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24.07.2021 – Where Have All the Rebels Gone?

Van Morrison e Eric Clapton são dois grandes artistas da música popular britânica. Em nossos tempos sombrios, revelaram ter a coragem de dar com sua música uma resposta altiva aos que querem escravizar a humanidade.  Van Morrison escreveu um blues contra os lockdowns, Stand and Deliver, Eric Clapton o cantou.

Os inimigos da humanidade ordenam – Stand and Deliver (Expressão comum nos assaltos na estrada ou na coleta de impostos).  A resposta/pergunta é – Do you wanna be a free man or do you wanna be a slave?  Pelo jeito, nem Van Morrison nem Eric Clapton deixaram que lhes enfiassem o medo no coração.

E alertam – You better look out, people, before it gets too late.

 

Stand and deliver

 

You let them put the fear on you

Stand and deliver

But not a word you heard was true

But if there’s nothing you can say

There may be nothing you can do

Do you wanna be a free man

Or do you wanna be a slave?

Do you wanna be a free man

Or do you wanna be a slave?

Do you wanna wear these chains

Until you’re lying in the grave?

I don’t wanna be a pauper

And I don’t wanna be a prince

I don’t wanna be a pauper

And I don’t wanna be a prince

I just wanna do my job

Playing the blues for friends

Magna Carta, Bill of Rights

The Constitution, what’s it worth?

You know they’re gonna grind us down, ah

Until it really hurts

Is this a sovereign nation

Or just a police state?

You better look out, people

Before it gets too late

 Van Morrison

 

 

20.07.2021 – Fariseus dos tempos modernos

Encontram-se fariseus na Bíblia com certa frequência. Uma explicação do significado de seu nome é fornecida por Hadriano Simon em Praelectiones Biblicae Novum Testamentum. A palavra fariseu tem origem hebraica – perushim (de parash = separar). Do hebraico passou para a forma grega – ϕαρισαιοι, isto é, fariseus = separados.  Não eram assim chamados porque evitassem o contato com os pagãos, pois separar-se dos gentios era comum entre os judeus. Eles evitavam o povo, de quem insistiam em se manter separados.

Em seus comentários sobre o Evangelho de São Mateus, Santo Tomás de Aquino comenta a malignidade dos fariseus. “Fariseus, isto é, separados, porque perversamente interpretavam, convertendo o bem em mal (Eclesiástico 11,33).” E mais: “Neles vemos um exemplo e tipo dos que não querem crer, para os quais não bastam nem os argumentos mais manifestos, porque, obscurecendo o intelecto com a malícia da vontade, enganam-se a si mesmos com vãos raciocínios.”

Em nossos tempos, as ideologias dominantes estão infestadas de fariseus. É verdade que, como os fariseus bíblicos, eles interpretam perversamente e convertem o bem em mal. Mas o que chama atenção é que, como na análise de Santo Tomás, 1) eles não querem ver a verdade – se Santo Tomás fala da verdade divina dizendo que eles não querem crer, os “fariseus” atuais nem querem reconhecer a realidade dos fatos. 2) Eles obscurecem o intelecto com a malícia da vontade – como querem ver apenas o que serve a seus interesses, o intelecto deixa de funcionar a contento. Por isso, não compreendem nem aceitam argumento algum, inviabilizando qualquer tentativa de discussão. 3) Eles se enganam a si mesmos com vãos raciocínios – tudo o que falam é um engano para si mesmos e para os outros, o que torna seus raciocínios vãos para usar o termo elegante de Santo Tomás. De maneira bem mais grosseira, diríamos que acabam em puro besteirol.

Interessante observar um dado nessa comparação entre os fariseus da Bíblia e os de hoje em dia. Conforme o significado da palavra fariseu, eles se mantinham apartados do povo. Um dos traços da ideologia esquerdista é o imenso desprezo pelo povo, que eles consideram apenas massa de manobra. Não sei se a ideologia global dominante é tão somente esquerdista, mas seus agentes certamente se apartam do povo no sentido de que não querem contato com a realidade.

A guerra tomou conta do nosso planeta. Um dos requisitos da defesa é conhecer o inimigo, por isso essa reflexão de Santo Tomás sobre os fariseus é oportuna.

 

 

17.07.2021 – Moby Dick

Dois comentários sobre o romance de Herman Melville me reavivaram a memória da leitura desse grande livro. Melville não é um escritor fácil – como quem não quer nada, ele conduz o leitor a meditar sobre temas que em geral estão muito além de nossa compreensão. Os textos de Melville sempre me causaram a impressão de eu pouco ter compreendido e um fascínio impregnado de medo pelo desejo de conhecer.  

Bartebly, the Scrivener foi a última história de Melville que li, e num momento em que me encontrava debilitada por uma fratura no ombro depois de uma queda na rua. Li desprevenida e gelei quando me vi mergulhada num conto de terror.

A leitura de Moby Dick é bem mais antiga. E o vislumbre da imensidão da minha ignorância tinha a cor branca da baleia que devora todas as cores. Entretanto, gravadas na memória como brasas incandescentes, estão as primeiras páginas da história. Ishmael – o narrador, “Call me Ishmael” – vagueia pela vila portuária com uma inquietação no coração, uma melancolia que não vai embora. Há um crescendo nos parágrafos até que ele chega à límpida conclusão – era tempo de se fazer ao mar.

Quando li esse começo de história, experimentei a sensação de já ter lido aquelas frases muitas vezes, há muito tempo. O mar sempre me fascinou, mas desde criança ele me amedronta. Adolescente, eu só queria ler livros tendo o mar como personagem, mas na praia eu não incorporava a audácia dos piratas. Por isso, é um mistério que a minha memória de Moby Dick seja este anseio de Ishmael. Se alguém me fala de Moby Dick, eu quase sempre me pego pensando se não está na hora de me fazer ao mar.

 

 

19.06.2021 – Wuthering Heights

A Inglaterra do século XIX presenciou um enxame de romancistas. Foi nesse período que Emily Brontë escreveu um único romance intitulado Wuthering Heights – em português, O Morro dos Ventos Uivantes – publicado em 1847. Ao morrer em dezembro de 1848, Emily Brontë tinha 30 anos, e que tenha produzido uma obra de gênio com essa idade continua a espantar seus leitores.

A família Brontë vivia em Haworth na região de West Yorkshire na Inglaterra. A mãe morreu cedo, e foi o pai pastor que procurou cuidar dos quatro filhos sobreviventes (o casal teve seis filhos). As três filhas, Charlotte, Emily e Anne, começaram a escrever desde muito cedo, apenas o filho Patrick Branwell não se aventurou pelo mundo da escrita. Charlotte Brontë, a irmã mais velha, estabeleceu até uma carreira literária que a tornou famosa. Mas seus romances de grande talento são modestos perto do único romance de sua irmã Emily.

Emily Brontë construiu seu romance no cenário de sua região natal, uma área inculta de morros cobertos de vegetação rasteira como as urzes. São os famosos “Yorkshire moors”, em português, os urzais de Yorkshire. A tradução “charneca” refere-se a outra possibilidade de significado, isto é, terreno pantanoso com muita areia, mas os ingleses compreendem “moors” principalmente como um terreno agreste com arbustos e grama rasteira numa ondulação de morros não muito altos.

O título do romance pode induzir a leitor a pensar numa região montanhosa, o que não é bem o caso. Wuthering Heights [Morro dos Ventos Uivantes] é o nome de uma propriedade rural no romance, assentada num morro fustigado pelos ventos. O romance é estruturado pelo contraste entre essa casa assolada pelo rugido das ventanias e outra propriedade rural situada na área plana mais embaixo, um terreno ao abrigo das intempéries. Se essa segunda casa representa uma vida já imbuída de aspectos civilizados, Wuthering Heights prima pela selvageria da natureza e pelos instintos humanos desenfreados. Não é à toa que no início do romance as três pessoas que habitam a casa de pouco conforto se odeiam e fazem de tudo para se maltratar umas às outras.

O personagem principal do romance se chama Heathcliff. Literalmente, penhasco do urzal. De origem obscura, talvez cigano, ele chegou a Wuthering Heights ainda menino, adotado pelo senhor da casa. Tratado como membro da família, mas ainda assim um estranho, ele tem uma linha de vida tortuosa, impulsionada pela paixão, pelo ressentimento, pelo ódio. Por meios nem sempre corretos, acaba adquirindo as duas propriedades rurais, a dos ventos ruidosos e a das brisas amenas. Mas isso não lhe proporciona nada de valioso na interação entre os personagens das duas casas, nem na interlocução consigo mesmo. O tempo não consegue mudar Heathcliff, ele não é flexível. É antes o penhasco cada vez mais em estado bruto.

Muitos artistas se debruçam sobre a natureza humana e recuam diante do que observam por não ser agradável. Desviam o olhar, camuflam os sentimentos e escrevem belas obras no vestíbulo, sem se atreverem a entrar na casa. Emily Brontë não recuou diante da natureza de seus personagens, observou Heathcliff sem tremer, olhos nos olhos. Por isso, considero seu romance uma obra de gênio, que proporciona a seus leitores a oportunidade de acompanhar o que pôde vislumbrar.

Há algum tempo, ao procurar fotos do cenário em que se desenrola esta obra-prima, eu me deparei com algo curioso. Queria fugir das imagens clichês das capas do livro, com árvores fustigadas pelo vento. Preferia fotos da região, dos urzais, do pequeno rio. Muitas fotos foram aparecendo, e a escolha se fazia difícil. Quando me decidi por uma ou duas, tive uma surpresa. Essas não são da Inglaterra, me disseram, mas do Rio Grande do Sul. Contemplei perplexa a semelhança da paisagem dos urzais da terra de Emily Brontë com os pampas da minha terra. Uma coisa é certa – a natureza não é amável nestas duas regiões, mas pode descortinar muita beleza a quem ali vive.

 

13.06.2021 – Santo Antonio

 

Recupera-se o perdido,

Rompe-se a dura prisão,

E no auge do furacão

Cede o mar embravecido

 

Santo Antonio,  rogai por nós.

 

 

27.04.2021 – The Past is such a curious Creature

 

     The Past is such a curious Creature

     To look her in the Face

     A Transport may receipt us

     Or a Disgrace  —    

 

     Unarmed if any meet her 

     I charge him fly

     Her rusty Ammunition

     Might yet reply.

 

Emily Dickinson

 

 

O passado é uma estranha criatura 

Olhar nos seus olhos

Um Arrebatamento pode nos colher

Ou Abrolhos — 

 

Desarmado se alguém a encontrar

Eu lhe ordeno, fuja

Sua Munição enferrujada

Ainda pode replicar.

 

 

11.04.2021 – Vitor Bertini – Faíscas inesperadas na literatura

 

Por acaso, entrei em contato com alguns textos de um autor chamado Vitor Bertini da região sul do Brasil. A leitura de suas histórias curtas me fascinou porque vislumbrei alguém arregaçando as mangas e pondo mãos à obra para cumprir a difícil tarefa de escrever pra valer. A literatura está sempre à espera de quem a realize, e fiquei agradavelmente surpresa com as faíscas espargidas por Vitor Bertini numa época em que a escuridão parece encobrir os esforços literários.

Engenheiro, interessado em saneamento básico, Vitor Bertini teve até um site sobre o tema – www.h2oeco.br. Já ocupou cargos de chefia em órgãos de saneamento como a CORSAN – Companhia Riograndense de Saneamento – e a AESBE – Associação das Empresas de Saneamento Estaduais. Formação e interesses aparentemente alheios a um escritor – na verdade, nada é alheio a quem se debruça sobre a vida e sobre uma folha de papel em branco.

Em 2019, ele lançou na Feira do Livro de Porto Alegre seu primeiro livro de ficção: Não me abandones – a saga de Bénya Kirk, um cão de rua, contada pela família que ele adotou. O livro saiu por Esquina do Lombas e pode ser encontrado em Amazon.

“Escrever”, diz Vitor Bertini, “é a soma da vida que vivi com os sonhos que ainda tenho.”

Para ler textos de Vitor Bertini, aqui vai o link de “A História da Sexta”.

https://ahistoriadasexta.substack.com  

 

 

10.04.2021 – Céu e Inferno na literatura

 

Nas minhas leituras caóticas pela vida inteira, encontrei mais de uma vez relatos sobre o céu e sobre o inferno. É verdade que não li a Divina Comédia de Dante, mas ainda bem jovem li Paradise Lost de Milton, e em muitos outros livros vi aparecer uma legião de demônios. Eles são muito mais frequentes que as figuras divinas, e sua diversidade se revela nas inúmeras alcunhas que recebem. Em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa arrola a multidão de nomes do diabo em português.

O que sempre me chamou a atenção foi a riqueza das descrições diabólicas, os muitos detalhes e discursos. Em comparação ao inferno, o céu surge em geral monótono, uma peça teatral sem ação. Em Paradise Lost, Satã é de longe a personagem que mais atrai a atenção do leitor.

Satan Legend Movie (Page 1) - Line.17QQ.com

Pensando com mais cuidado, compreendi que os humanos temos mais familiaridade com os demônios que com os seres divinos. O engenho humano como que se vê sem palavras diante do divino, mas nada de braçada nas artimanhas do demônio, principalmente porque é na linguagem que ele arma seus múltiplos enganos.

Sem conflitos no céu, não sabemos como escrever sobre algo que nos é desconhecido. A distância entre o patamar humano e o divino é avassaladora. Só para mencionar um aspecto talvez pequeno – Deus é eterno, a vida do homem na Terra não o é. Nós estamos montados num vetor do tempo, por isso a nossa compreensão tem de lidar com o tempo. Imagine-se a dificuldade de escrever uma história em que os verbos são conjugados apenas no presente.

Aspiramos ao céu, à eternidade, à perfeição – talvez pelo grão divino que abrigamos em nossas almas. Mas emudecemos, quando desejamos falar sobre “the undiscovered country from whose bourn no traveller returns”.  

O engenho humano como que se vê sem palavras diante do divino, mas há uma linguagem que se aproxima do céu – a música.     

 

 

28.03.2021- Enigma antigo

 

Existirá realmente esta identidade coletiva vaga a que chamamos de povo de um país? Miguel de Unamuno não gostava da palavra povo. 

Os habitantes das nações modernas partilham costumes em comum, paisagens, modos de ver as coisas, tradições culturais e, sobretudo, uma mesma língua, tesouro em que se guardam e se transmutam todas as suas experiências.

Mas o que existe para além das circunstâncias não é sempre o jeito individual de ser, a aventura iniciada no mistério do nascimento, assumida como possível no combate com o tempo, e desaguando sem imprevistos no outro grande mistério de não ser?

 

 

06.02.2021 – Ainda sobre Machado de Assis

 

É bastante conhecida a mudança inesperada que ocorreu na carreira literária de Machado de Assis com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas talvez valha a pena comentá-la mais uma vez, ainda que sem o rigor de um estudo aprofundado. 

Machado começou a trabalhar numa tipografia, depois passou a escrever para os jornais e aventurou-se como escritor em vários gêneros: escreveu poesia, peças de teatro, contos e romances. A quebra na linha de sua trajetória literária se torna mais visível no romance com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1881. 

Antes Machado tinha publicado quatro romances, Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, que seguiam moldes literários franceses. Os capítulos saíam em revistas femininas à maneira de folhetim. Cumpre dizer que apesar da grande influência francesa na cultura daqueles tempos, os romances revelam um escritor com força e estilo próprios. Um tema constante nos quatro é a questão moral confrontada pelas protagonistas – moças envolvidas em casos amorosos, que pelo casamento terão uma ascensão social. O que lhes tortura o espírito é saber se é amor ou interesse o que as impele ao casamento. A ironia machadiana já marca presença nesses romances, com especial destaque em Iaiá Garcia.

Eis que em 1881 Machado publica um romance em que reconhece a influência inglesa de Laurence Sterne e deixa a ironia extravasar numa conversa direta do narrador com o leitor. Mas o que espanta no romance é menos o estilo literário adotado que a maneira desabusada como descreve e comenta as fraquezas humanas. Afinal, o narrador que comanda o romance está morto, e essa condição lhe permite observar o interior dos seres humanos sem qualquer entrave imposto pela vida. Machado é impiedoso em seu retrato das criaturas humanas na sua lida diária.

Mesmo naquela época, o mundo literário reagiu a mudança tão brusca nas obras do escritor. Até hoje, mais de um século passado, muitos ainda buscam respostas para o enigma. A ruptura na linha literária até então traçada se deu quando Machado se encontrava no final de seus trinta anos e início dos quarenta. Foi por esse período que Machado teve a primeira crise de epilepsia, fato marcante que o levou a refugiar-se na serra por algum tempo. Mas quase todos reconhecem que ligar a manifestação da doença com a inesperada reviravolta em seus escritos seria dar uma resposta simples a uma questão complexa, o que em geral se revela falho.

Num artigo escrito por Lúcia Miguel Pereira, encontrei uma observação que me apontou um possível esclarecimento. A autora menciona a resposta de Machado de Assis a um contemporâneo que lhe perguntou a razão de ele ter tomado desvio tão imprevisto ao escrever Memórias Póstumas de Brás Cubas. Disse Machado: “Eu apenas me desiludi dos seres humanos.”  

Numa compreensão tosca, concluí que depois de tanta discussão moral a respeito dos atos humanos e suas intenções, Machado tinha jogado a toalha e decidido que ser humano não presta. Com essa visão desassombrada da vida humana, Machado afiou suas observações sobre os embates interiores de seres tão fracos, sem recuar diante do que seus olhos revelavam. A partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, sua obra se pautou pela busca da verdade, ainda que ingrata, da humana condição. Essa sua visão amarga se traduz muito bem numa das últimas frases de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Não tive filhos. Não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

Os grandes romances que se seguiram – Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Ayres – obedecem a diretiva determinada no romance de 1881, cada um aprofundando a seu modo as revelações de Machado. Essa mesma amargura também se manifestará nos contos, outro gênero que a pena de Machado honrou com verdadeiras obras-primas.

Há de se convir que não é palatável o que Machado de Assis mostra na sua obra a respeito da vida sobre a Terra. Machado exige dos leitores muito estudo e reflexão para que possam começar a entrever o que ele está dizendo. Até os próprios estudiosos da sua obra tentam por vezes atalhos pouco esclarecedores na sua tentativa de compreendê-lo. Estudar Machado de Assis em busca de um retrato das contradições da vida social no II Império me parece atalho que proporciona um voo curto de galinha. A vida social não é o que mais importa nos escritos machadianos. Os ensaios de Augusto Meyer sobre Machado de Assis aproximam-se bem mais do Bruxo do Cosme Velho propondo vislumbrar na sua obra o homem subterrâneo de Dostoiévski, mas esse atalho não é prazeroso pois se embrenha na amargura da visão machadiana.

Cumpre frisar que dois movimentos estão presentes na maneira como Machado de Assis considera a vida humana. Primeiro, nunca será demasiado lembrar a grande coragem para não recuar diante do que se revela a seus olhos. Ele aponta, esmiúça, detalha, pinta, perscruta os seres humanos sem evitar descrever o que está longe de ser aprazível. O segundo movimento é que só foi capaz desse trabalho duro por amar a vida que lhe revela seu ser tão amargo. No conto “Viver!” incluído em Várias Histórias, o final é um diálogo entre duas águias:

 

“Uma águia – Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo

                         e ainda sonha com a vida.   

A outra – Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.”

 

Machado apresenta uma visão nada agradável do ser humano, difícil de provocar sentimentos amorosos nos leitores. Mas se a amargura o dominasse por inteiro, ele não teria escrito nada. Escrever é um ato de amor.

Esses parágrafos são um apanhado muito superficial de minha reação à obra de nosso maior escritor. Mas não poderia terminar o texto sem fazer uma menção especial a uma de suas obras, o romance Dom Casmurro.  Capitu, a protagonista, é uma das maiores personagens femininas da literatura brasileira e da literatura ocidental. Uma realização extraordinária de Machado de Assis. Apesar de ser personagem controversa – os que conhecem o romance sabem disso – Capitu só adquire vida por ser a criação de um grande amor – de Machado de Assis e de seus leitores.

 

 

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