de revoada

08.10.2019 – O Pânico de Fritz Lang

 

Em 1990, o mundo inteiro comemorou o centenário de nascimento de Fritz Lang, grande cineasta alemão do início do século XX. Eu cursava então a última série no ICBA – Instituto Cultural Brasil Alemanha – e me preparava para as provas do Grosses Sprach Diplom. Em homenagem ao grande artista alemão, um dos livros a serem estudados era uma biografia de Fritz Lang. E foi assim que li com espanto e admiração a história de sua saída da Alemanha nazista, quando Hitler assumiu o poder em 1933.

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Em 1933, Fritz Lang já era um cineasta famoso com uma lista nada desprezível de obras-primas realizadas. Desse período chamado sua fase de expressionismo alemão, constam, entre outros, Dr. Mabuse – duas partes: O Jogador. Imagem dos Tempos e Inferno. Os Homens desses Tempos – de 1922, Os Nibelungos – A Morte de Siegfried e a Vingança de Cremilda de 1924, Metrópolis de 1927, M, o Vampiro de Düsseldorf de 1931, seu primeiro filme sonoro, e O Testamento do Dr. Mabuse de 1933. Além dessa bagagem considerável de realizações, Fritz Lang era em 1933 um artista famoso e muito rico. Na época, um dos sinais de grande riqueza era o carro que possuía.

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Com os nazistas no poder, o filme O Testamento do Dr. Mabuse acabou sendo proibido. Um dos homens fortes na hierarquia do governo nazista, o Ministro da Propaganda Joseph Goebbels, ensaiava uma aproximação com a elite cultural da Alemanha. Numa entrevista concedida a Erwin Leiser em 1968 (link do vídeo abaixo), Fritz Lang fala que Goebbels até o convidou, a ele e à mulher, para um jantar na sua casa, ocasião em que foi muito cordial e educado sem mencionar o filme do Dr. Mabuse. Essa película foi montada em fevereiro de 1933, e em 28 de março Goebbels fez um discurso-programa aos profissionais do cinema no Hotel Kaiserhof, seu quartel-general, citando filmes-modelo como Os Nibelungos, com direito à presença de Fritz Lang ao seu lado na mesa. Em 29 de março, O Testamento do Dr. Mabuse é proibido. E em 30 de março, Fritz Lang é intimado a se dirigir ao gabinete de Goebbels, que desejava falar com ele.

Hitler and Goebbels na UFA em 1935

 No vídeo, é possível acompanhar pela descrição de Lang o que foi esse encontro no final da manhã de 30 de março. Ao esboçar a arquitetura opressiva dos vários corredores que teve de percorrer, com os vigias a pedir documentos e dar ordens ríspidas quanto à direção a seguir, ele nos faz sentir que estamos em mais um dos filmes de Fritz Lang, devidamente amedrontados na enorme sala com a escrivaninha de Goebbels bem ao fundo. A conversa se desenrola de modo bastante pacífico, mas Lang não para de mencionar que o suor escorria pelas suas costas. Goebbels diz que o Führer admirava a obra de Fritz Lang, especialmente Metrópolis, e que desejava a cooperação do cineasta, que ele traçasse as linhas de toda a indústria cinematográfica da Alemanha nazista. Lang se inclina agradecendo a honra que lhe é concedida, mas não deixa de olhar pela janela o grande relógio com os ponteiros marcando o tempo que voa. Goebbels ainda se refere ao filme censurado do Dr. Mabuse, expressando seu desejo de que o final fosse diferente, com a fúria do povo matando o doutor diabólico. Completamente molhado de suor, Lang consegue por fim sair do gabinete de Goebbels e corre a ver se os bancos ainda estão abertos. Em vão, não consegue tirar dinheiro nenhum, vai para casa, arruma a mala, e à noite toma o trem que o leva para longe da Alemanha e dos nazistas.

Cartaz Dr Mabuse e cenário de Metrópolis

 

Quando li essa passagem na biografia de Lang, não pude deixar de me espantar com o pânico que parecia ter se apossado do cineasta. Afinal, pensei, ele não poderia ter esperado para fugir no dia seguinte? Bem, a resposta é não, se o pânico era avassalador. E o homem que criara a série de filmes sobre o Dr, Mabuse devia saber muito bem o que estava para acontecer na Alemanha. Pois, nas suas palavras, tinha colocado na boca de Mabuse a propaganda nazista, essencialmente sua tendência a destruir a confiança do povo no governo eleito para construir sobre esses destroços o império do crime. Essa frase não soa familiar no Brasil de hoje às voltas com um STF e Congresso corrompidos?

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Muitos já contestaram essa história relatada por Fritz Lang em várias ocasiões. Alegam que seu passaporte só acusa que entrou em Paris em 28 de junho, fez uma viagem de avião a Londres, passou por Berlim em julho e chegou finalmente a Paris em 21 de julho. Ora, Lang afirma ter tomado um trem para sair de Berlim em 30 de março de 1933. Embora tenha passado um ano na França antes de se exilar nos Estados Unidos, isso não quer dizer que tenha tomado o trem para a França naquele 30 de março. Áustria, Suíça eram outros possíveis destinos. Divorciou-se de Thea von Harbou, escritora e roteirista de muitos de seus filmes, em 20 de abril, mas isso confirmaria a presença de Lang na Alemanha nessa data? E um seu colega de ofício, Emil Hasler, que se admirou por ver Lang sentado perto de Goebbels no encontro com os cineastas em 28 de março, afirma que depois desse dia Lang simplesmente desapareceu. Embora Fritz Lang tenha certamente dramatizado sua fuga da Alemanha nazista, o seu relato parece mais fiel aos fatos que os carimbos no seu passaporte.

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Ao longo de 1990, tivemos a oportunidade de ver vários filmes de Fritz Lang como atividade extra nas aulas do ICBA. Filmes realizados na Alemanha e nos Estados Unidos. Dentre todos, o que sempre me fascinou sobremaneira é M, o Vampiro de Düsseldorf. Primeiro filme sonoro de Fritz Lang, roteiro elaborado com Thea von Harbou, tendo o extraordinário ator austríaco Peter Lorre no papel principal, a maestria de Lang constrói a obra-prima desde a primeira cena. E quem não guarda na memória com um calafrio a melodia de Grieg assobiada pelo assassino antes de cometer seus crimes?

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O título do filme enfrentou turbulências desde o início da filmagem. Para a narrativa de um assassino serial de meninas que passa a ser perseguido não só pela polícia, mas também pela rede de criminosos da cidade porque ele está causando prejuízo aos negócios ilícitos, o primeiro título escolhido foi M, Mörder unter unsM, O Assassino entre nós. O filme é de 1931 – o partido nazista ainda não chegara ao poder, mas suas ideias sombrias já permeavam todo o ambiente cultural de Berlim. Assim é que Fritz Lang começou a ter dificuldades em alugar estúdios para realizar a filmagem e acabou mudando o título que passou a ser M, Eine Stadt Sucht Einen MörderM, Uma Cidade Procura um Assassino. Quando chegou ao Brasil, o título do filme se transformou em M, O Vampiro de Düsseldorf.  Fritz Lang e Thea von Harbou construíram o roteiro sobre as notícias que saíam nos jornais a respeito de Peter Kürten, o monstro de Düsseldorf. Ao reproduzir o título do filme em português, o tradutor brasileiro foi criativo ao usar a palavra Vampiro, e consciencioso ao dar o nome da cidade que tinha sido palco dos terríveis crimes. Mas o título brasileiro produziu um curto-circuito em muitos alemães, como, por exemplo, no diretor do Goethe Institut à época em que estudamos Fritz Lang. Ainda me lembro de sua cara perplexa, sem conseguir encontrar uma explicação para que se falasse em Düsseldorf, quando o filme mostrava para qualquer alemão que se preze a cidade de Berlim.

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Acho que em nossos tempos difíceis, mais uma vez assombrados pela ameaça do totalitarismo, é muito conveniente rever os filmes de Fritz Lang. Não só pelo refinamento de sua arte – muitas vezes encontrei semelhanças entre os filmes de Fritz Lang e Alfred Hitchcock. Vale também sua descrição do ambiente sufocado de uma sociedade totalitária, capaz de gerar o pânico que talvez tenha experimentado ao ver Dr. Mabuse se materializar na Alemanha nazista.

 

Rosaura Eichenberg

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