidas iam para Saturno), esperava-se por uma resposta que muitas vezes tardava, porque o correio era demorado ou porque o amigo não podia ou não queria responder logo. Hoje em dia, diante de um PC, notebook, laptop, ipad ou iphone, ficamos nervosos e irritados se a resposta da máquina não nos chega em questão de segundos. Os que leem textos na internet reclamam muito, se esses artigos são longos – tudo deve ser condensado, abreviado, de rápida assimilação, adequado à dinâmica dos novos tempos. As mensagens no chamado twitter não devem ultrapassar 140 caracteres, e muitos dos usuários da internet utilizam em suas mensagens enviadas por e-mail uma linguagem cifrada própria, para que não se perca tempo nenhum. Afinal, é demorado escrever “você” que, por essa razão, virou “vc”. Com a inevitável consequência de que escrever e ler mensagens tende a se tornar rápido demais, superficial, impensado. Pode-se afirmar que ainda se escrevem e leem livros, as mudanças sempre passam por etapas de transição de características específicas e pontuais, mas é inegável o impacto que essa nova relação com o tempo está causando no ato de ler e escrever. São atividades reflexivas que hoje tendem a ser realizadas de modo distraído e desconcentrado, ou melhor, sem pensamento. E com isso volto às reclamações de meu sobrinho jornalista, aos textos únicos do Rubem Braga repórter e correspondente de guerra, e penso nas pedras que vi na exposição do Jardim Botânico. Ao criarem seus jardins, os chineses escolhem algumas pedras que colocam dentro de um rio, onde permanecem submersas por um longo, longo tempo. Só depois de as águas terem escrito suas mensagens nas pedras é que eles as retiram do rio para ornar o jardim planejado. Como as pedras, ler e escrever devem encontrar um modo de resistir à avalanche do tempo que nem mais se escuta.

Rosaura Eichenberg

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