de revoada

4.04.2015 – O enigma brasileiro

Num seminário de literatura sobre a obra de Machado de Assis, realizado há mais de três décadas, tive uma experiência surrealista. Quase sem querer, eu me referi a Machado de Assis como escritor brasileiro, o que desencadeou uma saraivada de golpes desferidos por meus colegas. Como eu poderia dizer asneira tamanha? Só quem não era capaz de leitura crítica podia falar tal coisa. Sem conseguir acreditar no que escutava, fiquei sabendo que Machado de Assis foi um escritor universal, que de brasileiro não tinha nada. Confesso que não consegui acompanhar a discussão cerrada que se seguiu por causa de minha total perplexidade, mas ainda me lembro de um argumento – Machado de Assis não era brasileiro porque escrevia bem, brasileiro era Jorge Amado que escrevia mal. Sempre que penso nesse acontecimento do passado, lembro que Machado de Assis escreveu um texto fundamental a respeito da, vamos dizer, brasilidade. “Instinto de Nacionalidade” é um ensaio sobre a literatura brasileira, principalmente a realizada pelos românticos, em que ele propõe que os escritores abandonem o fascínio pelos aspectos exteriores de nossa paisagem, flora e fauna, inclusive a humana, e procurem cuidar do sentimento interior que caracteriza os brasileiros. Resumindo de modo grosseiro, ninguém precisa se fantasiar para ser brasileiro. E lembro também que Machado não só formulou o enigma brasileiro de maneira brilhante – seu ensaio ainda continua sem resposta depois de tantos anos – como também realizou o que propunha na sua obra. Pois não criou por acaso uma das mais impressionantes personagens femininas da literatura ocidental, que não pode ser senão brasileira?

Rosaura Eichenberg

8.06.2014 – Reflexões provocadas por Rubem Braga

rubembragaNo Galpão das Artes do Teatro Tom Jobim no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, realiza-se até 15 de junho próximo uma exposição sobre Rubem Braga – o Fazendeiro do Ar. Um prazer sempre renovado ler seus textos. A exposição fala de sua infância, de seu ofício de escritor, editor e repórter, de sua cobertura-jardim em Ipanema, de seu tempo como correspondente de guerra (Segunda Guerra Mundial).

Embaixo das fotos da infância, chamam atenção várias pedras, silenciosas, apenas com lembranças de águas e ventos. Na sala dedicada ao escritor, poeta e editor, várias máquinas de escrever, dessas que já não se usam, e na sala do repórter e correspondente de guerra, uma fileira de telefones, aparelhos toscos se comparados às engenhocas de nossa época. Na parede, um texto escrito em 1945, sobre capelinhas arrebentadas e um Cristo morto, decapitado e com um dos braços pendente. A beleza do texto como testemunho de um escritor diante de realidades brutas como a da guerra, enfrentando a necessidade extemporânea de produzir escritos para o jornal já marcado com o moto contínuo da edição diária.

Isso me lembrou um de meus sobrinhos, que é jornalista e correspondente de um jornal brasileiro no exterior. Apesar de apaixonado pela profissão, confessando sentir a adrenalina da notícia inesperada e urgente, ele é antes de tudo um escritor. E Rubem Braga repórter e correspondente de guerra fez ecoar nos meus ouvidos as reclamações frequentes de meu sobrinho – o ritmo frenético das informações, os textos das agências de notícias, imagens, vídeos, tudo amontoado nas mentes de quem edita os jornais e de quem os lê. Custei a entender essas queixas, mas via claro que ele queria poder escrever com mais reflexão, descrevendo com sensibilidade o que lhe era dado noticiar. Por exemplo, o modo como as notícias batiam nas pessoas que as estavam vivendo.

E de repente me ocorreu um vislumbre do que afeta as letras – a leitura e a escrita – neste mundo de e-books, kindles, blogs, emails, internet, iphones, ipads. Embora faça parte da mudança, o provável desaparecimento do livro feito de papel e tinta não é o elemento de maior impacto. A mutação que está abalando as letras de todas as línguas é uma nova vivência do tempo.

Antes da grande revolução que a tecnologia causou em nossa vida, a maneira de se comunicar com familiares e amigos que se encontravam em locais distantes era escrever uma carta. Escrevia-se uma mensagem, enviava-se a missiva pelo correio na esperança de que chegasse ao destinatário, o que nem sempre acontecia (o poeta Mario Quintana dizia que as cartas perdidas iam para Saturno), esperava-se por uma resposta que muitas vezes tardava, porque o correio era demorado ou porque o amigo não podia ou não queria responder logo. Hoje em dia, diante de um PC, notebook, laptop, ipad ou iphone, ficamos nervosos e irritados se a resposta da máquina não nos chega em questão de segundos. Os que leem textos na internet reclamam muito, se esses artigos são longos – tudo deve ser condensado, abreviado, de rápida assimilação, adequado à dinâmica dos novos tempos. As mensagens no chamado twitter não devem ultrapassar 140 caracteres, e muitos dos usuários da internet utilizam em suas mensagens enviadas por e-mail uma linguagem cifrada própria, para que não se perca tempo nenhum. Afinal, é demorado escrever “você” que, por essa razão, virou “vc”. Com a inevitável consequência de que escrever e ler mensagens tende a se tornar rápido demais, superficial, impensado. Pode-se afirmar que ainda se escrevem e leem livros, as mudanças sempre passam por etapas de transição de características específicas e pontuais, mas é inegável o impacto que essa nova relação com o tempo está causando no ato de ler e escrever. São atividades reflexivas que hoje tendem a ser realizadas de modo distraído e desconcentrado, ou melhor, sem pensamento.

E com isso volto às reclamações de meu sobrinho jornalista, aos textos únicos do Rubem Braga repórter e correspondente de guerra, e penso nas pedras que vi na exposição do Jardim Botânico. Ao criarem seus jardins, os chineses escolhem algumas pedras que colocam dentro de um rio, onde permanecem submersas por um longo, longo tempo. Só depois de as águas terem escrito suas mensagens nas pedras é que eles as retiram do rio para ornar o jardim planejado. Como as pedras, ler e escrever devem encontrar um modo de resistir à avalanche do tempo que nem mais se escuta.

Rosaura Eichenberg

17.05.2014 – Machado de Assis facilitado?

“Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco.” Assim começa o recado de Machado de Assis ao leitor antes de seu romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Em que pese a ironia, ele parecia falar a sério sobre a dificuldade de seu livro ser compreendido e apreciado por muita gente. Recordando minhas várias leituras de suas obras ao longo da vida, vejo que sempre o considerei um escritor difícil. Principalmente para os jovens, pois me parece cada vez mais que um dos requisitos para sua compreensão é já ter na bagagem cultural alguma experiência de vida. Por isso, foi com surpresa e espanto que li nos jornais deste maio de 2014 a notícia de que uma escritora de livros para crianças vai reescrever Machado de Assis a fim de torná-lo mais palatável aos jovens, e que, para essa tarefa, recebeu subsídio do Ministério da Cultura. Segundo as reportagens, a facilitadora de Machado reescreve o texto – seu primeiro alvo é o conto “O Alienista” – substituindo termos em desuso por expressões empregadas em nossos dias. Ora, a linguagem machadiana nunca foi de difícil compreensão por causa de termos antiquados, aliás coisa que, em caso de real necessidade, seria resolvida com um glossário anexado ao livro. A única maneira de facilitar Machado de Assis é destruí-lo, isto é, transformá-lo no que ele não é – um escritor fácil. Além do mais, o recurso estilístico mais empregado por Machado é a ironia, construída de forma sutil. Será que, com sua troca de palavras, a facilitadora de Machado de Assis não sente o risco de mexer em algo inconsútil? O Ministério da Cultura empregaria seus recursos com mais inteligência, se os utilizasse para preparar os jovens brasileiros a enfrentar as dificuldades de compreender o que pensou, sentiu e expressou nosso maior escritor.

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Rosaura Eichenberg

10.05.2014 – Uma frase de Dostoiévski

Ter decifrado uma pessoa por inteiro não me parece ser a maior felicidade. É ainda maior a felicidade de sempre descobrir naqueles que amamos novas profundezas, que nos revelam cada vez mais a impenetrabilidade de sua natureza rica em profundezas eternas.
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaDostoiévski

Rosaura Eichenberg

09.03.2014

Em sua biografia de Shakespeare, Will in the World, Stephen Greenblatt informa que a tragédia Macbeth foi escrita em homenagem ao rei James VI da Escócia e I da Inglaterra, quando ele subiu ao trono inglês após a morte da rainha Elizabeth I. Estranha homenagem, pensei, encenar o inferno da consciência de um criminoso para enaltecer a Escócia e seu povo. Greenblatt também diz que James I foi um rei muito culto, tanto assim que reuniu um grupo de eruditos para traduzir a Bíblia, tendo essa tradução, a chamada Bíblia do rei James, contribuído para fixar a língua inglesa. Uma das evidências de seu amplo interesse cultural é que a bruxasmacbethcompanhia teatral a que Shakespeare pertencia, Lord Chamberlain’s Men, passou a se denominar The King’s Men. E outro detalhe a respeito desse rei me chamou a atenção. Diz Greenblatt que o rei James, em que pese toda a sua erudição, interessava-se por feitiçarias, bruxas, superstições, envolvendo-se com esses assuntos a ponto de sentir-se intimidado por eles. Ora, Shakespeare cria sua grande tragédia fazendo uso desses elementos, pois introduz na peça as três bruxas. Entre os espectadores do teatro da época, havia os nobres alojados nos camarotes, enquanto na plateia (no pit – literalmente, no poço) aglomerava-se o povão. Por isso, todas as peças representadas tinham de conter sempre alguns personagens ou temas populares. As bruxas em Macbeth cumprem muito bem esse apelo popular. Shakespeare as utiliza com maestria, como, por exemplo, colocando-as no início da peça para dar aos espectadores todas as informações de praxe (onde e quando se passa a ação, o tema e principais personagens envolvidos – em certas peças, havia até um mestre de cerimônia para instruir o público a esse respeito). A cena é tão magistral que, com dez versos, as bruxas dão conta do recado, além de criar o clima da tragédia. Entretanto, a minha impressão pessoal a respeito das bruxas é de certo modo estranha. Elas sempre me pareceram ridículas, sempre me provocaram o riso. Ou melhor, sempre senti que as bruxas estavam rindo de nós, dos espectadores, como se dissessem: ‘Vocês são na realidade uns otários, uns patetas que ficam pensando que o mal está em nós. Olhem aqui ao nosso lado, se querem realmente saber onde está o mal. Aqui ao nosso lado… Macbeth.’ Foi por causa dessa minha impressão que achei ainda mais estranha a informação de que o rei homenageado tinha medo de feitiçarias.

Rosaura Eichenberg

08.03.2014

Stephen Greenblwilliam-shakespeare-biographyatt escreveu uma bela biografia de William Shakespeare, Will in the World, na qual reconstitui com muito talento a época em que a maior obra da literatura inglesa foi escrita. Seu estudo é fundamentado em documentos e registros históricos do período, bem como em evidências encontradas nas próprias tragédias, comédias e dramas históricos shakespearianos.

Desde o século XVIII existe entre os estudiosos que se debruçam sobre a vida e obra de Shakespeare uma polêmica a respeito da autoria das peças. Ninguém põe em dúvida a existência do homem Shakespeare – nascido em Stratford-upon-Avon, filho de um luveiro e negociante de gado clandestino, casado com uma mulher oito anos mais velha quando ele tinha dezoito anos, pai de três filhos, radicado mais tarde em Londres, onde atuou em companhias teatrais famosas como Lord Chamberlain’s Men, que depois se torna The King’s Men, enriquecido a ponto de comprar muitas propriedades e imóveis, todos na região de Stratford-upon-Avon. O que se questiona é se esse homem seria realmente o autor da obra, se não haveria por trás de seu nome outro dramaturgo de posição social elevada e instrução refinada que, segundo alguns,  estivesse mais à altura das peças. E, ao longo dos séculos, estudiosos da literatura têm apresentado possíveis candidatos ao posto de maior escritor da literatura inglesa e da literatura ocidental.

Ao tomar conhecimento dessa polêmica, não lhe dei atenção achando que se tratasse de mais uma loucura dos ingleses (nem sei bem como se formou essa imagem na minha cabeça, mas os ingleses me parecem um povo, no mínimo, excêntrico). Stephen Greenblatt escreve seu livro sem nem sequer mencionar a questão da autoria. Dá por estabelecido que as peças foram escritas pelo homem Shakespeare, e ponto final. O estranho é que a leitura da biografia escrita por Greenblatt me fez compreender pela primeira vez a existência dessa discussão, porque é espantosa a falta de documentação sobre Shakespeare – o dramaturgo e homem de teatro. Inexistência dos manuscritos das peças, ausência de cartas por ventura escritas por ele, pouca ou nenhuma menção ao teatro ou a livros em seu testamento. Esse ultimo documento tem como tema principal as várias propriedades que comprou em Stratford-upon-Avon, e deixa margem a dúvidas quanto à atividade do homem que ali dispõe de seus bens. Difícil imaginar que se tratasse de um homem de teatro, e mais, de um dramaturgo famoso e celebrado na época.

Ao longo da narrativa, dois momentos parecem realmente obscuros na vida de Shakespeare. Ao primeiro, os eruditos ingleses deram até o nome de “os anos perdidos” – é quando Shakespeare, instalado na casa do pai com a mulher e os três filhos, aparentemente bem estabelecido em Stratford-upon-Avon, abandona a cidade e a família, e toma o rumo de Londres. As perguntas sobre esse episódio de sua vida são legião. Por que decidiu ir para Londres? Por que não levou a família? Por que jamais mandou buscar a mulher e os filhos para lhe fazer companhia em Londres? Como foi o início de sua atividade teatral na cidade? Começou fazendo de tudo no teatro, um verdadeiro factótum que dizem ter desempenhado até a função de cuidar dos cavalos dos nobres (um flanelinha daqueles tempos), ou já despontou como dramaturgo respeitado? As perguntas são ruidosas e as respostas, surdas.

O segundo momento que me parece obscuro (e, nesse caso, a impressão talvez seja apenas minha) é sua decisão de abandonar o teatro no auge de sua carreira e retornar a Stratford-upon-Avon para viver com a mulher na mais bela casa da cidade, que comprara anos antes para ser a residência da esposa e das filhas (o filho, Hamnet, que com Judith formava o casal de gêmeos, morrera com 11 anos). Greenblatt estima que a volta a Stratford-upon-Avon ocorreu uns seis anos antes da morte de Shakespeare, por isso esse final de carreira não pode ter sido causado por alguma doença (imagino que as doenças não tinham vida longa naqueles tempos de poucos recursos médicos).

Enfim, lê-se o livro de Stephen Greenblatt como se fosse uma história de detetive, e a imaginação corre solta nos vários e possíveis desdobramentos da ação. Afinal a narrativa é construída por meio de suposições: Shakespeare teria frequentado tal escola, teria feito uma viagem para o norte, teria a proteção de alguém com posição mais elevada (isto e, um nobre), e por aí vai. E depois do livro de Greenblatt, uma rápida procura de dados também me deixou espantada, porque a lista de pessoas célebres que duvidaram da autoria de Shakespeare é desconcertante: Sigmund Freud, Orson Welles, Charles Chaplin, John Gielgud, Mark Twain e muitos outros.

Em sua autobiografia, Charles Chaplin escreve: “Não consigo de modo algum associar o Bardo com [a casa humilde em Stratford-upon-Avon]; parece incrível que uma tal inteligência tenha morado ou começado seu desenvolvimento ali. É fácil imaginar o filho de um fazendeiro emigrando para Londres e tornando-se um ator de sucesso e o dono de um teatro; mas que tenha se tornado o grande poeta e dramaturgo, e que tenha adquirido um tão amplo conhecimento de cortes estrangeiras, cardeais e reis, é inconcebível para mim. Não me interessa saber quem escreveu as obras de Shakespeare, se foi Bacon, Southampton ou Richmond, mas não consigo pensar que tenha sido o menino de Stratford. Quem quer que as tenha escrito possuía uma atitude aristocrática. Sua total desconsideração pela gramática só poderia ser a atitude de uma inteligência principesca e talentosa. E depois de visitar a casa humilde e escutar as escassas informações locais sobre a infância desconexa, o histórico escolar sem interesse, as caçadas em terras alheias e os pontos de vista tacanhos, não consigo acreditar que o jovem de Stratford tenha passado por uma tão extraordinária metamorfose mental a ponto de tornar-se o maior de todos os poetas.”

Confesso que o argumento linguístico – sua total desconsideração pela gramática como manifestação de uma inteligência nobre – calou fundo em mim. Mas se a leitura do livro de Greenblatt me deixou perplexa diante da questão da autoria das obras shakespearianas, além de curiosa e interessada em saber mais sobre Shakespeare, sua época e suas obras, continuo sem vontade de examinar os vários candidatos apresentados até agora por aqueles que duvidam da autoria das peças. Para falar a verdade, ainda fico com o enigma mais antigo – como foi possível que uma obra de tal alcance e envergadura tenha sido escrita pelo engenho humano?

 

Rosaura Eichenberg

04.03.2014

O século XIX foi uma era de apogeu para o romance inglês. Basta lembrar os nomes de Charles Dickens, Jane Austen, Emily Brontë, Oscar Wilde, William M. Thackeray, Robert Louis Stevenson, Walter Scott, Charlotte Brontë entre tantos outros, além de Thomas Hardy e Joseph Conrad  na virada do século. Interessante observar o grande número de escritoras nessa época, e por isso parece até enigmático que uma grande romancista do período, Mary Ann Evans, tenha preferido assinar seus livros com um pseudônimo masculino, George Eliot. Devido aos acasos da vida, somente agora vim a tomar contato com essa autora por meio da leitura de um de seus livros, Middlemarch. Há muito tempo não lia um romance com tanto prazer. Não só os personagens são muito bem delineados, como apresentam um rica vida interior, algo até inesperado num romance voltado para os costumes de um centro provinciano imaginário. A poeta americana Emily Dickinson deu a descrição mais precisa desse romance, ao enviá-lo para a esposa do crítico Thomas W. Higginson: “Trago-lhe um pequeno livro de granito em que se apoiar.” A escrita de George Eliot é densa, a leitura de apenas algumas páginas nos leva a meditar sobre vários temas ao mesmo tempo. Não chega a ser um romance que inclua ensaios em sua estrutura, como acontece em Robert Musil, mas as reflexões que suscita extrapolam o olhar arguto sobre o destino dos personagens. No capítulo 29, por exemplo, a autora abandona sua posição velada por trás de uma das personagens principais, Dorothea Brooke, e procura examinar como o marido dessa jovem compreende a situação por eles vivida. Esse sujeito, o Sr. Casaubon, é acima de tudo um chato. Bem mais velho que a esposa, dedicou sua vida a estudar textos clássicos e adquirir uma erudição que se recusa a florescer numa obra que tenha algum sopro de vida. O máximo que consegue fazer é escrever notas, a que dá o nome de Parerga, preparativos para seu futuro grande livro, A Chave para todas as Mitologias. Incapaz de escrever seu livro, incapaz de se apaixonar até pela jovem esposa, incapaz de viver. E como se vê no trecho abaixo (a tradução é minha), a própria autora deixa de se esconder atrás dos personagens e declara sem rodeios: “De minha parte, sinto muita pena dele.”

georgeeliot“Ele não antegozara grande felicidade na sua vida anterior. Para que alguém sem constituição física forte conheça uma alegria intensa, é preciso que tenha uma alma entusiástica. O Sr. Casaubon nunca tivera uma constituição física robusta, e sua alma era sensível sem ser entusiástica; era lânguida demais para que a emoção a fizesse esquecer seus melindres e entregar-se a um deleite apaixonado; continuava a adejar no terreno pantanoso em que fora incubada, pensando em suas asas sem jamais voar. A experiência do Sr. Casaubon era daquele tipo lamentável que se encolhe diante da piedade alheia e teme acima de tudo que isso transpareça: era essa sensibilidade orgulhosa e estreita que não tem substância sobrando para transformar-se em simpatia, e estremece como um fio de linha nas pequenas correntes da autopreocupação ou, quando muito, de uma escrupulosidade egoísta. E o Sr. Casaubon tinha muitos escrúpulos: era capaz de um severo autocontrole; estava determinado a ser um homem honrado de acordo com as normas; seria irrepreensível segundo qualquer opinião reconhecida. Na conduta, esses objetivos tinham sido alcançados; mas a dificuldade de tornar a sua Chave para todas as Mitologias irrepreensível pesava como chumbo sobre sua mente; e os panfletos – ou “Parerga” como ele os chamava – com os quais testava o seu público e depositava pequenos registros monumentais de sua marcha, estavam longe de serem compreendidos em toda a sua importância. ….. De minha parte, sinto muita pena dele. É uma sina, quando muito, desconfortável ser o que chamamos de altamente erudito e, ainda assim, não desfrutar de seus conhecimentos: estar presente a este grande espetáculo da vida e jamais livrar-se de um pequeno eu trêmulo e faminto – jamais ser plenamente possuído pela glória que contemplamos, jamais deixar nossa consciência ser arrebatadoramente transformada na intensidade de um pensamento, no ardor de uma paixão, na energia de uma ação, mas ser sempre erudito e pouco inspirado, ambicioso e tímido, escrupuloso e míope…..”

Middlemarch (capítulo 29)

Não se lê uma passagem dessas sem pensar no estrago que “um pequeno eu trêmulo e faminto” pode fazer na vida de todos nós.

 

Rosaura Eichenberg

02.03.2014

Estudar literatura é ter a oportunidade de ler as obras do passado e do presente, isto é, aproximar-se desse rico acervo do pensamento humano. Ensinar literatura é incentivar e orientar a leitura dos textos, para que ela se realize em amplitude e profundidade. Ao estudar letras na universidade, com foco em português e inglês, tive uma experiência que só pude avaliar com justeza décadas mais tarde. Naquela época, anos 60, era praxe que as aulas de literatura estrangeira fossem ministradas por professores visitantes provenientes do país da língua estudada. No último ano do curso, o professor de literatura inglesa chamava-se Mr. Man, um homem relativamente jovem, culto e profundo conhecedor da literatura de seu país. No início do ano, ele anunciou para nossa turma de formandos – o programa para este ano será Macbeth. Ele tinha vários discos com a peça toda gravada, por isso as aulas passaram a ter sempre o mesmo esquema: escutar alguns trechos, analisá-los, comentá-los. Só nas 10 linhas da abertura magistral da peça com as três bruxas em cena, foramwilliam-shakespeare-biography bem mais de cinco aulas. Vários colegas ensaiaram uma reclamação, que as aulas estavam sendo repetitivas, mas Shakespeare é Shakespeare, e o interesse de todos só fez aumentar com o passar do tempo. Pode até ser que Mr. Man tenha nos oferecido essa leitura de Macbeth para facilitar seu trabalho de preparar e ministrar as aulas, mas o estudo de Macbeth durante um ano inteiro terminou com a sensação, de minha parte ao menos, de que tínhamos feito um bom curso de literatura inglesa. Só bem mais tarde, porém, ao recordar e avaliar meus estudos universitários, é que me dei conta da extraordinária riqueza da experiência que nos foi oferecida. Uma coisa é ler Macbeth, estudar parte da literatura secundária existente sobre a tragédia (digo parte, por ela ser imensa), assistir a conferências ou aulas brilhantes de uma ou duas horas proferidas por estudiosos da obra de Shakespeare – tudo isso vale a pena e contribui certamente para o entendimento da obra. Mas outra coisa é estudar a peça durante um ano inteiro, conviver de certo modo com as palavras de Shakespeare por um longo período. A compreensão assim propiciada vai fundo, penetra até na medula dos ossos. Uma senhora americana culta e entusiasta da obra de Shakespeare, com quem falei a respeito desse meu estudo na universidade, apenas comentou que o professor teria escolhido uma tragédia demasiado macabra. Sem dúvida, Shakespeare encenou o inferno em Macbeth, mas isso não lhe tira o mérito de ser uma das grandes tragédias. Segundo Mr. Man, é a tragédia shakespeariana formalmente mais bem realizada. Curioso é que nunca tive a oportunidade de ver Macbeth no palco ou na tela. Em 1973, na única vez que estive em Londres, fiquei entusiasmada ao ler no jornal que a tragédia estava sendo apresentada na cidade. Custei a descobrir como chegar ao teatro, mas posso dizer que corri para comprar um ingresso e assistir à peça que me tomara um ano inteiro de estudos. A moça da bilheteria me olhou espantada quando lhe disse a que vinha: “Está tudo esgotado desde antes do início da temporada.” Pelo visto, o inferno é muito popular entre os ingleses. Porém, mesmo sem ter visto a tragédia, sem tê-la conhecido na forma para a qual foi escrita, isto é, para o palco, Macbeth participa das cenas de minha memória. Não só ficou gravado o diálogo das bruxas no início da peça ou o célebre monólogo de Macbeth ao saber da morte de Lady Macbeth. Muitas vezes também aflora, no meio do cotidiano, o alerta ou o pedido: “Remember the porter”.

Rosaura Eichenberg

19.01.2014

É grande o fascínio que as palavras suscitam. Em qualquer língua, elas revelam o espírito humano – ideias, emoções, o invisível dentro de nós. São certamente precárias, cheias de falhas na comunicação e na expressão, mas a linguagem é um dos instrumentos importantes que couberam à espécie humana. E mesmo com seu caráter fugaz, fragmentado, incompleto, seus recursos são infinitos.

Como a vida. Aliás, instrumentos de seres vivos, elas próprias têm vida. No dicionário podem adquirir uma aparência fossilizada, mas estão sempre prontas a retomar o ciclo vital. Os dicionários mais completos ou específicos registram suas mutações no tempo e no espaço. Por exemplo, basta dar uma olhada no tamanho dos verbetes do dicionário Oxford que indicam o uso da palavra ao longo dos anos, ou então examinar um dicionário de regionalismos. As palavras nascem, morrem, passam por mudanças, voltam ao passado, imaginam o futuro, enganam (essa é uma de suas características mais básicas), falam a verdade em meio a enganos, apontam para todas as direções e para lugar nenhum, entram e saem da moda, em suma, são precárias como a vida.

Um dos grandes mestres da literatura ocidental, o inglês Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Dodgson) escreveu dois livros clássicos “Alice in the Wonderland” e “Through the Looking Glass” para as crianças e também para os mais velhos. No último livro, Alice tem uma conversa com Humpty-Dumpty, personagem das rimas infantis inglesas que possui a forma de um ovo, durante a qual esse lhe expõe uma teoria linguística. Depois de os dois discutirem os significados das palavras e Humpty-Dumpty explicar que paga às palavras um extra quando deseja que signifiquem mais alguma coisa, Alice retruca que a palavra que ele acabou de usar não tem o significado que está lhe atribuindo. Ao que ele diz:

Ilustração de Lewis Carroll

“Quando eu uso uma palavra”, Humpty-Dumpty disse num tom um tanto desdenhoso, “ela significa exatamente o que eu quero que ela signifique – nem mais, nem menos.”

“A questão”, disse Alice, “é se você pode fazer as palavras significarem coisas diferentes.”

“A questão”, disse Humpty-Dumpty, “é quem manda – só isso.”

Na lida com as palavras, o caminho é tão tortuoso como a vida e contém nossa cotidiana luta pela liberdade. Afinal, cabe a nós mostrar a Humpty-Dumpty, em todo e qualquer detalhe mesmo ínfimo do dia a dia, que o significado das palavras não depende só de quem manda. Depende do conhecimento adquirido e do estudo, da procura da expressão clara e da comunicação eficaz, depende do trabalho e esforço humano. A lida pode ser dura, mas é a nossa sina.

Rosaura Eichenberg

18.12.2013

Os leitores de obras literárias gostam de dar títulos grandiosos a seus escritores preferidos ou admirados, tais como ‘o maior poeta do nosso tempo’, ‘o maior escritor da língua portuguesa’. Na virada do século, essa tendência virou uma verdadeira mania. Todos queriam dar o seu palpite sobre os maiores escritores do século que findava. Lembro que também entrei na dança e arrisquei que o grande escritor do século, o grande Dichter, chamava-se Franz Kafka e que o maior poeta tinha escrito em português, Fernando Pessoa. Mas imagino que no fundo todos sabem que esses exercícios são divertidos para quem gosta de ler, mas certamente vãos. Muito mais importante que receber o título de ‘maior escritor’ é ser lido e apreciado.

É bem verdade que aprendi na escola, na universidade e em vários cursos que ‘Camões é o maior poeta da língua portuguesa’, e que muito mais tarde, após leituras e mais leituras, cheguei à conclusão, ora tão original, de que ‘Camões é o maior poeta da língua portuguesa’. Mas essas classificações podem às vezes desorientar.

O poeta Carlos Drummond de Andrade foi considerado o grande poeta brasileiro na segunda metade do século passado. Nos últimos tempos, tenho escutado e lido ressalvas quanto a esse julgamento. Alguns acusam um certo prosaísmo nos poemas de Drummond, e muitos o consideram discursivo e pouco moderno (isso soaria provavelmente engraçado nos ouvidos do poeta na década de 30) sem o rigor poético de João Cabral de Melo Neto. Ora, penso que atacando a primazia atribuída a Drummond na poesia contemporânea, muitos acabam cometendo erro grave, que é não reconhecer a excelência da sua poesia. Se ele é ou não ‘o nosso maior poeta’, pouco importa. Mas ler, apreciar e assimilar os seus poemas é um privilégio que seria muita burrice recusar ou menosprezar. Ele não está entre meus poetas favoritos, mas no começo do dia quase sempre lembro Drummond:

‘Lutar com palavras
É a luta mais vã
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã.’

Rosaura Eichenberg

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