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21.07.2022 – Encontrando Circe no Mundo Moderno

 

Aprendi com os gregos uma lição valiosa. Uma linha mestra de seu pensamento revela que, para verdadeiramente ser, o homem precisa reconhecer e aceitar seus limites. Se tenta ir além, o homem comete húbris (em grego ὕϐρις), desmedida, o que causa sua destruição. Em palavras mais simples, o homem precisa viver e pensar dentro da sua realidade, senão está fadado a sucumbir.

No poema épico Odisseia, Homero narra a viagem de retorno de Ulisses, que volta ao seu lar em Ítaca depois da guerra de Troia. É um percurso acidentado de longos dez anos. Ulisses aparece pela primeira vez no poema saindo do mar, após o naufrágio que destruiu seu navio e matou seus companheiros. Nadando até a praia, Ulisses chega à terra dos Feácios onde é acolhido pela adolescente Nausicaa, e no meio desse povo desconhecido, ele narra suas aventuras desde que saiu de Troia até aquele momento. Depois a narrativa acompanha Ulisses no seu retorno a Ítaca, onde tem de reconquistar seu reino.

No primeiro grupo de aventuras até o naufrágio, Ulisses e seus companheiros enfrentam perigos dos quais quase sempre escapam por um triz. É possível observar um padrão nessas aventuras: ao vencer, por exemplo, o ciclope Polifemo, os gregos afirmam não ser monstruosos. A primeira aventura é na ilha de Calypso, uma ninfa do mar que vive prisioneira na ilha de Ogigia. Ulisses chega à ilha em condições precárias, e Calypso cuida do herói por longos anos e por ele se apaixona. Ela quer conservá-lo na ilha para sempre, o que significa que Ulisses precisa tornar-se imortal. Ulisses afirma ser humano – isto é, não divino – quando recusa a imortalidade, e com a intervenção de Atena e Zeus consegue que Calypso o deixe partir. Mais adiante, Ulisses e seus companheiros encontram outra divindade perigosa chamada Circe. Trata-se de uma feiticeira que sabe manipular venenos e poções mágicas para fins maléficos. Circe seduz por engodo os companheiros de Ulisses, transformando-os em porcos. Com a ajuda do deus Hermes, Ulisses consegue vencer Circe obrigando-a a restituir a forma natural a seus companheiros. Nesse episódio, os gregos afirmam ser humanos – isto é, não animais. Um detalhe a observar – para afirmar sua mortalidade, Ulisses recebe ajuda de Zeus, o senhor supremo do Olimpo, ao passo que para afirmar sua forma humana, recebe ajuda de Hermes, o mensageiro que providencia a comunicação entre os deuses e os homens vivos e mortos.                            

Lembrando as aventuras de Ulisses, é de assustar o que está acontecendo em nosso mundo quanto a venenos de Circe imiscuídos em ideologias sobre o “gênero” dos seres humanos. Sexo é crucial para os humanos por integrar o impulso de vida. Dois são os sexos biológicos, o masculino e o feminino, e cada um deles tem suas próprias características corporais e mentais. É uma realidade que o ser humano não pode negar ou adulterar sob pena de perder a si mesmo.

Os gregos insistiam que os seres humanos têm de reconhecer seus limites. Não existe maneira de alguém poder viver uma quimera. A morte vem a cavalo. Ninguém pode ser o que não existe. Ninguém pode ser o que não é. A tentativa tresloucada de seguir esse caminho gera apenas seres monstruosos com um só desejo, o da própria destruição.

Do remoto século V a.C., os gregos acendem o alerta máximo para o cenário humano atual. Mais ainda, quando os donos do poder incentivam crianças e adolescentes a viver quimeras, o alerta estronda de vez.

 

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