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Poesia

Hölderlin

Ehemals und Jetzt

In jüngern Tagen war ich des Morgens froh,
Des Abends weint’ ich; jetzt, da ich älter bin,
aaaaaBeginn’ ich zweifelnd meinen Tag, doch
aaaaaaaaHeilig und heiter ist mir sein Ende.

Em Tempos Idos e Agora

Em dias mais jovens eu me alegrava pela manhã,
À noite chorava; agora que sou mais velho,
aaaaaComeço em dúvida meu dia, mas
aaaaaaaaAbençoado e sereno me é o seu fim.

Uma espiada num calendário ilustrado com design gráfico de poemas, 1.000 exemplares impressos em Offenbach am Main no ano de 1973. De repente o olhar se detém num poema de Hölderlin que ilustra o mês de fevereiro. O design gráfico é do artista alemão Herbert Post (1903-1978), uma vida dedicada a desenvolver e ensinar o desenho das letras, a tipografia e o design de livros. É apenas uma estrofe, simples, aparentemente sem maiores sofisticações. Tudo exaltado pelo desenho gráfico original. E mais uma vez se confirma o enigma da poesia, porque as palavras com e sem mistério penetram fundo no coração e ficam gravadas no ar, na água, na pedra.

Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770-1843) é considerado um dos pontos altos da lírica alemã. Na sua época, apesar de conviver e dialogar com Hegel, Schelling e Schiller entre outras sumidades do espírito alemão, seu talento e realização não foram plenamente reconhecidos. Versado nos clássicos gregos (traduziu Antígona e Édipo Rei de Sófocles), sua obra exibe a marca dessa matriz literária, o que talvez tenha sido a causa de não ser prontamente compreendida pelos contemporâneos, já que sua poética não soava em uníssono com a produção romântica daqueles tempos.

250px-Tübingen,_Neckar,_Hölderlinturm_IMG_5192Quem visita Tübingen na Alemanha encontra à margem do rio Neckar, que banha essa cidade universitária, uma torre cilíndrica encimada por um telhado circular. Ali existe atualmente um museu dedicado a Hölderlin, pois foi nessa torre de Tübingen que ele viveu isolado e em silêncio parte de sua vida. Hölderlin morreu com setenta e três anos, e aos trinta e seis, exatamente na metade de seus dias, foi dado como um caso perdido de demência precoce (os estudos psíquicos ainda eram rudimentares àquela altura) pelos especialistas da Universidade de Tübingen.

Os primeiros 36 anos, vividos intensamente, presenciaram seu desenvolvimento intelectual, emocional e criativo, e foi ao longo desse período que ele escreveu seus textos. Apesar de pertencer ao meio intelectual da elite sua contemporânea, Hölderlin não conseguiu um cargo oficial que lhe garantisse o sustento, e por isso empregava-se como professor particular dos filhos de famílias burguesas abastadas. Numa dessas casas de família, apaixonou-se pela mãe de seus alunos, paixão que foi correspondida. Quando descobriu o romance proibido, o marido demitiu o poeta, que passou a outros postos de trabalho e acabou viajando até Bordeaux na França, onde se deparou com mais desentendimentos. De lá retornou a pé para a Alemanha, chegando a seu país bastante estropiado, apenas para receber a notícia da morte de sua amada, a Diotima dos poemas. Essa série de eventos traumáticos culminou num comportamento errático por parte do poeta, o que levou sua mãe a enviá-lo com 36 anos para Tübingen a fim de ser examinado por médicos estudiosos da psique humana. Considerado irrecuperável, mas sem perigo para a sociedade por não ser agressivo, Hölderlin foi liberado. Um marceneiro, amigo de sua mãe  e admirador de seus poemas, decidiu tomar conta do poeta, abrigando-o numa torre à margem do Neckar, que recebera como herança familiar. Ali Hölderlin viveu recolhido a segunda metade de sua vida, isolado e sem falar com quase ninguém. Recebia apenas visitas esporádicas de admiradores, aos quais se apresentava  sob os mais variados nomes, e muito pouco rabiscou no papel. Um de seus passatempos era dedilhar um piano cujas cordas ele próprio cortara – produzia, portanto, uma música que só devia soar em seu interior.

Ainda sob o impacto de conhecer esse destino simetricamente trágico, foi assombroso encontrar um de seus poemas mais famosos, escrito em 1803, quando tinha, portanto, 33 anos. O título é “Hälfte des Lebens” (“Metade da Vida”).

Hälfte des Lebens

Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.

Weh mir, wo nehm’ ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.

Metade da Vida

Pende com douradas peras
E coberta de rosas selvagens
A terra no lago,
Ó cisnes graciosos,
E de beijos embriagados
Molhais a cabeça
Na sóbria água divina.

Ai, onde apanho, quando
Inverno, as flores, onde
A luz do sol
E as sombras da terra?
Os muros se erguem
Mudos e frios, ao vento
Rangem as ventoinhas.

Com duas estrofes de sete versos, o poema fala das duas metades da vida. Na primeira estrofe, reina o verão com as frutas maduras pendendo dos galhos sobre o lago. E, conforme interpretações de leitores alemães, os cisnes-poetas, graciosos no sentido de concederem graças ao seu redor, mergulham a cabeça na sóbria água divina. Apesar de embriagados de beijos, a água que os nutre é sagrada e sóbria, sobriedade que nos surpreende no adjetivo construído para designar a inspiração dos cisnes-poetas românticos. Na segunda estrofe, impera o inverno frio e, sobretudo, mudo. Calado, sem falas. O único som é áspero, vindo do movimento aleatório dos cata-ventos. Segundo os intérpretes alemães, a palavra “Fahnen” não designa “bandeiras”, devendo ser lida como “Wetterfahnen”, os cata-ventos. Apenas o vento produz algum som sem direção ou sentido próprios. Os poemas líricos são expressão do que se passa no interior de quem os escreve, sentimentos e experiências subjetivas que reverberam em quem os lê. A leitura desse poema abre um mar de possibilidades para o entendimento humano, mas é impossível evitar o calafrio quando se pensa que foi escrito três anos antes de Hölderlin se recolher à sua torre em silêncio.

São minhas as transcrições dos poemas em português, e agradeço a colaboração de Hans e Lillian Meyer na transcrição do primeiro.

Rosaura Eichenberg


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