Apenas algumas observações, porque o poema tem a imensidão do mar
Uma regra para todos os poemas épicos (pelo menos os que conheço) é a seguinte – a primeira palavra do poema é o tema da epopeia. Por exemplo, o nosso poema épico da língua portuguesa começa: “As armas e os barões assinalados /Que da ocidental praia lusitana / Por mares nunca dantes navegados…”. É o tema do poema.
A Odisseia começa com a palavra “Andra”, isto é, “Homem”; “O homem, canta, ó Musa,…” Este é o tema da Odisseia – o Homem na sua viagem em busca de si mesmo. É a viagem de todos nós.
Logo depois vem o epíteto de Odisseu. Os epítetos são resquícios da tradição oral dos poemas, um recurso para que o ouvinte soubesse de quem se falava. O epíteto que aparece no início da Odisseia é ‘polytropon’ – ‘polytropos’ significa literalmente ‘de muitas voltas’. O homem de muitas voltas. Esse sentido literal bate com o que Odisseu faz durante todo o poema, são voltas e voltas e mais voltas, ou vários caminhos e meios para escapar dos perigos e dos seus próprios erros. Mas o sentido mais conhecido é astúcia – um homem de mil artifícios.
A astúcia é ligada a Odisseu ao longo dos séculos. Até Penélope compartilha essa qualidade do marido. Ela mantém os pretendentes à distância por meio da tapeçaria que tece de dia e destece à noite. Muitos veem logro nesse modo de ser, o que torna Odisseu uma figura talvez menos heroica. Nesse ponto, discordo… imaginem de quem! … de Dante Alighieri. Dante colocou Odisseu no círculo dos fraudadores dentro do inferno. Considerando o que Odisseu faz durante sua viagem de 10 anos, não acho que seja fraudador. Ele emprega sua astúcia sempre que se vê diante de um inimigo muito mais forte fisicamente, isto é, ele engana seu adversário para defender a própria vida e a de seus companheiros. Por exemplo, quando Polifemo pergunta seu nome, ele responde que é ‘Ninguém’. Assim, quando ele fura o olho de Polifemo e o cega, os gritos do gigante pedindo ajuda ficam sem sentido ‘Ninguém me furou o olho’, ‘Ninguém me cegou’. Ora, isso não é fraudar, ele não tem a intenção de causar danos a outros, ele apenas se defende, a si e aos seus. E a ligação de Odisseu com o cavalo de Tróia não me parece vir dos poemas homéricos, mas de todas as leituras posteriores desses poemas.
O poema narra a viagem do retorno de Odisseu, desde que saiu de Tróia após a vitória dos gregos até seu reino em Ítaca. A complexidade da estrutura narrativa dessa viagem de 10 anos torna impossível aos meus olhos que o poema seja só tradição oral.
O poema abre em Ítaca e foca Telêmaco, o filho de Odisseu. A ilha está um verdadeiro caos, ocupada e saqueada pelos pretendentes que querem se casar com Penélope e assumir o poder. Telêmaco pode vir a ser eliminado. Portanto, o poema abre com o lar e a identidade de Odisseu destruídos, pois nem o filho se lembra do pai, nem o filho o conhece. O poema abre com a perda da identidade de Odisseu.
No próximo bloco, aparece Odisseu. Ao fugir de uma ilha com um barco frágil que ele mesmo construiu, Odisseu vem a naufragar diante da Terra dos Feácios. Ele perde o barco e nada até a praia. É assim que, na ‘aurora de dedos róseos’, Odisseu sai do mar, nu e belo como um herói, e chega à Terra dos Feácios. Uma cena muito linda, e desculpem a loucura da minha cabeça, mas essa entrada de Odisseu no poema me lembra o nascimento de um ser humano. Não nascemos das águas?
Quem acolhe Odisseu na praia é Nausicaa, a filha adolescente do rei dos Feácios, que está brincando com as amigas. É uma cena de uma delicadeza muito grande. Por meio da menina, Odisseu chega até o rei ou a rainha dos Feácios, que lhe permitem viver nessa terra de estranhos. A identidade de Odisseu é desconhecida de todos. Ela só vem a se revelar quando ele demonstra o grande guerreiro que é em disputas pacíficas entre os feácios, e quando desata a chorar ao escutar um bardo relatar suas proezas.
Num banquete oferecido pelo rei dos Feácios a Odisseu, ele então narra tudo o que lhe aconteceu desde que saiu de Tróia até naufragar diante da praia deste reino. Uma narrativa de tradição oral com essa estrutura?
Fica bem delineado que a viagem de retorno de Odisseu tem duas partes – a primeira vai de Tróia até a Terra dos Feácios, a segunda vai da Terra dos Feácios até Ítaca. Na primeira, ele tem de escapar de ciladas, perigos e dos próprios erros, para se manter um ser humano vivo à procura de seu caminho. Na segunda, ele tem de provar que é Odisseu, primeiro entre os Feácios, depois em Ítaca para recuperar seu reino.
A viagem de Odisseu é a busca ou a construção da sua identidade. A primeira parte é uma série de episódios em que os perigos são grandes e ele sempre escapa por um triz. O principal é manter-se vivo, não se deixar enganar (nem por ele mesmo), e não perder o seu caminho.
Terra de gigantes (Polifemo quer devorá-lo), terra de comedores de lótus que pelo efeito da planta vivem felizes como mortos-vivos, pois não se lembram de nada (não é um alerta milenar contra as drogas?), terra de Circe, uma ninfa do mar com poções mágicas de feiticeira, que transforma os homens de Odisseu em porcos (não é um alerta à patacoada de gênero?), o canto das sereias capaz de fazer Odisseu se perder no espaço desconhecido, o saco dos ventos de Éolo que inadvertidamente é aberto levando todos os navios a sair do rumo, a travessia da estreita passagem entre Cila e Caribdis – são muitos os perigos e voltas. O importante é se afirmar como humano, isto é, defender a vida e não desistir de procurar o caminho.
Desconfio que há uma viga mestra no pensamento grego. O homem deve viver e pensar dentro da sua realidade sob pena de ser destruído. Ninguém pode viver uma quimera, ninguém pode ser o que não é. Conhece-te a ti mesmo. Aristóteles escreveu um livro chamado Poética, em que apresenta em algumas páginas os principais ingredientes de uma tragédia. Diz que o herói trágico deve ser um homem virtuoso, virtude no sentido antigo de força, claro que não é só força física. Na tragédia, esse herói comete um erro – hamartia, que tem sua origem na húbris. A melhor tradução de húbris me parece ser ‘desmedida’, embora muitos falem em arrogância. O erro é o seguinte – por algum motivo (e aqui se abre o leque da complexidade humana), o herói trágico tenta ir além de seus limites, o que causa sua destruição. Visualmente, fica bem fácil de entender: uma figura num quadro é determinada pelo seu contorno; se essa linha é rompida, a figura se desfaz. O homem deve conhecer seus limites; se ele os ultrapassa, o homem perde o seu ser.
Na primeira parte da viagem de Odisseu, é isso o que Odisseu faz – ele procura seu caminho, seus limites, saber quem ele é. Isso fica bem claro no último episódio dessa primeira parte. Os homens de Odisseu cometem um erro grave ao comerem as éguas de Hélio – o deus enfurecido arma a destruição completa de todos os navios e tripulação. Naufragado, quase sem forças, Odisseu acaba sendo levado pelo mar até uma ilha, onde vive a ninfa do mar chamada Calypso. Ela encontra o náufrago e cuida de Odisseu, ajudando-o a se recuperar. Ele passa sete anos vivendo na ilha com Calypso. (A viagem leva 10 anos, sete são na ilha com Calypso). Odisseu não está feliz na ilha, não acha que seja seu lugar. Mas só decide fugir quando Calypso, apaixonada por Odisseu, quer se casar com ele. Ora, para se casar com Calypso, ele precisa se tornar imortal. É a única característica que distingue os homens dos deuses na mitologia grega – os deuses não morrem. Odisseu recusa a imortalidade, porque deixaria de ser humano, perderia seu caminho.
Na segunda parte, Odisseu tem de recuperar sua identidade perdida. O primeiro passo é narrar a sua história, o que ele faz na Terra dos Feácios. A narrativa da história é crucial para a construção da identidade e conhecimento humanos. O segundo passo é a luta em Ítaca para reaver seu reino, sua rainha, seu filho.
O poema acaba com a reconstrução do reino de Ítaca e da identidade de Odisseu dentro da sua família. Importante ver que a família é um valor relevante na estrutura social dos gregos antigos. Aliás, o tom trágico da Ilíada vem da destruição de Tróia, uma sociedade estruturada com suas famílias.
Começo a perceber que a Ilíada é um poema contra a guerra, porque lamenta a destruição de uma sociedade. Não é de admirar que o poema tenha dois grandes heróis – Aquiles, o grego, e Heitor, o troiano. A primeira palavra do poema é “Menin”, que significa cólera. “A cólera canta, ó Musa, de Aquiles filho de Peleu…” Portanto, o tema do poema é a cólera de Aquiles. Como Hamlet, Aquiles é um herói que hesita, porque pensa. O poema sobre a guerra abre com os gregos sitiando Tróia – e o que está acontecendo? A guerra está parada. Aquiles teve um atrito com Agamemnon e decidiu parar de lutar. Por isso, a guerra parou. Só mais tarde, porque Heitor matou o amigo de Aquiles, Pátroclo, é que Aquiles volta a guerrear. Quando Odisseu encontra Aquiles no Hades num dos episódios da Odisseia, Aquiles lhe diz que desejaria ser um camponês vivo trabalhando sobre a terra em vez de um herói glorioso entre os mortos. Pode ser loucura minha, mas acho que Aquiles e Hamlet têm algo em comum.
Na Ilíada, há um lamento pela destruição de Tróia com suas famílias. Na Odisseia, há a reconstrução de Ítaca com suas famílias. A família me parece ter um valor enorme para os gregos, por isso acho que não há uma grande distância entre os valores dos gregos antigos e os valores cristãos.
Uma das origens da nossa civilização ocidental é a Grécia antiga. E nossos valores são cristãos. O estudo dos gregos antigos e do cristianismo é um must para nós.
Rosaura Eichenberg