de revoada

14.05.2019 – Uma frase de Oscar Wilde

 

Muitas vezes lemos citações no meio de ensaios e até reportagens que nos detêm na correria do cotidiano e nos fazem refletir. O cérebro como que se volta para o interior e imprime novo ritmo à nossa busca de compreensão. A frase que hoje veio conversar comigo é do grande escritor Oscar Wilde, nascido na Irlanda como sói acontecer na literatura inglesa.

“We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars.”

Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando para as estrelas.”

 

A citação é da comédia de costumes Lady Windermere’s Fan de 1892.

 

Rosaura Eichenberg

06.04.2019 – Sobre “Instinto de Nacionalidade” de Machado de Assis

 

 

Em 1873, um jovem Machado de Assis de 34 anos escreveu um ensaio crítico sobre a literatura brasileira então nos seus primórdios. Deu ao seu estudo o nome de “Instinto de Nacionalidade”, que definiu como “o geral desejo de criar uma literatura mais independente”.

E advertia: “Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.”

Na literatura de seu tempo, já vislumbrava uma tendência a essa desejada independência na escolha de temas próprios da terra, o que ele chama cor local. Analisava com muita propriedade o tema do índio que era então explorado nas obras de Gonçalves Dias, José de Alencar e outros. Afirmava:

“É certo que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isto basta para não ir buscar entre as tribos vencidas os títulos de nossa personalidade literária.”

Mas ponderava que essa constatação não exclui os índios das páginas literárias, por serem um tema capaz de inspirar os escritores. E continuava lembrando que a paisagem exuberante das terras brasileiras não só estimula como desafia o estro de nossos poetas e prosadores.

Alertava, entretanto, que essa primeira fase de explorar a cor local devia ser ultrapassada, e propunha a questão da brasilidade em termos que ainda não foram superados nem mesmo neste nosso século XXI. Dizia:

“O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

E explicitava o que estava querendo dizer:

“Um notável crítico da França, analisando há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre de tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial.”

Machado de Assis vai fundo no que constitui a cultura de um grupo humano. Ele sabe que os aspectos exteriores são apenas faceta vistosa, muitas vezes incapazes de revelar a trama sutil das vivências que urdem o tecido do convívio humano.  Por isso diz que a personalidade literária brasileira não será encontrada na beleza variegada de nossas paisagens, no caudaloso Amazonas nem nos córregos que enfeitam as várzeas, nem tampouco nos costumes pitorescos de cada região.

Apesar de os brasileiros terem uma forte inclinação para a anarquia do carnaval, a brasilidade não precisa vestir fantasias para se realizar. Deve ser antes buscada no sentimento interior dos que habitam esta terra. Como diz Machado de Assis:

“… e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e o Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês.”

Isto é, os brasileiros podemos nos fantasiar de dançarinos de tarantela, messalinas, super-heróis, arlequins e pierrôs que a brasilidade íntima acabará se revelando entre os panos e véus.

Já se passou mais de século desde a publicação do ensaio machadiano, e muitas obras de nossa literatura percorreram o caminho da busca de nossa brasilidade intrínseca, inclusive a própria obra de Machado de Assis. Duas realizações sobressaem nessa procura, dois grandes escritores que se debruçaram sobre o sertão brasileiro, Euclides da Cunha e João Guimarães Rosa.

“Os Sertões” relata a luta que se desenrolou em Canudos, região norte da Bahia, no final do século XIX, entre as forças governamentais e os rebeldes aglomerados em torno de Antonio Conselheiro.  O livro se divide em três partes: a terra, o homem e a luta. Na primeira, Euclides da Cunha está longe de criar apenas a cor local com a descrição da catinga nordestina. A sua apresentação geográfica é dramática, a natureza revelando o embate das grandes forças em ação na região. Ao falar do homem na segunda parte, Euclides recorre às teorias correntes no seu tempo para tentar caracterizar os seres humanos que habitam o nordeste brasileiro. Emula o cientista que se debruça sobre seu objeto de estudo com lupas especiais, sem se preocupar em verificar a precisão das lentes. E ao descrever a luta em Canudos na terceira parte, Euclides parte ao encontro de uma realidade que até então desconhecia. A tarefa que se propusera realizar era reportar o conflito que se desenrolava na região, mas o repórter se viu às voltas com a descrição de um país que era o seu, mas que lhe era estranho. Euclides da Cunha vinha tornar visível o hiato entre os brasileiros e eles próprios, focalizando a distância concreta entre o Brasil litorâneo e o Brasil dos sertões. Mais uma descoberta do Brasil, numa lista que não parece ter fim.

João Guimarães Rosa é outro desbravador da realidade brasileira. Em sua obra, vamos encontrar de novo as lacunas concretas de nossa cultura fragmentada, e a busca de conhecer um Brasil envolto num sertão que adquire contornos míticos. Ele vivencia esse confronto com o país desconhecido no âmbito da linguagem. No seu livro de estreia, Sagarana, ainda coloca entre aspas as expressões e frases idiomáticas com que entrava em contato na paisagem mineira. Mas nos livros seguintes, a linguagem já se metamorfoseia para tentar revelar a fusão de idiomas diversos, uma multiplicidade barroca abrindo-se em tudo quanto é direção. A leitura de João Guimarães Rosa proporciona encontros e desencontros brasileiros, estonteante a diversidade das veredas a serem trilhadas pelo grande sertão.

E que dizer do próprio Machado de Assis? Ele ajustou suas lentes sobre o ambiente urbano, seguindo uma linha já experimentada por Manuel Antônio de Almeida em seu Memórias de um Sargento de Milícias. E coerente com o que escreveu em seu ensaio de 1873, não se deteve no superficial, nem deixou que os clichês e a cor local embaçassem sua visão. Procurou transpor o hiato entre o brasileiro que vive uma realidade e o brasileiro que se vê vivendo essa realidade com toda a sutileza de sua ironia. Num de seus romances, Quincas Borba, caricaturou a Belle Époque no Rio de Janeiro, os brasileiros macaqueando os costumes, os trejeitos, o luxo, as modas de Paris. Mas esses quadros gerais são apenas contrapontos aos indivíduos que têm sua trajetória acidentada traçada em busca de algum ou nenhum sentido para suas vidas. De suas histórias relatadas com muita ironia é que tende a brotar o encontro com o brasileiro.

O interessante é observar a reação dos leitores aos romances de Machado de Assis. A maioria dos brasileiros trata Machado como se fosse bicho raro, alguma coisa que não conseguem compreender muito bem. Declaram que ele não falou dos brasileiros, mas escreveu histórias universais. Pasteurizam Machado de Assis e sentem-se aliviados por serem capazes de guardar o incômodo em gavetas emperradas. Os leitores ainda procuram nas letras a cor local, os aspectos exteriores mais fáceis de serem assimilados. Preferem ler Jorge Amado que criou vários romances redigidos, com todo o devido respeito, quase que para turistas. E mesmo a ironia de um Lima Barreto, a carnavalização de um Mario de Andrade parecem mais palatáveis por se manterem à tona sem se embrenharem nos caminhos iluminados pela luz oblíqua de Machado de Assis.

A caricatura da Belle Époque no Rio de Janeiro traçada por Machado de Assis talvez nos conduza a uma possível compreensão dessa incapacidade de os brasileiros saberem de si mesmos, de irem além dos aspectos exteriores. Com as honrosas e múltiplas exceções – por exemplo, o estudo de Gilberto Freyre em Casa Grande Senzala – os brasileiros tendemos a ver o Brasil com lentes estrangeiras adquiridas em Paris, nos Estados Unidos, na Europa, nos grandes centros culturais do Ocidente. Essa visão de fora trai a realidade, e por isso recuamos assustados quando um Euclides da Cunha ou um João Guimarães Rosa nos mostra um país desconhecido. Ou quando um Machado de Assis nos convida a acompanhá-lo numa busca de nós mesmos.

A verdade muito amarga é que o alerta do artigo machadiano sobre Instinto de Nacionalidade não perdeu sua validade. Neste século XXI, os brasileiros ainda não sabemos de onde viemos, quem somos, para onde vamos. Ele avisou que nossa independência “não se fará num dia” – ainda tarda o cumprimento de nosso destino.

 

Rosaura Eichenberg

12.02.2018 – Um Recado de Machado de Assis

 

Examinando um texto crítico de Machado de Assis, “Instinto de Nacionalidade”, escrito em 1873, encontrei um recado aos jovens escritores daqueles tempos que cai como uma luva em nossos dias. Diz ele:

“Outra coisa de que eu queria persuadir a mocidade é que a precipitação não lhe afiança muita vida aos escritos. Há um prurido de escrever muito e depressa, tira-se disso glória, e não posso negar que é caminho de aplausos. Há intenção de igualar as criações do espírito com as da matéria, como se elas não fossem nesse caso inconciliáveis. Faça muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias, para uma obra-prima do espírito são precisos alguns mais.

Atualmente, quando as obras de arte parecem feitas de afogadilho, sem haver maturação na sua produção e recepção, vale escutar o conselho de Machado de Assis. Muitos escritos e imagens entram no turbilhão da web, conquistam fama efêmera, e logo são descartados. Por falta de maior reflexão sobre o tema, não afirmo que seu defeito principal seja essa precipitação, mas o fato de os produtos artísticos serem descartáveis é certamente sinal de que  há algo de podre no reino da Dinamarca. E acho que Machado de Assis acertou em cheio ao apontar o equívoco de querer igualar as criações do espírito com as da matéria. Fruto desse erro de monta, a arte acaba no mesmo grande lixo de matéria consumida. A sociedade moderna, globalizada e massificada, incute um novo modo de lidar com o tempo, e há que reconhecer as características e os muitos defeitos intrínsecos dessa mudança. Repito Machado de Assis, que os clássicos têm muito a nos dizer:

“Faça muito embora um homem a volta ao mundo em oitenta dias, para uma obra-prima do espírito são precisos alguns mais.”

 

Rosaura Eichenberg

04.12.2017 – Gonçalo Mendes Ramires

 

Casa da Torre da Lagariça (Ilustre Casa de Ramires)

Das minhas leituras dos romances de Eça de Queirós, sempre guardei a impressão de um magnífico panorama da vida humana com todas as suas idiossincrasias. A riqueza dos detalhes das variadas figuras que perambulam pelas páginas do escritor português é de uma excelência ímpar. E também sempre me surpreendeu que os protagonistas se mostrem ralos, sem que seus dramas pessoais adquiram realmente vida. Os personagens principais dos romances de Eça de Queirós esmaecem na memória do leitor em contraste com um ou outro detalhe vívido de figuras secundárias.

A leitura de A Ilustre Casa de Ramires me reservou uma surpresa. O fidalgo da Torre, último representante da Casa de Ramires, não é dessas figuras que deixam poucas marcas no leitor. Gonçalo Mendes Ramires adquire contornos palpáveis no romance.

A narrativa é construída em dois planos – a história dos ancestrais guerreiros dos Ramires apresentada em tons um tanto debochados, e as desventuras do último representante da casa ilustre que empreende a redação da história de sua família.

Impossível deixar de rir, mesmo que à socapa, do grande antepassado que se chama Tructesindo. Não sei se esse nome é histórico ou inventado por Eça de Queirós, mas provoca o espírito de troça no leitor. Essa narrativa de grandes feitos heroicos descortina quadros épicos que Eça de Queirós pinta com maestria, sem deixar de sublinhá-los com a ironia que lhe é peculiar. No auge da peleja, chega a insinuar uma observação prosaica de que toda a fúria guerreira talvez não tenha razão de ser.

As desventuras do último dos Ramires traçam os contornos de um personagem com graves defeitos de caráter e um quê de covardia. Eça de Queirós delineia muito bem os desvãos da personalidade do fidalgo – o modo como ludibria sua consciência para fechar um negócio mais lucrativo apesar de ter empenhado sua palavra com outro parceiro, a manobra de restabelecer uma amizade do passado para conseguir apoio político, mesmo que isso possa ter consequências funestas para a situação moral de sua irmã, sua disposição a considerar o casamento com uma mulher que não lhe agrada só por ela ter fortuna. Uma personalidade que flerta com a canalhice e que, ainda por cima, se acovarda diante de quem o intimida.

O romance segue os desacertos do fidalgo e acaba delineando uma mudança no personagem. Num rompante inesperado, ele enfrenta o valentão que se comprazia em intimidá-lo, um sujeito de barba ruiva igual à do inimigo de seus antepassados. Com essa façanha, ele como que retoma seu lugar na Torre dos Ramires, e adquire uma estatura de verdadeiro fidalgo. Eça de Queirós chega a esboçar uma reflexão do personagem sobre a fragilidade e a falta de sentido da vida.

A transformação, entretanto, se mostra tão rala quanto as aventuras ao longo do romance. De acordo com outro personagem, Antônio Vilalobos, vulgo Titó, um homenzarrão desajeitado feito de material moral mais sólido, Gonçalo Mendes Ramires é leviano, mas seu amigo.

Tudo levaria a crer que mais uma vez o protagonista de um romance de Eça de Queirós prima por ser bastante superficial e irrelevante. Seu caráter é muito bem analisado pelo autor, mas seu destino parece tão sem graça quanto o de seus antepassados de nomes risíveis. Entretanto, não é o que acontece.

Gonçalo Ramires por Tomaz de Melo (Tom)

Gonçalo Mendes Ramires cativa o leitor. Ele é dado a ações ínfimas, coisas mínimas, sem importância, como o autor não cansa de repetir. Quando um escritor insiste em frisar que algo é coisa muito pequena, sem relevância, o leitor tem mais é que desconfiar. Pode muito bem ser que se trate do que há de mais precioso no livro.

O fato é que o fidalgo costuma ajudar as outras pessoas. Um trabalhador está com o pé ferido, o fidalgo lhe empresta a montaria e segue a pé ao seu lado. A espontaneidade da sua ação é real, mas ainda é possível escutar vozes céticas que questionem seu altruísmo. Essas vozes se calam, porém, numa outra cena comovente. O fidalgo é ameaçado por um lavrador que se ressentia de o fidalgo ter rompido o negócio apalavrado com ele. Como de costume, o fidalgo se acovarda e foge, mas não deixa de pedir a prisão do agressor no dia seguinte. Numa noite de chuva torrencial, a mulher do lavrador procura o fidalgo junto com os filhos pequenos para pedir que o marido seja libertado. O fidalgo lhe assegura que o homem estará livre no dia seguinte, e diz que ela deve voltar para casa.  Mas então percebe que o menino que a acompanha está doente com febre, e por isso não deixa que ela o leve de volta embaixo da chuva forte. Agasalha o menino, coloca-o na cama, acarinha a criança e, mais de uma vez durante a noite, vem ver como está o doente, se a febre amainou. É uma cena ínfima, coisa sem importância, mas que o leitor grava na memória. Muito mais impressionante que todas as façanhas do Tructesindo.

Gonçalo Mendes Ramires fascina por se revelar partícipe do destino do comum dos mortais. Como acontece na vida, há algo insondável na sua natureza que o torna vivo. Muitas vezes é o inferno interior que atrai os escritores que buscam conhecer o ser humano. O protagonista Gonçalo Mendes Ramires aponta que o céu interior também não deixa de ser insondável.

 

Rosaura Eichenberg

05.11.2017 – Machado de Assis critica “O Primo Basílio” de Eça de Queirós

Em abril de 1878, Machado de Assis publicou em O Cruzeiro dois artigos analisando e criticando o segundo romance de Eça de Queirós, O Primo Basílio, recém-lançado no Porto, em Portugal. O primeiro artigo de 16/04/1878 provocou tanta celeuma que levou Machado de Assis a publicar o segundo no dia 30/04/1878, em resposta à argumentação dos que não concordavam com seu ponto de vista.

O texto crítico merece atenção, pois afinal se trata das considerações do maior escritor brasileiro sobre a obra de  um dos grandes escritores de Portugal. Muitas vezes escutei que Machado se excedeu na crítica por um moralismo antiquado. E nas minhas leituras e releituras de Eça de Queirós, cada vez mais deslumbrada com sua maestria em modelar a língua portuguesa, eu me perguntava se realmente cabia tecer reparos ao escritor português.

O que me seduz nos romances de Eça de Queirós são as frases, a maneira como são construídas. Não é só cor e luz que ele sabe criar com as palavras, é sobretudo movimento e ritmo. Meu fascínio é ver que, assim como a língua inglesa, o português se presta a fazer as imagens fluírem, se infiltrarem, estacarem, irromperem, voltearem na mente do leitor. Na leitura de O Mistério da Estrada de Sintra, essa arte da escrita se torna sobremaneira evidente, porque a brincadeira armada pelos escritores – Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, então jovens, escreveram uma história a quatro mãos desconsiderando as regras da verossimilhança – provoca gargalhadas no leitor e permite que sua atenção se volte para a engenhosidade com que as cenas são armadas.

Algumas releituras recentes de romances de Eça de Queirós me atiçaram a curiosidade, e resolvi examinar a crítica de Machado de Assis expressa ainda no século XIX. E não pude deixar de admirar o refinado senso crítico de Machado de Assis, a justeza de suas observações, sua mira certeira para revelar os pontos fracos e fortes do romance e do escritor.

Apesar de O Primo Basílio ser o segundo romance de Eça de Queirós, isto é, o escritor português estava no início de sua carreira, Machado de Assis lhe reconhece o talento e suas “faculdades de artista”. O texto está longe de ser crítica arrasadora, é antes um confronto entre dois grandes escritores em formação. Cumpre lembrar que Machado de Assis ainda não publicara Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1878.

O primeiro reparo crítico não se dirige a Eça de Queirós, mas à escola de que participa, o naturalismo então em voga. Machado chama Eça de “realista sem rebuço”, empenhado como Émile Zola na “reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e ignóbeis”. Mas também aponta “quadros, excelentemente acabados, em que o Sr. Eça de Queirós esquecia por minuto as preocupações da escola”.

Mas o xis da questão vai mais fundo que o naturalismo e seus trejeitos. Focando o romance propriamente dito, Machado assesta sua pontaria. Compara a trama da obra à de Eugénie Grandet, romance de Balzac, mas diz ser impossível traçar qualquer paralelo entre a protagonista de O Primo Basílio, Luisa, e a Eugénie da obra francesa. Afirma que “a Luisa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral”. Que os leitores “não lhe peçam paixões nem remorsos, menos ainda consciência”.

Não há como discordar. Não vejo como alguém possa sentir grande interesse por essa Luisa, que nos foge da memória assim que fechamos o livro. E nesse ponto Machado bateu numa característica essencial de Eça de Queirós. O talento do escritor português desabrocha na criação dos personagens figurantes ou coadjuvantes, os protagonistas são quase sempre apagados. E isso me parece ocorrer até mesmo nos grandes romances, como Os Maias.

Mais adiante, Machado afirma que Juliana, a criada, é “o caráter mais completo e verdadeiro do livro”. Como em outros romances do Eça, uma personagem aparentemente secundária assume o papel principal. Mas eu percebo nessa figura uma fraqueza de construção. Ela não surge aos olhos do leitor como uma mulher com suas qualidades, defeitos e dificuldades na lida com a vida, mas como uma criada. A função lhe determina os traços de caráter, e com isso a figura perde em humanidade. Para deixar claro o que quero dizer, lembro a figura de Falstaff  nas peças de Shakespeare. Tinha um título talvez falso de cavalheiro, era boêmio dado a bravatas e arruaças, mas, antes de tudo, ele é Falstaff. Juliana é, antes de tudo, a criada.

Machado de Assis não fala dessa concepção da personagem que me incomodou, mas alude a tal particularidade quando aponta que o desenlace se dá sem que sejam considerados os fios internos da trama. A criada “sucumbe a um aneurisma, Luisa expira alguns dias depois… A catástrofe é o resultado de uma circunstância fortuita, e nada mais.” E ao resumir a moral da história –  “a boa escolha dos fâmulos é uma condição de paz no adultério” – Machado expõe a construção precária dos personagens e o caráter ralo das relações e embates pessoais de O Primo Basílio.

Esta é a principal crítica de Machado de Assis a Eça de Queirós.  “A preocupação constante do acessório”, a tendência a “avolumar os acessórios até o ponto de abafar o principal”. Considera prejudicial à arte do escritor “a substituição do principal pelo acessório, a ação transplantada dos caracteres e dos sentimentos para o incidente, para o fortuito”. E arremata: “…o seu dom de observação, aliás pujante, é complacente em demasia, sobretudo, é exterior, e superficial”.

A leitura dos romances de Eça de Queirós confirma sua verdadeira obsessão pelos detalhes pitorescos da paisagem humana, pelos painéis panorâmicos da imensa diversidade de tipos e figuras. Se em algumas circunstâncias, como na descrição do Pacheco em Correspondência de Fradique Mendes, o seu traço é caricatural, na maioria das vezes é demasiado cheio de cor, relevo e sentimento para que possa ser rotulado de caricatura. A pergunta que me fica é se essa sua tendência ao que é exterior seria lesiva à sua arte, se essa observação que insiste em roçar na superfície das coisas não teria um valor próprio, pois é bem verdade que os romances continuam a suscitar encanto e fascínio em seus leitores. Essa pergunta me leva a outras reflexões que vou deixar para esmiuçar em novo comentário sobre Machado de Assis e Eça de Queirós. São escritores do passado, dois clássicos da língua portuguesa. Apesar do caráter modesto dos meus comentários, é sempre válido ler e reler o que escreveram.

 

Rosaura Eichenberg

20.02.2017 – Marcel Proust no casamento de um amigo em 1904

 

A memória vive a nos pregar peças, o que sempre me levou a considerar inglória nossa lida com o tempo. Mais do que o passado e o futuro, é o presente que me parece escorrer irremediavelmente de nossas mãos, talvez por sua natureza inefável. O presente não comporta a memória. Quando li há alguns anos os dois primeiros volumes de “Em busca do tempo perdido”, senti intensamente o trabalho de Sísifo empreendido por Marcel Proust. E o matiz trágico daquela leitura voltou a surgir diante de meus olhos na leveza apressada de uma imagem descoberta por um estudioso canadense da obra de Proust, Jean-Pierre Sirois-Trahan. Vasculhando papéis sobre Proust, ele encontrou um filme de 35 milímetros documentando o casamento de Armand de Gramont, duque de Guiche, que era amigo íntimo de Proust, com Élaine Greffulhe, filha da condessa de Greffulhe, em 1904. O filme tem pouco mais de um minuto, e na cena que acompanha o cortejo nupcial, Marcel Proust, de chapéu coco e casacão cinza, aparece por cinco fugidios segundos. A descoberta foi divulgada no início de fevereiro deste ano, num  artigo da “Revue d’Études Proustiennes”. Abaixo Proust numa imagem editada do filme e o vídeo com o cortejo do casamento – a figura de Proust aparece no intervalo de 0:35 – 0:39 segundos.

Proust em1904

 

Rosaura Eichenberg

13.10.2106 – Bob Dylan

 

        The Nobel Prize in Literature 2016 is awarded to BOB DYLAN

 

The news sounded like chimes of heaven in my ears. I was never too impressed by awards, much less by literary prizes. Even so I could not help smiling and smiling and smiling that the 2016 Nobel Prize in Literature was awarded to BOB DYLAN  A great poet that partakes of the lineage of Shakespeare and Keats was honoured today, and I am glad. Thank you, Mr. Dylan, for being so good in making sentences that go right into our hearts.

 

Rosaura Eichenberg

18.02.2016 – Guilhermino César sobre ‘O Livro do Desassossego’

 

Remexendo papéis antigos, encontrei uma carta do professor Guilhermino César, escritor e estudioso de literatura, com quem tive a oportunidade de ler literatura brasileira durante meus estudos de letras na UFRGS nas décadas de  1960/70. Foi um professor que muito me marcou por manifestar em alto grau uma qualidade de que os outros professores de literatura pareciam estranhamente desprovidos: ele era apaixonado por literatura. A carta que encontrei é de 17 de dezembro de 1983, e naquela época aparecera o Livro do Desassossego de Bernardo Soares, outro heterônimo de Fernando Pessoa. Vale a pena registrar o comentário de Guilhermino César:

“Nunca depositei esperança na “existência” do Bernardo Soares. No entanto, que força tem o “homem”! Tenho-o ao alcance da mão. São páginas de grande poder sugestivo. Em prosa, creio que F. P. não escreveu nada melhor.
“O livro chegou-me na hora, quando eu dava minhas últimas aulas, na Pós-Graduação, sobre os heterônimos menores. Ora, o Bernardo Soares é um dos maiores. Isso me desequilibrou e tive de compor outro roteiro. Ainda perturbado, lembro-me de ter escrito algo, no Correio, sobre o desassossegado sujeito.”

 

Rosaura Eichenberg

08.02.2016 – Kafka e o malabarismo

 

Olhar de Kafka aos 40 anos

Foi apenas nos anos 1980 que as obras de Franz Kafka receberam boas traduções no Brasil. Antes o português de seus livros levantava muitas barreiras a cada página e desencorajava o leitor mais destemido. Por isso, quando tomei conhecimento de várias obras de Kafka nos anos 1970, li os textos em sua versão inglesa. Mas o impacto que essa leitura me causou não foi pequeno, e logo me vi diante de um dilema. A leitura em inglês não me satisfazia, queria ler os textos do tcheco na minha língua materna ou então, se isso fosse impossível, na língua em que ele escreveu. Tenho ascendência alemã – meu bisavô era alemão – mas não aprendi a língua em casa, apesar de meus pais e meus avós falarem alemão entre si. Muito provavelmente porque a minha infância se passou depois da segunda grande guerra. Na adolescência, fiz algumas tentativas de aprender o idioma, mas as dificuldades sempre superaram o meu empenho bastante fraco. No início dos anos 1980, porém, esse empenho recebeu o empuxo de meu desejo de chegar mais perto do que dizia Franz Kafka em seus livros. E esse empuxo foi suficiente para me guiar pelo labirinto de declinações e verbos no final das frases, um longo percurso que durou uma dúzia de anos. O meu conhecimento da língua alemã ainda deixa muito a desejar, mas consigo ler textos em alemão, e com isso pude me aproximar de Franz Kafka.

O que me impressionou em Kafka foi sobretudo a força concentrada em cada uma de suas frases, as palavras rolando pesadas, funcionando como ímãs. Para falar a verdade, nunca tinha lido ninguém que conseguisse escrever assim. Na prosa de ficção, sempre encontrei o talento dos escritores armando as páginas iniciais para criar o clima da narrativa e envolver o leitor no que aconteceria. Mesmo nas narrativas modernas, que em geral colocam o leitor de imediato no centro da ação, esse trabalho preliminar se faz mister. Kafka é capaz de criar esse clima em uma única página, em um único parágrafo, até em uma única frase ou palavra. Ao ler seu diário, em que muitas vezes esboça fragmentos de narrativa, isso se torna particularmente claro. Não há palavras leves, todas pesam como chumbo. Seu poder de escrita ainda se tornou mais misterioso para mim, quando pude constatar que a linguagem utilizada é simples, sem floreios, sem inovações. Como li em vários estudos sobre Kafka, sua linguagem é quase burocrática. Como compreender sua capacidade de incorporar tamanha força?

No início do diário de Kafka, correspondente ao ano de 1910, encontrei uma reflexão sobre o ato de escrever que se mostra rica em caminhos de interpretação.

 

Página do diário – 1910diario malabristas 3

Finalmente, depois de cinco meses da minha vida em que não consegui escrever nada que me satisfizesse, e pelos quais nenhum poder vai me compensar, embora todos tivessem a obrigação de fazê-lo, ocorre-me falar de novo a mim mesmo. A isso sempre respondi, quando realmente me perguntava, que havia ainda algo a irromper de mim, deste monte de palha que sou há cinco meses e que parece destinado a pegar fogo no verão e ser consumido mais depressa que um piscar de olhos dos espectadores. Se isso ao menos acontecesse comigo! E dezenas de vezes deveria acontecer, pois nem sequer me arrependo do tempo infeliz. Minha situação não é infelicidade, tampouco é felicidade, não é indiferença, nem fraqueza, nem cansaço, nem outro interesse, o que é então? Que eu não saiba o que é, depende talvez da minha incapacidade de escrever. E essa acredito compreender, sem conhecer sua razão. Todas as coisas, isto é, todas as que me acontecem, não me ocorrem a partir da raiz, mas só a partir de algum ponto ali pelo meio. Que alguém tente segurá-las, que alguém tente pegar uma gramínea e agarrar-se firme a uma folha de grama, quando ela só começa a crescer pelo meio do talo. Isso conseguem talvez alguns, como, por exemplo, os malabaristas japoneses, que sobem numa escada de mão que não está assentada sobre a terra, mas sobre as solas levantadas de outro malabarista meio deitado no chão, e que não está encostada contra a parede, mas elevando-se tão somente no ar. Eu não consigo fazer essa proeza, independentemente de aquelas solas não estarem à disposição de minha escada. Claro que isso não é tudo, e não é uma pergunta dessas que me leva a falar. Mas todo dia uma linha ao menos deve ser apontada para mim, assim como apontamos o telescópio para os cometas. E se eu então aparecesse diante daquela frase, seduzido por aquela frase, assim como, por exemplo, aconteceu no último Natal, quando fui tão longe que mal conseguia me controlar, e quando na realidade eu parecia estar no último degrau da minha escada, a qual, entretanto, se mantinha tranquila sobre o chão e contra uma parede. Mas que chão, e que parede! Ainda assim aquela escada não caía, de tanto que meus pés a pressionavam sobre o chão, de tanto que meus pés a levantavam contra a parede. (Tradução minha.)

 

Ao falar da escrita de que espera ser capaz, ele usa uma forma impessoal para dizer que algo ainda poderia irromper de si. O verbo que emprega ‘herausschlagen’ é muito usado em outros contextos com a palavra ‘Flammen’, para descrever as labaredas de um incêndio saindo pelas aberturas e espalhando-se no ar. Suas dúvidas a respeito desse potencial chegam a prever um fogo que consumiria por inteiro o monte de palha de que se considera feito. Pouco adiante emprega uma imagem para o ato de escrever que espanta pela inversão inusitada da ação. Compara a criação de uma frase ao ato de apontar um telescópio para os cometas. Mas não é ele quem aponta para a frase-cometa, a linha é que vem a ser apontada na sua direção, ela é que poderá descobri-lo, a ele que ocupa o lugar do cometa. A frase vai revelá-lo. É o reconhecimento de uma existência autônoma das frases, portadoras talvez da força concentrada que tanto me impressionou.

desenho-malabaristas (Small)Brandir ou manejar essas frases que vêm ao seu encontro não é tarefa trivial. A dificuldade advém de não se conhecer a situação por inteiro. Diz ele que tudo o que lhe acontece não ocorre a partir da raiz, mas surge de algum lugar pelo meio. É preciso agarrar-se a uma folha de grama que cresce pelo meio do talo, e assim surge a imagem dos malabaristas japoneses que sobem uma escada que não está assentada no chão, nem escorada contra a parede. As frases a serem escritas irrompem de seu interior, vêm procurá-lo como a um cometa, e por ele desconhecer onde estão arraigadas, é preciso realizar o malabarismo de elevá-las no ar sem qualquer apoio. Não é surpreendente que o ato de escrever seja compreendido desse modo por Franz Kafka, quando as frases de seus livros nos causam tanto espanto pela força que revelam. A linguagem pode ser normal, quase burocrática, mas a maneira como é empregada desafia os limites da mente humana.

Essa imagem dos malabaristas me levou a pensar na leitura de uma das obras-primas de Kafka, A Metamorfose. A narrativa é uma proeza de malabarismo. Ele descreve uma situação que alguém poderia supor fantástica. Gregor Samsa acorda certa manhã para se descobrir metamorfoseado num enorme inseto. Mas a narrativa não tomba no fantástico, não abandona a realidade de Gregor Samsa. Tampouco tomba num realismo que explica o fantástico como sonho, fantasia, metáfora empregada para revelar o significado do que é real. A narrativa avança no fio da navalha conduzindo o leitor a um outro mundo, real e fantástico ao mesmo tempo, a um mundo que não comporta explicação. E o malabarista não faz nenhum movimento em falso, mantém até o fim seu estranho equilíbrio. Por isso minha reação aos livros de Kafka, nunca tinha lido ninguém que conseguisse escrever assim.

Rosaura Eichenberg

4.04.2015 – O enigma brasileiro

Num seminário de literatura sobre a obra de Machado de Assis, realizado há mais de três décadas, tive uma experiência surrealista. Quase sem querer, eu me referi a Machado de Assis como escritor brasileiro, o que desencadeou uma saraivada de golpes desferidos por meus colegas. Como eu poderia dizer asneira tamanha? Só quem não era capaz de leitura crítica podia falar tal coisa. Sem conseguir acreditar no que escutava, fiquei sabendo que Machado de Assis foi um escritor universal, que de brasileiro não tinha nada. Confesso que não consegui acompanhar a discussão cerrada que se seguiu por causa de minha total perplexidade, mas ainda me lembro de um argumento – Machado de Assis não era brasileiro porque escrevia bem, brasileiro era Jorge Amado que escrevia mal. Sempre que penso nesse acontecimento do passado, lembro que Machado de Assis escreveu um texto fundamental a respeito da, vamos dizer, brasilidade. “Instinto de Nacionalidade” é um ensaio sobre a literatura brasileira, principalmente a realizada pelos românticos, em que ele propõe que os escritores abandonem o fascínio pelos aspectos exteriores de nossa paisagem, flora e fauna, inclusive a humana, e procurem cuidar do sentimento interior que caracteriza os brasileiros. Resumindo de modo grosseiro, ninguém precisa se fantasiar para ser brasileiro. E lembro também que Machado não só formulou o enigma brasileiro de maneira brilhante – seu ensaio ainda continua sem resposta depois de tantos anos – como também realizou o que propunha na sua obra. Pois não criou por acaso uma das mais impressionantes personagens femininas da literatura ocidental, que não pode ser senão brasileira?

Rosaura Eichenberg

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