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10.04.2021 – Céu e Inferno na literatura

 

Nas minhas leituras caóticas pela vida inteira, encontrei mais de uma vez relatos sobre o céu e sobre o inferno. É verdade que não li a Divina Comédia de Dante, mas ainda bem jovem li Paradise Lost de Milton, e em muitos outros livros vi aparecer uma legião de demônios. Eles são muito mais frequentes que as figuras divinas, e sua diversidade se revela nas inúmeras alcunhas que recebem. Em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa arrola a multidão de nomes do diabo em português.

O que sempre me chamou a atenção foi a riqueza das descrições diabólicas, os muitos detalhes e discursos. Em comparação ao inferno, o céu surge em geral monótono, uma peça teatral sem ação. Em Paradise Lost, Satã é de longe a personagem que mais atrai a atenção do leitor.

Satan Legend Movie (Page 1) - Line.17QQ.com

Pensando com mais cuidado, compreendi que os humanos temos mais familiaridade com os demônios que com os seres divinos. O engenho humano como que se vê sem palavras diante do divino, mas nada de braçada nas artimanhas do demônio, principalmente porque é na linguagem que ele arma seus múltiplos enganos.

Sem conflitos no céu, não sabemos como escrever sobre algo que nos é desconhecido. A distância entre o patamar humano e o divino é avassaladora. Só para mencionar um aspecto talvez pequeno – Deus é eterno, a vida do homem na Terra não o é. Nós estamos montados num vetor do tempo, por isso a nossa compreensão tem de lidar com o tempo. Imagine-se a dificuldade de escrever uma história em que os verbos são conjugados apenas no presente.

Aspiramos ao céu, à eternidade, à perfeição – talvez pelo grão divino que abrigamos em nossas almas. Mas emudecemos, quando desejamos falar sobre “the undiscovered country from whose bourn no traveller returns”.       

 

 

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