de revoada

06.10.2021 – Sobre o amor – Santa Terezinha do Menino Jesus

 

  “À des amants, il faut la solitude.”

 

Ste. Thérèse de Lisieux   

 

 

Rosaura Eichenberg

20.07.2021 – Fariseus dos tempos modernos

Encontram-se fariseus na Bíblia com certa frequência. Uma explicação do significado de seu nome é fornecida por Hadriano Simon em Praelectiones Biblicae Novum Testamentum. A palavra fariseu tem origem hebraica – perushim (de parash = separar). Do hebraico passou para a forma grega – ϕαρισαιοι, isto é, fariseus = separados.  Não eram assim chamados porque evitassem o contato com os pagãos, pois separar-se dos gentios era comum entre os judeus. Eles evitavam o povo, de quem insistiam em se manter separados.

Em seus comentários sobre o Evangelho de São Mateus, Santo Tomás de Aquino comenta a malignidade dos fariseus. “Fariseus, isto é, separados, porque perversamente interpretavam, convertendo o bem em mal (Eclesiástico 11,33).” E mais: “Neles vemos um exemplo e tipo dos que não querem crer, para os quais não bastam nem os argumentos mais manifestos, porque, obscurecendo o intelecto com a malícia da vontade, enganam-se a si mesmos com vãos raciocínios.”

Em nossos tempos, as ideologias dominantes estão infestadas de fariseus. É verdade que, como os fariseus bíblicos, eles interpretam perversamente e convertem o bem em mal. Mas o que chama atenção é que, como na análise de Santo Tomás, 1) eles não querem ver a verdade – se Santo Tomás fala da verdade divina dizendo que eles não querem crer, os “fariseus” atuais nem querem reconhecer a realidade dos fatos. 2) Eles obscurecem o intelecto com a malícia da vontade – como querem ver apenas o que serve a seus interesses, o intelecto deixa de funcionar a contento. Por isso, não compreendem nem aceitam argumento algum, inviabilizando qualquer tentativa de discussão. 3) Eles se enganam a si mesmos com vãos raciocínios – tudo o que falam é um engano para si mesmos e para os outros, o que torna seus raciocínios vãos para usar o termo elegante de Santo Tomás. De maneira bem mais grosseira, diríamos que acabam em puro besteirol.

Interessante observar um dado nessa comparação entre os fariseus da Bíblia e os de hoje em dia. Conforme o significado da palavra fariseu, eles se mantinham apartados do povo. Um dos traços da ideologia esquerdista é o imenso desprezo pelo povo, que eles consideram apenas massa de manobra. Não sei se a ideologia global dominante é tão somente esquerdista, mas seus agentes certamente se apartam do povo no sentido de que não querem contato com a realidade.

A guerra tomou conta do nosso planeta. Um dos requisitos da defesa é conhecer o inimigo, por isso essa reflexão de Santo Tomás sobre os fariseus é oportuna.

 

 

Rosaura Eichenberg

28.03.2021- Enigma antigo

 

Existirá realmente esta identidade coletiva vaga a que chamamos de povo de um país? Miguel de Unamuno não gostava da palavra povo. 

Os habitantes das nações modernas partilham costumes em comum, paisagens, modos de ver as coisas, tradições culturais e, sobretudo, uma mesma língua, tesouro em que se guardam e se transmutam todas as suas experiências.

Mas o que existe para além das circunstâncias não é sempre o jeito individual de ser, a aventura iniciada no mistério do nascimento, assumida como possível no combate com o tempo, e desaguando sem imprevistos no outro grande mistério de não ser?

 

 

Rosaura Eichenberg

03.02.2021 – Ler Machado de Assis não é fácil

 

Machado de Assis é o maior escritor que o Brasil já teve. Trata-se de um consenso bastante sólido na cultura brasileira. Mas, como nada no Brasil é simples e corriqueiro, ele não é leitura que se abre generosa aos que dele se aproximam. Ler Machado é uma conquista árdua que exige grande trabalho. Ele próprio tinha ciência dessa dificuldade, pois escreveu em Memórias Póstumas de Brás Cubas:

“Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco.”

Difícil ou não, sua importância na literatura brasileira só faz crescer com os anos, e sim, ele tem presença obrigatória no currículo escolar dos brasileiros, porque todos têm de conhecer a cultura de seu país. Como na superfície nossa vida cultural está infestada de estereótipos, faz-se necessário saber dos veios do minério de real valor.

A dificuldade de leitura da obra de Machado já rendeu muita polêmica. Além de pessoas sem bagagem cultural chegarem a pensar em tirá-lo do currículo escolar, houve quem apresentasse a sugestão de reescrever textos de Machado com linguagem mais moderna para facilitar a leitura. Uma ideia falha por se apoiar num falso diagnóstico. A linguagem de Machado é do século XIX, mas coloquial. Apesar de alguns termos em desuso, a compreensão flui pelas palavras. O máximo que se poderia fazer é um glossário dos termos antiquados, mas várias gerações leram Machado sem sentir essa necessidade. Estaria o problema nos jovens atuais que querem tudo mastigado, sem disposição para qualquer trabalho mais duro?

Embora isso possa ter um grão de verdade, não dá para negar que existe uma barreira real na leitura das obras de Machado de Assis. Não é um escritor fácil. A dificuldade não está na linguagem, mas na sua visão de mundo que requer maturidade e experiência de vida para começar a ser entrevista.  E existe ainda o agravante de Machado usar a ironia como seu recurso de linguagem preferido. Uma pintura com as tintas da ironia não resulta clara nem nítida. A luz que a revela é oblíqua.

Com base na minha própria experiência, considero bastante difícil que jovens compreendam Machado de Assis. O que ele apresenta não é agradável, antes muito amargo. Os jovens não apreciam esse travo. Mas isso não implica que a leitura de Machado de Assis deva desaparecer nas escolas. Pelo contrário. Seja qual for a resposta de cada um a essa experiência de leitura, terá sido um passo importante na sua percepção de nossa cultura.

Nós brasileiros temos de aceitar que somos um país peculiar, diferente. Nosso maior escritor trilhou caminho acidentado e pedregoso, mas isso não é motivo para deixar de acompanhá-lo na sua busca.     

 

 

Rosaura Eichenberg

04.01.2021 – Vírus Retóricos: Hate Speech, Teoria da Conspiração, Fake News

 

Em janeiro de 2015, um ataque terrorista islâmico matou 12 jornalistas do hebdomadário francês Charlie Hebdo, um periódico esquerdista com sátiras virulentas contra seus alvos preferidos – governos e ideologia de direita, com especial ênfase para a religião católica e o Papa. Em 2005, quando um cartum dinamarquês sobre Maomé atraiu a fúria islâmica contra seu autor, o Charlie Hebdo tinha se solidarizado com o cartunista e publicado o cartum. Por essa razão, os muçulmanos juraram matar os jornalistas franceses, ameaça cumprida em 2015.

O massacre abalou o mundo ocidental. Muitos chefes de estado participaram de marchas em Paris contra o terrorismo, e nas manifestações que se seguiram, os cartazes repetiam “Je suis Charlie”. Passadas algumas semanas, observei uma mudança nas discussões que lia entrecortadas nas agências de notícias. Em vez de refletirem sobre o terrorismo e as doze vidas ceifadas, a maioria parecia querer determinar os limites da crítica, se era realmente possível ofender alguém sem qualquer freio de moderação. E todos se perdiam nos detalhes dessa argumentação, esquecendo os doze jornalistas que tinham perdido a vida.

Lembrei as aulas de retórica e pensei – se alguém se descobre sem argumentos numa discussão, o truque mais fácil é mudar de assunto. Parece ter sido o que fizeram. Minha amiga americana ponderava que até o Papa tinha dito que não se podia ofender ninguém com tanta virulência. Tentando dirigir a discussão para a realidade, respondi que os cartunistas eram de esquerda, e o que já tinham publicado contra Jesus Cristo e a Virgem Maria era muito pior que seus cartuns sobre Maomé. E aí perguntei, qual foi o cristão que pegou um fuzil para matar os jornalistas que ofenderam Jesus Cristo e a Virgem Maria?

Essa reflexão já antiga me levou a examinar truques retóricos que vêm se repetindo para evitar qualquer debate sobre a realidade dos fatos. São formas de desviar a atenção da realidade e, para ser bem franca, constituem retórica para imbecis. O assustador é que esse discurso se infiltra na linguagem como um vírus, e os desavisados se deixam enredar nas teias armadas. Não se discute com imbecil – corta-se a linha da conversa e trata-se de encontrar novo fio da meada.

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Ao ver um vídeo com um trecho de um discurso de Hillary Clinton na campanha presidencial de 2016, senti um arrepio de pavor. Ela investia contra os que apoiavam o candidato Donald Trump, dizendo que eram racistas, sexistas, homofóbicos, nazistas, fascistas, a lista era interminável. Rotulou esses seres desprezíveis de deploráveis, afirmando que seria necessário colocá-los num cesto por serem irrecuperáveis. De olhos arregalados e o coração na mão, eu só troquei mentalmente “os apoiadores de Trump” pela palavra “judeus” e entendi quem estava falando. Seguindo a linha do genocida do III Reich, emprega-se hoje a retórica do ódio – Hate Speech.  Assim como Hitler desumanizou os judeus retirando-lhes o direito à própria vida, essa retórica demoniza qualquer adversário roubando-lhe o direito de se expressar dada a sua natureza demoníaca. De quebra, tal vírus retórico mascara o ódio sem freios de quem o emprega.

 

Em 2014, antes da eleição presidencial brasileira, o avião que transportava o candidato que tinha sido governador de Pernambuco caiu depois de decolar do aeroporto de Santos. Numa reunião de colegas do curso de alemão, comentávamos o acidente que abalou o país. Eu questionava o que poderia ter acontecido, achando escassas as explicações apresentadas. De repente, a colega ao meu lado me interrompeu ríspida afirmando que minhas dúvidas eram Teoria da Conspiração.  Atônita diante da dureza com que ela tinha falado, respondi que não tinha conhecimento de conspiração nenhuma, queria apenas saber por que a caixa preta do avião não estava funcionando na hora do acidente. Foi a primeira vez que me deparei com esse vírus retórico – alegar teoria da conspiração visa a acabar com qualquer discussão obrigando os desavisados a apresentar provas do que eles nem sabem o que é, enquanto seus oponentes escamoteiam a culpa em cartório. Por sinal, o acidente nunca foi explicado por causa da falha da caixa preta.

 

Não tenho certeza, mas acho que foi em 2016, antes da eleição americana, que comecei a encontrar na internet a expressão Fake News. Faço uma ligação entre o emprego desse vírus retórico e um escândalo que então estourou – era um caso de tráfico sexual de crianças, que ficou conhecido como Pizzagate por ter como centro de operações uma pizzaria. Um escândalo ligado a pessoas da campanha de Hillary Clinton. Pode ser que me engane, pois não navego na internet com destreza e grande frequência, mas de uma coisa tenho certeza: o efeito dessa expressão Fake News é altamente prejudicial. Esse vírus retórico consegue minar a credibilidade de qualquer news. Com isso, o jornalismo tem seus dias contados, e o único resultado possível é a instituição do Ministério da Verdade do romance de George Orwell.

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A melhor maneira de lutar contra um vírus é impedir que se introduza no organismo sadio. Esses três vírus retóricos mencionados já se tornaram lugar-comum nas discussões atuais, por isso cabe procurar o remédio adequado para neutralizá-los. Até agora o que parece mais eficaz é não se deixar enredar por eles, conduzir a discussão para fora do alcance de suas garras. E vigiar para que aqueles que os empregam saibam que não estão lidando com idiotas.  

 

 

Rosaura Eichenberg

16.12.2020 – Tu Pisavas Nos Astros Distraída

 

Hoje muitos falam em refundar a República no Brasil. Outros dizem que o país tem de se tornar verdadeiramente independente. Talvez seja sinal de minha grande ignorância, mas me parece que o Brasil tem é de ser descoberto pelos brasileiros. A minha impressão é que não fazemos ideia da nossa terra.

Entre várias razões, cabe apontar os estudiosos da realidade brasileira que usam óculos fabricados em Harvard, na Sorbonne, em Cambridge, em Oxford. As lentes distorcem irremediavelmente as imagens do Brasil e só conseguem criar uma enxurrada de estereótipos em que poucos brasileiros se reconhecem.

Não está mais que na hora de o país do futuro voltar os olhos para o presente ou para o passado e começar a se descobrir? Tom Jobim já avisou que o Brasil não é para principiantes. A tarefa será bem complicada.

A nossa terra é peculiar. Único país na América do Sul que fala português. Único país na América do Sul que tem a cultura marcada pelos negros, e não pelos índios. Diversidade na flora, na fauna, no povo. Riquezas naturais em abundância, mas pobreza e miséria em regiões assoladas por estruturas sociais caducas.

Um olhar claro e honesto para nós mesmos encontrará obstáculos. Muitas vezes vamos até querer desviar os olhos do que percebemos. Apesar de o brasileiro já ter sido chamado de cordial, o nível de violência assusta. Mas é preciso enfrentar os fantasmas, afastar as névoas para ter uma visão da realidade. Minha intuição é que também se vai descobrir beleza que jamais sonhamos. Volta e meia me ocorre no vaivém da vida o verso do Chão de Estrelas:

Tu pisavas nos astros distraída

 

 

Rosaura Eichenberg

08.12.2020 – Cleber Teixeira e o Jardim Botânico

 

Cleber Teixeira era do Rio de Janeiro, e foi ele quem me apresentou sua cidade quando vim de muda para cá em 1975. O lugar mais lindo, dizia ele, é o Jardim Botânico. Um segredo que não fazia questão de guardar, o Jardim Botânico morava em seu coração.

Eu o via atrapalhado quando falava de seus passeios com a filha Gabriela, porque a menina preferia brincar no Parque Tivoli a trilhar os caminhos do jardim. Mas ele acabava levando a Gabriela de vez em quando ao Jardim Botânico, e muitas vezes o acompanhei em seus passeios com a mulher e os filhos pequenos, até mesmo para comemorar o nascimento do João debaixo da grande sumaúma da entrada.

Com os anos passando, o Jardim Botânico seguiu sua vida com altos e baixos, como sói acontecer. Houve períodos de muito abandono, e chuvas e enchentes do Rio dos Macacos multiplicavam os sinais de nenhum cuidado. Ainda lembro que, em tempos muito ruins, os soldados do exército fizeram mutirão para limpar o jardim. Outras épocas experimentaram assaltos e falta de segurança, o que resultou, depois de grandes discussões, em grades ao redor do arboreto.

No início dos anos 90, realizou-se no Rio de Janeiro a conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e o desenvolvimento, conhecida como ECO-92, e o Jardim Botânico teve de se engalanar para os encontros. Houve então uma série de convênios pontuais com a iniciativa privada para restaurar e recuperar certos tesouros históricos do jardim. Foi assim que se tirou da ruína o Museu – Sítio Arqueológico dos Pilões, endireitaram-se as armações de ferro das casas envidraçadas com suas exposições de plantas carnívoras e outros espécimens, arrumou-se o roseiral em círculos. A saga das estátuas de Narciso e Eco com o escritor Antonio Callado fez história ao lado das musas do chafariz.

Mais tarde comecei a praticar taichi no Canteiro da Restinga e acompanhei de perto todas essas vicissitudes, a lembrança do Cleber sempre iluminando meus passos pelo jardim. Num certo passeio antigo, um temporal estourou bem em cima de nós – eu estava com o Cleber, a Gabriela e uma amiga da Gabriela. Buscamos refúgio num dos mirantes laterais, e vi o Cleber acalmando a filha que estava com medo da chuva, mas também saboreando a beleza tão escondida no estrondo dos trovões e no aguaceiro que caía sem dó. Quando um lugar penetra na alma de uma pessoa, todo momento é motivo para descobrir mais algum detalhe, nova preciosidade, mesmo no meio das intempéries.

Hoje essa recordação vem me consolar, porque meu coração está chorando pelo Jardim Botânico. Ameaçam atacar mais uma vez o lugar mais lindo do Rio de Janeiro. Planejam demolir o Museu do Meio Ambiente e construir um hotel butique. Nem sei o que é isso, e imagino que o Cleber tampouco saberia. Há que aguardar, pois a esperança de que deixem o Jardim Botânico em paz é grande.

Minha mãe dizia para nós pequenos, quando um se machucava: vai passar. Tudo passa, mas a beleza do Jardim Botânico que vislumbrei pelas frestas do coração de meu amigo Cleber não passará. O Jardim Botânico foi inaugurado no dia de Santo Antônio — o grande santo de Lisboa haverá de proteger o nosso jardim.

 

Rosaura Eichenberg

07.01.2020 – Inteligência artificial

 

O olho humano é uma das tantas maravilhas da natureza, mas ele tem seus limites. Na sua busca de conhecimento, os humanos inventaram mecanismos para superar essas limitações – o telescópio permitiu a visão de objetos muito distantes, o microscópio tornou possível a inspeção de fenômenos extremamente pequenos. E com o avanço da ciência e tecnologia modernas, os auxílios para o olho humano se multiplicaram exponencialmente.

Hoje estão muito adiantados os estudos para o desenvolvimento da inteligência artificial. Entendo a inteligência artificial como um mecanismo que está sendo criado para superar as limitações da inteligência humana. Em vários aspectos, no estágio em que hoje se encontra, a inteligência artificial é muito superior à humana. Por exemplo, li que os estudos de energia nuclear obtida por meio da fusão de átomos estão sendo realizados com o auxílio imprescindível da inteligência artificial. Outro exemplo é o ramo da robótica – por meio de robôs, os seres humanos estão ampliando sobremaneira sua possibilidade de atuação na exploração do desconhecido.

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É importante, entretanto, não desvirtuar o desenvolvimento e o emprego desse valioso instrumento moderno.  Não devemos transformar a inteligência artificial num fetiche. Isto é, a inteligência artificial não tem por objetivo imitar a mente humana ou substituí-la. Achar que ela pode tomar o lugar da mente humana é alimentar uma mentalidade de super-heróis dos gibis. Por favor, menos.

Numa aula de cosmologia, o professor colocou no quadro-negro as proporções de nosso universo: num canto, um quadradinho representava todo o universo que, de algum modo, podemos ver ou conceber; do mesmo canto partia um quadrado maior que chegava ao centro do quadro-negro, indicando a matéria escura ainda desconhecida por nós; o resto do quadro-negro era ocupado pela energia escura, igualmente desconhecida. Nós, humanos, somos um nada invisível num pálido ponto azul (a Terra nas palavras de Carl Sagan) perdido naquele quadradinho diminuto no canto do quadro-negro. Uma lição de humildade.

Ainda assim, o quadradinho encolhido no alto do quadro-negro é o nosso universo, aquele que nos deslumbra pela imensidão e nos intimida pelo desconhecido. Entendo que cada um de nós possui na cabeça universo semelhante. A mente humana equivale ao universo na medida em que contém igual imensidão e igual desconhecido. Assim como os estudos sobre o universo, as pesquisas sobre a mente humana avançam com eficiência e celeridade, mas cumpre lembrar que ainda se encontram em fases preliminares.

Só que não é apenas a dificuldade dos estudos que impede a cópia da mente humana. Que esses estudos avancem cada vez mais e tragam auxílios de suma importância para o conhecimento humano. Mas é essencial desfazer o fetiche, a quimera. A mente humana não pode ser copiada, clonada, imitada, porque ela tem características irredutíveis a essa tentativa. Como a vida, a mente humana é imperfeita. Impossível copiar a imperfeição.

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Rosaura Eichenberg

2.09.2019 – Dies Irae

 

Difícil muitas vezes compreender que não é sonho este país em que os bandidos posam de congressistas e membros da Suprema Corte para interrogar o juiz que ousou desmantelar parte do grande sistema de corrupção.  Afinal um estrangeiro com um histórico pouco confiável resolveu publicar conversas roubadas entre o juiz, agora Ministro da Justiça, e os procuradores, e ninguém achou por bem tomar a única medida sensata – expulsar esse pseudojornalista para bem longe, quem sabe para Marte. Não, os jornais e os noticiários antes cuidavam de registrar todas as informações suspeitas na procura de alguma falha mínima que pudesse invalidar o trabalho duro, corajoso e competente do juiz e dos procuradores. Enquanto essa guerra de foice se desenrolava no cenário hostil da principal cidade do país, ficava-se sabendo que o ex-presidente, ora presidiário, mais a ex-presidente fantoche que o sucedeu, tinham roubado do país meio trilhão para financiar o projeto comunista de poder de seu partido. E a lembrança da presidente que não conseguia falar, nem pensar tornava o sonho ou realidade ainda mais nublado.

Se esse capitão for eleito, vai começar a barbárie entre nós. Era o que se escutava, e complicado entender a frase depois que o capitão foi esfaqueado e quase morto.  Que barbárie ainda vai começar quando o país tem mais de 70.000 homicídios por ano? Os vampiros de capa preta que insistem em soltar bandidos presos, em garantir que todos possam roubar e matar em paz, em rasgar a Constituição do país dia sim, outro também – não são os que fazem de tudo para que a barbárie vingue? É a terra do carnaval, dizem – e por isso tem que ser uma terra em que não se pode viver em paz? Um bandido a cada esquina, um perigo sempre à espreita nas cidades e nos campos.  

Novas leis são aprovadas na calada da noite, penalizando os agentes da lei e cuidando para que os bandidos não sejam insultados. Muito mais importante protegê-los do que se preocupar com os pobres coitados que perdem a vida e seus bens, materiais e morais, numa luta desigual com criminosos que ostentam armas de último tipo recém-chegadas do tráfico nas fronteiras. Há muitos anos luta este país por uma vida decente. Foi com grande esforço que conseguiu retirar a presidente espantalho e prender seu comparsa de crimes, mas não dá para negar que apenas começou a trilhar o caminho difícil. Emprego decente para o sustento, menos violência nas cidades, crianças e jovens estudando pra valer nas escolas, uma vida que não seja de faz de conta. Ainda tudo muito enevoado, pairando na capital congressistas imundos e os vampiros da capa preta a berrar que devem ser respeitadas as instituições carcomidas e aos pedaços em que insistem em se apoiar cambaleantes.

 

Todo esse mundo insano ainda poderia ser enfrentado como eventos num país desconhecido de seus próprios habitantes, uma terra que se atribui o epíteto “país do futuro”. Mas o sonho ou realidade também assombra o outro lado das fronteiras e o remoto além-mar.

Atentados terroristas estrondam aqui e ali, mas os responsáveis pelos crimes, ou em nome de quem eles são cometidos, recebem loas por serem os oprimidos do mundo, os que sofrem insultos e afrontas de todo tipo, os que devem ser protegidos. O algoz é incensado, a vítima aniquilada. Um grupo ativista se denomina Antifa – antifascistas, e seus protestos violentos revelam que não passam de uma moderna versão dos camisas pretas de Mussolini. Um menino é morto a pauladas pela mãe porque se recusou a vestir roupas de menina. Em nome de uma religião que se proclama pacífica, doze cartunistas são assassinados, e até o Papa justifica os homicídios. Nas universidades, os estudantes não querem estudar Shakespeare porque o grande dramaturgo os ofende. Um juiz a ser confirmado para a Suprema Corte é acusado de ter atacado sexualmente uma colega da escola há mais de 30 anos – nenhuma prova, nenhuma testemunha, apenas o depoimento da moça que o acusa, algo a ser acreditado porque ela é mulher. Os dedos acusadores apontam para os racistas, os sexistas, os nazistas, os fascistas, mas o ódio de todos os “istas” estampa a cara de quem mantém os dedos em riste. Rostos igualmente deformados pela ira e pelo ódio nas mulheres que lutam pelo direito de matar seus bebês. A insanidade parece ser a regra, e o sonho é tão amedrontador que surge o pensamento mais plausível – o mundo está em guerra. A terceira guerra mundial tão temida e tão negada, ao que parece, já começou.

 

 

O pesadelo do mundo virado de cabeça para baixo acaba por confirmar que o mal tomou conta da Terra. “O diabo na rua no meio do redemoinho…” O nada chacoalha o planeta, e não há como negar que a clara intenção é dar cabo da humanidade.

Em primeiro lugar, o ataque da linha de frente mira a inteligência humana. Já no século XVI, Shakespeare ensinava didaticamente que duas condições se faziam necessárias para haver tirania – um ser deformado que busca o poder pelo poder, e um imenso bando de palermas, patetas, imbecis, estúpidos, retardados mentais, parvos, tolos e por aí vai. Assim é que os senhores poderosos fazem de tudo para emburrecer seus escravos.  Um de seus instrumentos é um enorme arsenal para destruir o sentido das palavras. Inventaram um “pensamento politicamente correto” que prende e elimina muitos vocábulos, tratando de deturpar os que escapam de seu controle. E cuidaram para que o sentido das palavras muitas vezes se invertesse, obrigando o belo a virar feio, o bem a se tornar o mal, o bandido a desempenhar o papel de mocinho.  O ataque é tão insistente e tenaz que a grande maioria nem vai perceber quando acordarem metamorfoseados em insetos. Outro ataque fulminante à inteligência se insinua nos meios de comunicação que a nova tecnologia acelera com os recursos digitais. De livros, artigos, cartas, textos, parágrafos longos, a comunicação passou para os Whatsapps, os Twitters, os Instagrams, os Facebooks, cada vez mais instantânea e menos compreensível. A linguagem humana agoniza aos olhos de todos, e com sua morte definha a literatura, a cultura, a religião, a ciência, a capacidade de pensar. Os próprios cientistas se deixam enredar em campanhas de retórica engana-trouxa como a das mudanças climáticas, afirmando sem pejo que o homem pode controlar o clima da Terra. Se a ação humana está destruindo o clima, não é curto o passo para declarar que está nas mãos dos homens controlá-lo?  Com isso contribuem para a falácia da ecologia em nível global, quando só é possível cuidar do meio ambiente em nível local.  É uma falácia de gibi, diga-se de passagem, porque transforma os seres humanos em Super-homens, Capitães Marvel, Batmans, e inflados Patetas. Muito triste, o ataque à inteligência humana passou a ser uma descomunal Marcha da Estupidez. 

Em segundo lugar, ataca-se a sexualidade humana. Isso faz sentido, quando a intenção é acabar com a humanidade, porque sexo é um impulso vital dos humanos. Criaram para esse fim um apanhado de sandices chamado “ideologia de gênero” – a base desse disparate é a afirmação de que gênero é um construto social. Sexo é em primeiro lugar uma realidade biológica, e a identidade sexual uma construção de vida inteira predominantemente individual. O social desempenha um papel bastante superficial nesse processo, como se fosse um verniz. Apoiados nas condenações sociais de algumas das práticas sexuais, os que se querem senhores do mundo trataram de conseguir meios de impor socialmente identidades sexuais. A maneira mais canalha utilizada foi tentar anular a realidade dos sexos biológicos. Ninguém mais seria homem ou mulher, apenas um X. Eliminada a realidade, a identidade sexual podia ser trocada quantas vezes se quisesse, isto é, sexo se transformou numa quimera. Criou-se uma esquisitice chamada queer, alguém que não se submete à divisão binária masculino/feminino, podendo atuar como homem ou como mulher, ou como nenhum dos dois. Em suma, a sexualidade humana desaparece, todo mundo com direito a ter todas as identidades sexuais, ou melhor, obrigado a não ter nenhuma. A vilania da ideologia de gênero é a sociedade se achar no direito de determinar a sexualidade ou não sexualidade de cada indivíduo, e seu caráter diabólico vem à tona quando procuram impor essa ideologia às crianças e adolescentes, isto é, a seres humanos em formação que vivem a fase talvez mais conturbada da procura individual de sua identidade sexual. Nesse caso, o que se comete é na verdade um crime. Como atestam histórias terríveis de meninos que morreram por se recusarem a cumprir o que manda a ideologia de gênero. E outro intuito nefasto dessa sandice é a destruição da família, pois as figuras de pai, mãe e filhos não são quimeras, estando atadas à realidade do sexo masculino e feminino.

Em terceiro lugar, investe-se pura e simplesmente contra a vida humana. Os senhores do mundo consideram necessário reduzir a população do planeta, e para isso têm vários recursos à mão como guerras, epidemia de drogas, falta de recursos sanitários, promoção da prática do aborto. Hitler mostrou à humanidade que o total desrespeito à vida desemboca no holocausto. Infelizmente esse desrespeito está em vigor entre nós. A China impôs por muito tempo a norma do filho único, e um dos dispositivos da agenda 2030 da ONU é a promoção da prática do aborto. Outro dispositivo, tão nefasto quanto, é a liberalização das drogas. No Brasil, o povo condena e abomina o aborto, por isso o Congresso, de olho nos votos futuros, não quer saber de legislar sobre a questão – quem está tentando impor a famigerada agenda da ONU goela abaixo do povo é o Supremo Covil dos Vampiros. Muitos alegam que a posição do povo em relação ao aborto se deve ao fato de ser religioso, mas sua forte pulsão de vida parece ser a causa mais provável.  Escreveu um autor já clássico: “O sertanejo é antes de tudo um forte”, aludindo talvez a esse impulso vital dos brasileiros. Juan Rulfo, um grande escritor mexicano, referiu-se à mesma atitude numa conferência em que falava sobre o México e seu povo. Disse ele que o México é quase um deserto, terra árida e agreste, hostil à vida. “Mas,” continuou ele, “nós mexicanos somos teimosos, insistimos em fazer filhos.” Sentimento tenazmente combatido por organizações como a americana Planned Parenthood, que promove o aborto com práticas que reportam aos experimentos genéticos de Hitler. Em nome de um suposto progresso da medicina, realizam-se também experiências estranhas que criam seres híbridos, meio ratos, meio humanos. Atrevem-se cada vez mais a desrespeitar a vida sem temer o castigo que há de vir, porque todos no fundo sabem que nem homem nem mulher tem a capacidade de decidir sobre vida e morte.

 

 

Não é agradável o mundo em que hoje vivemos. Somos talvez prósperos, mas o mal se insinua entre todos os disparates que grassam como nas gravuras de Goya. Em dias mais sombrios, a impressão é que nova Idade das Trevas tomou conta do planeta. Quando a estupidez galopante desanima por demais, bate por vezes o desespero. Em Macbeth, Shakespeare encenou um inferno que encerra a mesma máxima de Dante Alighieri – “Deixai toda esperança, vós que entrais”. Àqueles a quem foi concedida a graça da fé ainda é possível seguir confiando na vida em meio à escuridão. Lemos em João Guimarães Rosa – “Deus é paciência”.  Mas no epicentro do redemoinho parece mais do que apropriado escutar Dies Irae de Wolfgang Amadeus Mozart.

 

Rosaura Eichenberg

21.06.2019 – O Brasil inteiro estudando…

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Ocorreram recentemente manifestações no Brasil contra o corte de verbas para a educação. Um grande número de pessoas invadiu as ruas pedindo maior empenho do governo nessa tarefa essencial em qualquer país. Vi algumas fotos das manifestações, e gostaria de comentar o cartaz que aparecia em primeiro plano numa delas. Dizia: “Educação não tem preço e sim investimento pois só educação nos TRAZERÁ crescimento!!”

É um atestado da grande tragédia brasileira – a educação está destruída em nosso país. E não se trata de uma questão de recursos, de financiamento, de subsídios. O Brasil é um dos países que mais investem em educação, mas ostenta no cenário mundial, se não os piores índices de educação, ao menos uma posição garbosa entre os três últimos colocados. Nosso sistema de ensino simplesmente saiu dos trilhos e não cumpre mais sua função. É preciso ser muito ingênuo para achar que o cartaz analfabeto seria apenas o erro de um aluno que não estudou bastante. Revela infelizmente a derrocada de nosso sistema de educação.

Erros em educação são especialmente danosos, porque não são corrigidos da noite para o dia. Eles se alastram por anos, às vezes décadas, e levam anos e provavelmente décadas para serem revertidos. Significam em geral gerações e gerações perdidas, as deficiências crescendo como bolas de neve ladeira abaixo.

Antes da ditadura militar, a escola pública constituía referência no ensino brasileiro. O patinho feio era então a escola particular. Vale pesquisar o que inverteu essa realidade – a escola pública se tornou lixo, e a escola particular, um lixo apenas mais aceitável a um custo exorbitante.

Não sei o que provocou essa perversão na educação brasileira, mas lembro que nos anos 70 o ensino secundário passou a ser incentivado como uma forma de se preparar para o exame vestibular da universidade. Proliferaram os cursinhos preparatórios, e o que se aprendia na escola visava apenas a melhorar o desempenho dos alunos nas provas de admissão que passaram a abranger múltiplas disciplinas. Um efeito colateral dessa tendência foi a adoção de testes de múltipla escolha, o que levou várias gerações de alunos a responder perguntas apenas marcando um X, isto é, sem elaborar frases. A redação tornou-se inexistente nos exercícios escolares, e isso certamente teve um impacto negativo no desenvolvimento intelectual. Tanto assim que os educadores reconheceram o erro e recuaram procurando voltar à prática antiga, mas o leite já estava derramado.

Ainda no início dos anos 70, tive contato com muitos colegas que seguiram a carreira docente, e observei uma atitude que à época considerei preocupante. Todos reclamavam do baixo rendimento dos alunos, muito ignorantes na sua opinião. A profissão de professor não era valorizada naqueles tempos, se é que algum dia o foi, e a posição de meus colegas parecia uma resposta ao desrespeito pela imagem do mestre. Reagiam atacando os alunos, exasperados por ter de aguentar seu escasso conhecimento e comportamento errático. Havia algo estranho, pois é natural que os alunos sejam ignorantes, eles estão na escola para aprender. Meus colegas pareciam querer lecionar a alunos mais adiantados, passar de professores do ensino médio para professores da graduação e até pós-graduação na universidade.

Mais tarde vim a compreender essa tendência no contexto de uma mudança então em andamento no ensino brasileiro. Por um efeito em cascata, propagou-se um erro muito danoso pelos vários níveis do aprendizado. Os pequenos do curso primário não aprendiam o que deveriam aprender, por isso tinham de repetir o aprendizado no curso secundário que ficava comprometido e incompleto.  Ao ingressarem nas universidades, os alunos não dominavam o que deveriam ter aprendido no secundário, por isso ao menos os primeiros anos do curso superior eram perdidos com a revisão de conteúdos que não tinham sido estudados nos anos anteriores. O curso universitário tornava-se assim igualmente capenga, e procurava-se compensar grande parte de sua incompletude com os estudos na pós-graduação. De deficiência em deficiência, os anos de formação dos brasileiros viraram uma colcha de retalhos com mais buracos que remendos.

Nos anos 80, acompanhei de longe mudanças estranhas no ensino da língua portuguesa. Já nos anos 60, eu tinha lamentado a retirada do latim dos currículos do ensino secundário, porque sempre tive como fundamental a infraestrutura linguística que o estudo do latim proporciona. Mas depois observei certas características no mínimo bizarras do ensino das línguas. Por exemplo, ensinavam-se no secundário as funções da linguagem definidas pelo linguista russo Roman Jakobson. Ora, não seria essa análise mais pertinente para um grau avançado dos estudos linguísticos? Teria razão de ser para quem ainda aprendia a gramática da sua língua? Aliás, a nomenclatura gramatical deve ter sofrido muitas alterações ao longo dos anos, pois para minha surpresa, numa aula de mandarim, descobri que minhas colegas não sabiam o que era voz passiva. E outra amiga bem mais jovem me deixou estupefata, quando no meio de uma conversa a respeito de um texto, me perguntou: “O que é que você chama de pronome?” Segundo Graciliano Ramos, a gramática é nossa primeira prisão, porém é inescapável – mesmo com nomes diferentes, as estruturas gramaticais devem ser examinadas e exercitadas. A língua portuguesa, a “inculta e bela”, possui suas regras peculiares que, embora apinhadas de exceções, devem ser obedecidas. No Livro do Desassossego de Bernardo Soares, Fernando Pessoa reclama de algumas pessoas que diziam ter contato com espíritos – como é que elas querem que eu acredite que dominam os espíritos, quando não conseguem dominar nem a gramática da língua portuguesa?

Será que a escola passou a exigir dos alunos um apanhado superficial de cada disciplina, sem lhes proporcionar o aprendizado miúdo, repetitivo, gradual de cada um de seus conteúdos? Talvez uma onda libertária equivocada que procura evitar todo e qualquer estudo cansativo, o que só pode gerar alunos incapazes de estudar. Uma tendência ainda agravada pela falta de seriedade na avaliação do aprendizado. Chega-se até a não reprovar alunos por receio do trauma da repetência.

Uma das críticas correntes ao ensino brasileiro atual é a doutrinação ideológica e política desde os primeiros anos escolares. Já existe uma forte reação a essa tendência em todo o país, que parte principalmente dos pais dos alunos. Tem-se incentivado um movimento chamado Escola Sem Partido, que tenta minorar os efeitos adversos de aprender a pensar de uma só maneira. O aspecto mais preocupante dessa camisa de força que enfiaram no ensino brasileiro é a chamada ideologia de gênero, porque nesse caso o martelo bate sem dó numa característica vital e essencial de todo ser humano, sua sexualidade.

Na área do ensino de português, encontrei alguns exemplos nocivos dessa interferência ideológica. Num livro didático para a escola primária, apresentava-se um longo texto explicando que as pessoas do povo falam errado, que isso é aceitável, que não se deve desconsiderar as pessoas por esse motivo, que tal atitude seria preconceituosa. E no meio da explicação aparecia um exemplo da linguagem popular – “Nóis pega os peixe”. Eu nem conseguia acreditar no que estava lendo, mas o livro era bem concreto nas minhas mãos e a frase popular não se apagava diante de meus olhos. Meus estudos de didática na universidade foram modestos, mas acho que basta o bom senso para saber que as crianças esqueceriam toda a lenga-lenga sobre a fala do povo na hora do recreio, mas gravariam na memória os erros da frase visualmente fixada.

Outro caso, que felizmente não passou de uma ameaça, foi uma proposta de mudança curricular. Parecia uma proposta surrealista, porque a orientação ideológica impedia que nas aulas de história os alunos aprendessem sobre os antigos egípcios, a civilização dos gregos, o Império Romano, a Idade Média, o Renascimento, a Revolução Francesa e muito mais. Quanto ao estudo da língua portuguesa, não fiquei menos perplexa. Os autores da proposta achavam por bem retirar os escritores portugueses das aulas de literatura no ensino médio. Os alunos leriam apenas autores brasileiros. Nesse nível de aprendizado, os estudos de literatura são apenas os primeiros passos de um conhecimento cultural de enorme alcance, mas as leituras marcam indelevelmente a formação do aluno. Que me desculpem, mas a proposta é imbecil, pois de uma coisa podem ter certeza, quem lê Eça de Queiroz jamais escreve “TRAZERÁ crescimento”.

Como não sou professora, os dados que apresento são apenas os que colhi de longe, por meio de comentários de colegas ou na imprensa. Aliás, quando vejo o estado atual da educação brasileira, eu me recrimino por não ter seguido a carreira docente. Sem talento para ser professora, ainda assim poderia ter contribuído para minorar o descalabro atual.

Pelo que tenho lido, já foi diagnosticado o mal que assola a educação brasileira, e procura-se recuperar o aprendizado dos conteúdos básicos, focando principalmente o ensino elementar. A pirâmide foi corroída a partir da base, e por isso precisa ser refeita a partir de seus fundamentos. Um grande problema é que a recuperação terá de ser realizada com o carro andando – impossível parar o carro, trocar a peça e retomar o andamento normal. Tudo terá de ser feito em tempo real e em multiprocessamento.

A medida necessária e urgente é que todos os brasileiros precisam retornar às carteiras escolares e estudar. Estudar muito e com gosto. Além dos pequenos do primário, dos adolescentes do ensino médio, dos jovens das universidades, todos os professores precisam voltar aos seus livros e pesquisas, porque os mestres são elos falhos na cadeia do nosso sistema educacional. A recuperação do ensino brasileiro passa necessariamente por melhorar a qualidade dos professores em todos os níveis escolares. Apesar de minha ignorância na área, arrisco uma sugestão – planejar um sistema de prêmios e incentivos ou estabelecer um excelente plano de carreira docente, para que a qualidade de nossos mestres e, consequentemente, de nossos estudantes se torne cada vez mais aprimorada. Quem sabe se em futuro próximo a escola pública não voltará a ser referência no ensino brasileiro.

 

Rosaura Eichenberg

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