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15 de dezembro de 1919 [Ospedaletti]

Neste últimos dois anos, vivi obcecada pelo medo da morte. Cresceu, cresceu, tornou-se gigantesco, e foi isso que me fez agarrar-me à vida, acho eu. Há dez dias desapareceu, não me importo mais. Deixa-me perfeitamente indiferente.

Tenho que deixar um sonho registrado aqui. Na primeira noite que passei nesta cama, isto é, depois de meu primeiro dia na cama, adormeci. De repente, senti todo o meu corpo se rompendo. Rompeu-se com um choque violento – um terremoto – e quebrou-se como vidro. Um longo e terrível estremecimento, sabe – a medula, os ossos  e todos os pedacinhos tremendo. Soou nos meus ouvidos – um alarido baixo e confuso, e havia a sensação de um brilho esverdeado cintilante, como vidro quebrado. Quando acordei, pensei que tinha ocorrido um violento terremoto. Mas estava tudo quieto. Vagarosamente despontou em mim – a convicção de que nesse sonho morri. Vou continuar a viver agora – talvez por meses, ou por semanas, dias, horas. O tempo não existe. Nesse sonho morri. O espírito, que é inimigo da morte, que treme tanto e é tão obstinado, foi expulso de mim. Sou (15 de dezembro de 1919) uma mulher morta e não me importo. Talvez console outros saber que a pessoa não se importa mais; mas eles não acreditariam, como também não acreditei antes de acontecer. Oh! Como foi forte o poder da vida sobre mim! Como eu adorava a vida e temia a morte!

Gostaria de escrever meus livros, passar uns tempos felizes com Jack (também não tenho muita fé nisso), encontrar-me com Lawrence num lugar ensolarado e colher violetas – todas as espécies de flores. Oh, gostaria de fazer montes de coisas, realmente. Mas não me importo, se não fizer.

*

 Dezembro Agora acontece várias vezes que, ao me recolher para dormir à noite, em vez de me tornar sonolenta, fico alerta  e, deitada aqui na cama, começo a viver mais uma vez cenas da vida real ou cenas imaginárias. Não é exagero dizer que são quase alucinações: são maravilhosamente vívidas. Fico deitada sobre meu lado direito e levo a mão esquerda até a testa, como se estivesse rezando. A posição parece produzir o estado. Por exemplo, se são 10: 30 da noite num grande navio no meio do oceano… As pessoas estão começando a sair da Cabine das Damas. O pai enfia a cabeça no recinto e pergunta se “alguma de vocês, mulheres, não quer dar um passeio antes de se recolher… Está magnífico no convés.” Com isso a cena se desencadeia. Eu estou . Detalhes: o pai esfregando as luvas, o ar frio – ou melhor, o ar da noite – que ele traz até a porta, as formas de tudo, a sensação do corrimão metálico da escada e dos degraus de borracha. Depois o convés – a pausa enquanto o charuto é aceso, a aparência de tudo ao luar, o zumbido constante do navio, o primeiro oficial no convés, no alto os sinos, o comissário dirigindo-se ao salão de fumar com uma bandeja, pisando sobre o degrau elevado, preso com latão… Todas estas coisas são muito mais reais, mais detalhadas, mais ricas que a vida. Acredito que poderia continuar até… Não tem fim.

Posso conseguir esse efeito com quase tudo. Só que não há personalidades. Nem eu me encontro lá pessoalmente. As pessoas são apenas parte do silêncio, não da forma – muito diferentes dessa – parte da trama. Sempre consegui criar este estado, até certo ponto, mas foi só depois de ficar realmente doente que este – vamos chamá-lo assim? – “prêmio de consolação” me foi dado. Meu Deus! É uma coisa maravilhosa!

*

 – Filhos?  – ele me perguntou, tirando o estetoscópio, enquanto eu lutava com a minha camisola.

– Não… nenhum filho.

Mas o que diria se eu lhe contasse que até poucos dias atrás eu tinha uma criança pequena de cinco anos e nove meses, de sexo indeterminado? Às vezes era menino. Mas já tinha sido menina nestes últimos dois anos.


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