de revoada

04.12.2017 – Gênero, número e grau

 

As opiniões e convicções que povoam nosso Zeitgeist estão longe de concordar em gênero, número e grau. O alarido dói nos ouvidos de qualquer um, sobretudo no que diz respeito à chamada questão de gênero.

O gênero é uma máscara que inventaram para sexo, a realidade biológica que está no cerne do impulso vital do ser humano. Ao longo dos milênios, a sexualidade tem se mantido no centro do palco, gerando prazer e dor em meio a harmonias, conflitos e contradições. No século passado, houve um grande movimento de libertação sexual, quando tabus criados em torno das experiências sexuais foram desaparecendo. Passou-se a adotar uma atitude talvez mais franca e realista a respeito de sexo. Do que se pode apreender depois de várias décadas de novo enfoque da temática sexual, é que as mudanças arranharam o verniz social, denunciando e combatendo atitudes e crenças na sociedade, sem atingir o âmago da questão, predominantemente individual. Em outras palavras, apesar de todo o palavreado muitas vezes insosso sobre a questão de gênero (ao que parece, descobriram uma multiplicidade delirante de gêneros), o sexo continua uma realidade essencial da vida humana, sempre misteriosa e complicada para todo mundo, heterossexuais, homossexuais, assexuados, etc,

Em seu livro, O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir escreveu que não nasceu mulher, mas se fez mulher. Restringindo-se apenas a uma característica da vida humana, a sexualidade, ela não fez mais do que emitir uma verdade que atinge todos os seres humanos. Nascemos nus e sem nada neste mundo, e a construção de nossa identidade é um processo de vida inteira, precário e sempre em expansão, um longo caminho para dar corpo, forma e cor ao nome que recebemos ao nascer. A identidade humana se faz ao longo do tempo, e ainda nos momentos finais não deixa de ser infinito o que resta a fazer.

Na Odisseia, Homero narra o retorno de Odisseu a sua ilha de Ítaca depois da vitória dos gregos sobre os troianos. É a epopeia do herói que volta à sua origem e reconquista seu lugar no mundo. Odisseu aparece pela primeira vez no poema ao sair do mar numa praia dos feácios, depois de ter naufragado perto da costa. Uma espécie de nascimento simbólico. E a narrativa dos diversos episódios de sua viagem de retorno consiste num desfile de proezas pelas quais ele vai definindo sua identidade humana. Bem no início da viagem, ele chega à ilha de Calipso, uma ninfa divina que o acolhe e por ele se apaixona. Ela quer retê-lo perto de si e, com esse intuito, chega a lhe oferecer a imortalidade, mas Odisseu recusa. Mais tarde ele se aproxima da morada de Circe, uma feiticeira que transforma os homens de Odisseu em porcos por meio de uma poção mágica. Com a ajuda de Hermes, Odisseu restitui a forma humana de seus companheiros e consegue dominar a maga feiticeira. Os eventos se sucedem, e Odisseu vai delimitando seus contornos humanos. Ao chegar finalmente a Ítaca, ele tem de reafirmar sua antiga identidade e combater os invasores que pretendem desposar sua mulher Penélope, para dessa maneira reconquistar seu reino.

Os gregos antigos já nos mostram que a identidade humana tem de ser construída a partir da realidade. Calipso oferece a imortalidade  a Ulisses, mas ele recusa por saber que essa não é sua realidade. Querer ir contra a realidade é embarcar num delírio, numa farsa que mergulha qualquer um num parafuso sem fim. É aceitando seus limites humanos que o homem adquire asas para voar em liberdade. O deus da comunicação, Hermes, é quem ajuda Odisseu a livrar seus companheiros da forma animal de porcos. Sem limites, não há comunicação possível – o deus da comunicação vem ao socorro de Odisseu para barrar a maga feiticeira que procurava borrar a fronteira entre os homens de Odisseu e os animais.

Toda a chamada ideologia de gênero me parece surda aos conselhos dos gregos antigos. Em primeiro lugar, cometem um erro grave ao abordar o sexo apenas pelo seu aspecto social, quando é predominantemente individual. Além disso, constroem verdadeiros delírios sexuais ao se afastarem temerariamente da realidade. O sexo é uma realidade biológica, e há somente dois sexos, o masculino e o feminino. As vivências sexuais podem assumir diversas formas – heterossexualidade, homossexualidade, por exemplo – mas a realidade não muda. Um homem gay é homem, uma mulher lésbica é mulher. Não há opção sexual, apenas realidade sexual. Agora inventaram os transexuais, a mudança de sexo entrou na moda. Em nosso mundo consumista, falam como se todos pudessem comprar novo sexo no supermercado. Por meio de cirurgia e hormônios, julgam ser possível alguém mudar de sexo. Conseguem apenas criar uma grotesca fantasia de carnaval incapaz de dissimular a realidade. Lembram os companheiros de Odisseu transformados em porcos por Circe.

Um dos aspectos terríveis dessa chamada ideologia de gênero é a insistência em difundi-la entre as crianças e os adolescentes. Todos sabemos que o ser humano custa a amadurecer, e a fase da puberdade é turbulenta para qualquer um. Durante esse período, o corpo sofre mudanças, e cada um tem de assimilar seu crescimento. É um processo em que a família, o ambiente escolar, talvez convicções religiosas exercem considerável influência, mas o desenvolvimento árduo é traçado pelo indivíduo sem que existam regras que indiquem o caminho das pedras. Talvez seja desejável que a pressão da sociedade tenha mínima força, mas a esse respeito devem falar os especialistas em educação. O que me parece claro é que procurar impor a chamada ideologia de gênero às crianças e aos adolescentes nas escolas é um disparate. É confundir a cabeça de quem está passando por um terremoto na sua vida. Em certas escolas, não existem mais alunos e alunas, mas alunX. Esses devem escolher qual é o seu sexo. É ir contra a realidade, é afirmar que a realidade não existe, que o importante é escolher sua quimera. Nesses termos, a chamada ideologia de gênero me parece uma agressão às crianças e adolescentes – o que se quer uma ideologia de libertação é no fundo uma ideologia de opressão. Para mostrar que a inteligência humana resiste, cito um caso que li ter ocorrido nos Estados Unidos. No formulário de inscrição numa faculdade, era preciso definir como é que a pessoa gostaria de ser chamada – “he” ou “she”. Um dos candidatos escreveu: “ His Majesty”. Impor a ideologia de gênero às crianças e aos adolescentes nas escolas me parece ser uma das manhas de Circe.

Para finalizar, é importante lembrar o que ocorreu este ano em Porto Alegre, quando o Santander Cultural apresentou uma exposição de artistas brasileiros com foco na temática sexual. Houve grita na sociedade gaúcha, e a exposição acabou sendo fechada, acho que por iniciativa do próprio Santander Cultural. Esse fato deu lugar a uma série de discussões sobre censura à arte, à liberdade de expressão. Que se esclareça – o ponto polêmico da exposição era seu público alvo, crianças e adolescentes das escolas públicas que veriam as obras de arte e após discutiriam sua temática em sala de aula. Os pais dos alunos que visitaram a exposição é que protestaram e acabaram conseguindo o encerramento  da exposição. Não houve, portanto, censura à arte – se a exposição fosse aberta a adultos, acho que os gaúchos não abririam a boca. O que houve foi uma intervenção para impedir uma ação agressiva da sociedade contra as crianças e os adolescentes. Os gaúchos exigiram apenas mais respeito à fragilidade dos seres humanos em formação.

A discussão sobre a ideologia de gênero é longa, e espero que venha a ser estudada pelos especialistas e conhecedores da questão. Apenas gostaria de reafirmar minha impressão ainda que superficial – sexo é central na vida humana e, em que pesem todos os estudos, conhecimentos e a libertação sexual de anos recentes, continua a ser misterioso e complexo para qualquer ser humano.

 

Rosaura Eichenberg

18.12.2013

No final de 2009, alunos de uma universidade brasileira atacaram aos gritos de ‘Puta! Puta!’ uma colega que estava de vestido muito curto. Antes da revolução dos costumes sexuais, era comum uma dissociação da figura da mulher – ela era a santa, a senhora do lar, a mãe dos filhos, de um lado, e a puta, de outro. Essa divisão parecia diluída no mundo atual, mas o incidente na universidade veio me mostrar o contrário. Aliás, veio me lembrar que a imagem da mulher nos meios de comunicação, quando ela é apresentada como objeto de desejo, beira a figura da puta. Uma amiga psicóloga me disse: ‘Essa dissociação não desapareceu. Psicologicamente, ainda é assim.’ As mudanças externas são relativamente fáceis de serem levadas a cabo, as interiores levam muito mais tempo. João Guimarães Rosa escreveu Dão-La-La-Lão, uma novela de Corpo de Baile, em que se aproxima com muito tato e beleza dessa divisão da imagem feminina.

Rosaura Eichenberg

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